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Ser Jornalista

Existem inúmeros cursos de Jornalismo / Comunicação em Portugal. Apesar da elevada taxa de desemprego e das dificuldades que o sector está a viver, centenas de jovens candidatam-se, anualmente, a cursos relacionados com a área das ciências da comunicação e do jornalismo, em Portugal.

A comunicação continua a ser uma das áreas mais procuradas, e este ano de 2009 não será excepção. De 13 a 24 de Julho decorrerá o período de candidaturas ao Ensino Superior, por parte dos estudantes que finalizaram, em Junho, o Ensino Secundário, e pretendem ingressar na Universidade para o ano lectivo 2009/2010. De novo, centenas de jovens, a maioria nos seus dezassete, dezoito anos, tentarão alcançar um lugar nas faculdades pretendidas. E assim, daqui a três anos, centenas de jornalistas recém-licenciados sairão às ruas à procura de um emprego que não têm garantido.
O que devem os estudantes que pretendem seguir Jornalismo procurar num curso? Nos dias que correm, as boas médias não são suficientes para captar atenções; é necessária uma certa persistência, alguma experiência e diversificação de capacidades. O mundo da comunicação está a tornar-se cada vez mais exigente, valorizando cada vez mais a parte prática dos cursos, a experiência no terreno, do que propriamente o que se aprende dentro das salas de aula.

A opinião de quem se pretende candidatar, de actuais alunos, de recém-licenciados e de jornalistas profissionais irá dar algumas linhas directrizes decisivas para quem aspira a ser jornalista.


O SONHO DE SER JORNALISTA

As expectativas de quem quer seguir um curso de comunicação/jornalismo são sempre elevadas. Há uma boa dose de visão romântica do jornalismo e um desconhecimento do que o espera durante a licenciatura. A parte prática e formação profissional de jornalismo são por norma pontos comuns nas expectativas de quem aspira a ser jornalista.

Pedro Coelho tem 18 anos, é de Oliveira do Hospital, e terminou este ano o Ensino secundário. O passo seguinte será a candidatura à universidade e a tentativa de colocação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tal como refere na entrevista, apesar de não ter ainda a formação em jornalismo, a experiência na rádio Boa Nova, rádio Local de Oliveira do Hospital, tem-no ajudado a compreender o difícil mundo da comunicação e a contactar com esta realidade.
[ entrevista]

A REALIDADE FACE ÀS EXPECTATIVAS

Se as expectativas são muitas a realidade acaba sempre por desiludir. Alguns alunos de cursos de comunicação de várias universidades portuguesas dão-nos conta das expectativas iniciais e da realidade que encontraram sem deixar de falar do futuro que esperam.

Diogo Cavaleiro tem 19 anos e é aluno do segundo ano de Ciências da Comunicação, vertente Jornalismo, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Quando entraste no curso, esperavas que fosse como é, na realidade, ou tinhas uma ideia totalmente diferente do que seria estudar jornalismo?

Tinha uma ideia diferente. Apesar de me ter informado sobre o curso e a faculdade, a diferença face ao que esperava foi notória. Pensei em algo muito teórico mas também que houvesse um complemento prático maior do que o que, efectivamente, existe. E as ideias que temos sobre o que é estudar jornalismo alteram-se conforme o que se vai aprendendo. Todos os dias vamos aprendendo e percebendo novos objectivos.

Achas que o curso está adequado ao que se pretende num jornalista?

Por um lado sim, porque tem uma vertente teórica importante, com partes de cultura essenciais para alguém que quer ser um jornalista. No entanto, por ser um curso de Ciências da Comunicação e não de Jornalismo, essa parte sofre em termos de quantidade e de qualidade. Na área do jornalismo, fazia-nos falta mais condições técnicas e mais cadeiras. E essencialmente, segundo penso, um olhar mais real para o jornalismo actual com o qual só temos contacto com certos professores.

Porquê este curso?

Na altura das candidaturas, tive dúvida entre a FCSH e a UCP. Acabei por optar pela UNL por ser pública, porque tinha prestígio, porque achei interesse na oferta curricular.

Quais as perspectivas de futuro com a licenciatura em jornalismo?

