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'5 Para a Meia-Noite': Os Bastidores

Estúdios Valentim de Carvalho. Paço d’Arcos. Estúdio 4. A porta envidraçada descobre a entrada do estúdio, as paredes cimentadas e as escadas que dão acesso ao interior. A ilustre D. Helena surge na sua vestimenta azul – pequena, sorridente, amorosa, pronta para tirar fotografias com as pessoas que vão chegando e sempre adivinhando no seu rosto a frase popularizada nas participações ocasionais no programa. Uma porta abre-se para o maravilhoso mundo da televisão, com cenários à direita, à esquerda e em frente. É Sexta-feira. Passa das onze horas da noite. Falta pouco mais de uma hora para o espectáculo começar.

O 5 Para a Meia-Noite é um programa de humor alternativo, inspirado nos late night shows americanos, ao estilo de Jay Leno ou Conan O’Brien, que teve início no mês de Junho e terminará no final de Setembro. Apresentado por cinco apresentadores diferentes, durante os cinco dias úteis da semana, o programa é transmitido por volta das cinco para a meia-noite, e conta diariamente com convidados, rubricas e diversos sketches humorísticos para animar as noites da RTP2. Cada semana tem um verbo como temática para o humor, e os apresentadores – são eles Filomena Cautela, Fernando Alvim, Nilton, Pedro Fernandes e Luís Filipe Borges, por ordem de dias –, aproveitam o tema como bem entendem, de forma sempre criativa e audaz, conseguindo uma intensa interacção com os espectadores, em estúdio e através da televisão.

Sexta-feira é o dia de Luís Filipe Borges, conhecido vulgarmente como Boinas, devido ao objecto que raramente retira da cabeça. O apresentador surge ainda de t-shirt, boné na cabeça e um estilo descontraído, conversando com as pessoas que já chegaram ao estúdio para assistir. Ricardo Jorge Tomé, da RTP2, faz a reportagem fotográfica da noite, enquanto se aguarda pela hora do programa. Invulgarmente, neste último dia da semana, o estúdio está cheio. Nunca esteve tão lotado, nunca se pensou que alguma vez viesse a estar. Mas está. São mais de cinquenta as pessoas que se começam a concentrar entre as paredes cimentadas do estúdio para entrar no cenário do 5 Para a Meia-Noite. E lá dentro existem apenas quinze lugares sentados.
O cenário, em si, é um choque à primeira vista. Pequeno, acolhedor, mas totalmente diferente do que se vê na televisão, parece ter encolhido uns bons metros desde que o vimos na noite anterior a partir da caixinha mágica que temos em casa. Colorido, vivo, hospitaleiro, faz adivinhar um ambiente de enorme descontracção e alegria entre a equipa do programa, o que se denota imediatamente na forma como o público é permitido de entrar e conhecer o espaço antes do início do espectáculo. Salta à vista o frigorífico esverdeado, com o verbo da semana, lucubrar, fixo por íman (dentro do frigorífico, podem encontrar-se canecas com o ícone do programa, das que se oferecem aos convidados, e inúmeras buzinas que o Nilton e o Boinas tanto gostam de usar), tal como o relógio que marca irremediavelmente a meia-noite menos cinco minutos e o aquário com os peixinhos de diversos tamanhos e feitios.

À esquerda, a parede com as imagens dos cinco apresentadores e uns quantos objectos conhecidos dos mais admiradores do 5 Para a Meia-Noite, como o pote da Mena e o Boininhas em versão portátil. À direita, o ecrã onde passam os sketches e o famoso cacto com fotografias nos espinhos. Em frente, a secretária do apresentador e o sofá esbranquiçado e confortável onde se sentam os convidados. As câmaras a postos, o teleponto a mostrar as primeiras frases, algumas pessoas já sentadas nas cadeiras disponíveis. A lotação mais do que esgotada obriga à alteração do cenário e ao acrescento de bancos para o público se sentar, bancos esses que são colocados numa posição estratégica abrangida pelas câmaras. O público mais jovem vai aparecer no directo.