Não são muito grandes. Toda a gente sabe que é uma área saturada e não há medidas em relação a isso. Não se diminuem as vagas e continua-se a aceitar um número enorme de pessoas na área em que dificilmente conseguem todos emprego. É tudo uma questão de trabalho, esforço, interesse mas também sorte.

A frequentar o segundo ano do curso de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Ana Fernandes de 19 anos considera que o curso corresponde às suas expectativas destacando que a falta de tempo para desenvolver assunto e matérias será o maior problema. [ entrevista]

Marco Almeida Paulo é um jovem de 22 anos, estudante de Ciências da Comunicação e da Cultura, vertente Jornalismo, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, em Lisboa. O jornalismo é a sua grande paixão, a par do cinema, da música e dos videojogos. Participa na revista online de cinema Red Carpet, e tem ainda outros blogues e sites onde escreve sobre os mais diversos assuntos.

Quando entraste no curso, esperavas que fosse como é, na realidade, ou tinhas uma ideia totalmente diferente do que seria estudar jornalismo?

Quando entrei no secundário não tinha qualquer intenção de seguir jornalismo. Só após dois anos num outro agrupamento é que comecei a despertar para o jornalismo, assim como o meu gosto por essa área começou a aumentar. Quando então decidi mudar de agrupamento comecei desde logo a informar-me acerca de todas as saídas que tinha após terminar o secundário e quais me interessavam. Sabia que um curso baseado em teoria, onde a verborreia fosse uma constante, não me seria útil. Hoje em dia interessa saber o que fazes e não o que outros possam ter feito. Certamente ajuda, para que não caias nos mesmos erros, mas tem muito mais relevância saber com o que irás lidar na vida profissional do que propriamente com o que outros lidaram. A Universidade Lusófona foi assim a minha primeira, talvez única, escolha pois era o curso que apresentava, e apresenta, as cadeiras mais práticas, que realmente ensinam algo de útil, não pondo de parte alguma teoria, mas não a usando como base. Posso assim dizer que a ideia que tinha do curso em ser bem mais focado na prática do que as restantes universidades não se mostrou falso e hoje em dia não podia estar mais contente com a escolha. Tenho estudado todas as bases do jornalismo, que em todo o lado as ensinam, e que preparam o aluno para o futuro.

Achas que o curso está adequado ao que se pretende num jornalista?

Como respondi anteriormente, o curso é bem focado no mercado de trabalho, com a realidade do jornalista. E como mostrar essa realidade? Usando profissionais, actualmente no activo, a leccionar as cadeiras, que cativem os alunos, que realmente mostrem o que se passa fora das quatro paredes de uma sala de aula. Num curso como jornalismo não basta colocar um professor qualquer a relatar matéria para que o aluno mais tarde a despeje num exame, aliás, várias cadeiras dispensam o exame obrigando o aluno a realizar trabalhos práticos que irá efectuar no seu emprego, se houver emprego! Reportagens televisivas, radiofónicas ou de imprensa ou notícias para os vários meios, é tudo feito a pensar na melhor forma de ensinar os jornalistas de amanhã. Se está bem adequado, ou não, ao que se pretende num jornalista é uma questão que talvez não possa responder da forma mais correcta, já que não frequentei outros cursos, mas olhando para as cadeiras, e respectivos objectivos, de outras universidades, acho que o curso onde estou, Ciências da Comunicação e da Cultura, é dos melhores que actualmente existem na grande Lisboa. Aliás, nem sou só eu que o digo, mas sim todo um conjunto de profissionais e instituições que elegem este curso como um dos mais competentes na actual formação de jornalistas.


Porquê este curso?

Repetindo algumas das coisas já ditas, este curso é mais prático que os demais. Tinha mais alternativas para além de uma Universidade privada, que actualmente o único senão é pagar-se bem mais que o normal, além de não ser assim tanto quanto isso, pois de resto é tão boa ou melhor que uma pública! Contudo, se vou pagar, seja que quantia for, para uma formação a pensar no meu futuro, que pague por algo que realmente vá valer a pena, que não tenha como único e simples propósito chegar ao final e poder dizer que tenho um curso mas que me tenha dado boas bases para continuar a aprender na minha profissão e, ao mesmo tempo, praticá-la da melhor forma que me for possível!

Quais as perspectivas de futuro com a licenciatura em jornalismo?