Faltam cinco minutos, avisa o senhor brasileiro a quem chamam de Betão. Está tudo a postos. António Costa, o convidado da noite, sorri ao ver o cenário pronto e a tranquilidade com que se prepara o directo. Dois minutos. O público já está mais descontraído, após a gravação da promo do programa da Sexta-feira seguinte, onde já apareceu em frente às câmaras e leu em coro as palavras do teleponto. Cinquenta segundos. Silêncio no estúdio, Boinas maquilhado e preparado para entrar pela porta de fachada que cria o ambiente informal do programa. Passa o genérico, que já todos conhecem. Três, dois, um, zero. E inicia-se o directo.
Gargalhadas, gargalhadas e mais gargalhadas. O teleponto auxilia o apresentador a coordenar o programa, mas o auricular que tem ao ouvido é uma ajuda preciosa para o improviso. Do outro lado da linha, André Ferreira, o génio das piadas e produtor do 5 Para a Meia-Noite, vai criando algumas das frases que ouvimos da boca de Luís Filipe Borges, ele próprio rindo-se do que acaba de dizer. António Costa apresenta-se totalmente descontraído, abraçando a tarefa de ler a letra de Taras e Manias e sorrindo com algumas piadas e sketches que passam e com o humor do actor de serviço, conhecido como Raminhos.

Sempre que o directo faz uma pausa, para passar um sketch ou uma rubrica, a iluminação é reduzida, a maquilhagem concertada e a respiração regularizada. São cerca de dois, três minutos, nos quais o tempo pára, literalmente, até regressar em cheio com o reacender das luzes e o aviso do Betão, que logo pede entusiasticamente aos espectadores no estúdio para baterem palmas. Regressa o poder das câmaras, das piadas, dos célebres sons (que se ouvem baixo, em pequenas colunas espalhadas pelo estúdio) e da conversa com o convidado, na que é uma hora bem passada na companhia de toda uma equipa amável e descontraída.

Boinas prepara-se para dizer as últimas palavras, levanta-se, sorri, adora o facto de ter a “casa cheia” e o público sorridente com o que acaba de assistir. 3, 2, 1, corta. Foi o quinquagésimo quinto 5 Para a Meia-Noite. Subitamente, tudo acaba: as palmas extinguem-se, as pessoas começam a caminhar para a saída, o apresentador retira a maquilhagem da cara, as cadeiras são deixadas para trás, tal como os bancos onde o público estava sentado. O apresentador é rodeado pelos fãs, e grande parte deles permanece dentro da sala, aproveitando para tirar fotografias e observar melhor o cenário. É Sexta-feira, último programa da semana, o que significa uma mudança de letras magnéticas no frigorífico – realizando-se a transferência para o verbo vampirizar –, a cobertura do sofá com um pano vermelho, para o proteger, e a arrumação do estúdio e do que foi alterado para albergar o público excedente. Em poucos minutos, o silêncio e a escuridão regressam ao cenário.
O 5 Para a Meia-Noite tem sido um fenómeno de audiências desde a sua estreia, no início do Verão. Share sempre próximo dos 10 por cento – com picos superiores –, e um enorme apoio nas redes sociais e na Internet em geral (nomeadamente a partir do twitter, do live chat e da Webcam live), são apenas alguns exemplos desse sucesso que o programa late night tem tido entre miúdos e graúdos. É inconvencional, é original, é divertido. Depende sempre dos convidados e dos apresentadores, tal como do tema da semana, mas no geral é um programa acarinhado pelo público e encarado como uma modernização do segundo canal e da noite na televisão portuguesa. Com fim marcado para o final do mês, está na mira um possível regresso do formato para o ano de 2010, ainda sem data prevista.

Publicado em Espalha-Factos

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