As perspectivas são as mesmas que todos os jovens licenciados: encontrar trabalho na área que me andei a formar! Actualmente, seja em jornalismo, medicina, design, direito ou engenharia, é difícil encontrar emprego. A situação não vai ser a melhor assim que tente entrar no mercado de trabalho e ter consciência disso é meio caminho andado para me incentivar a dar o meu melhor para que, mais facilmente, alguém decida apostar em mim, e isto não se resume somente a alguém que esteja a seguir jornalismo. Felizmente, apostarmos em nós mesmos, na carreira de jornalista, é algo, consideravelmente, fácil de se fazer! Talvez seja mais fácil para quem se encontre perto da capital já que por cá existe o Centro Protocolar de Formação Profissional de Jornalistas (Cenjor) que apoia jovens licenciados, ou quem queira ingressar numa carreira jornalística, e lhes dá uma ponte entre a parte académica e a parte profissional através de um estágio que coloca o recém-licenciado a trabalhar na sua área de interesse (televisão, rádio, imprensa ou multimédia). Basicamente, as perspectivas que tenho com uma simples licenciatura são poucas ou, praticamente, nenhumas, daí que desde cedo tenha decidido a apostar ainda mais além de uma licenciatura, não só através de especialização em várias áreas, pois hoje em dia quanto mais versátil for, mais cobiçado se é, mas também apostar em línguas estrangeiras como uma boa forma de me valorizar. Após tudo isso talvez consiga ter uma perspectiva de um futuro melhor, onde possa encontrar mais facilmente algo do meu agrado. Não só gostaria de trabalhar na minha área, como qualquer licenciado, assim como gostaria de trabalhar em algo do meu interesse. Tal situação torna-se mais verosímil se tiver melhores e maiores conhecimentos para além daquilo que me ensinaram na Universidade.

A VISÃO DOS PROFISSIONAIS

Jornalistas de formação e de experiência têm visões diferentes do papel dos cursos de comunicação e de jornalismo. a oferta das universidades deve ser consistente e actualizada face ao mercado de trabalho mas cabe também ao estudante procurar diversificar e consolidar conhecimentos e experiências.

Alexandre Brito é coordenador da redacção multimédia da RTP, onde está desde 2002. Anteriormente, esteve na SIC Online, SIC Notícias e no Canal de Notícias de Lisboa (CNL). Alexandre Brito é licenciado em Comunicação Social e "Master of Broadcast Journalism" pela Universidade de Boston, EUA. Foi aqui que ganhou o gosto pelas novas tecnologias ao tirar uma especialização em jornalismo online. Terminou a passagem pelo estrangeiro em Londres, onde esteve durante seis meses a realizar um estágio profissional na CNN. Actualmente, participa ainda na RTPN, nomeadamente no “À Noite a Net”.

Quais as exigências a que deve um curso de jornalismo responder?

Com as alterações tecnológicas em curso, deve ser ágil ao ponto de ensinar e preparar os alunos para os novos desafios, para as novas ferramentas. A parte académica é de extrema importância, e deve ser reforçada, mas é fundamental que os alunos deixem as universidades com domínio total dos equipamentos utilizados todos os dias nas redacções – tv, rádio, imprensa, áudio. A componente prática tem que ser reforçada. A escrita tem que ser reforçada. Não é admissível que alunos deixem as universidades sem saber escrever um LEAD devidamente, e isso, infelizmente, ainda acontece.

A componente teórica é importante ou devem os cursos apostar sobretudo na vertente prática e técnica da profissão?

Devem ser complementares. A teoria deve ser reforçada para abrir os horizontes dos alunos mas deve ser uma teoria que tenha realmente aplicação prática. A especialização, com escolha de disciplinas próprias por aluno, deve ser uma aposta. É um sistema que funciona e resulta, por exemplo, nos EUA. A prática é fundamental. De nada serve saber escrever se não sei como é que a caneta funciona.

É só a experiência que faz um jornalista ou uma licenciatura também ajuda?

Todos nós acabamos por perceber e sentir falta do tempo de estudo durante uma licenciatura. Ela é fundamental para dar corpo a qualquer futuro jornalista. Deve ser aproveitada ao máximo. Se duas pessoas partiram do mesmo sítio, uma com licenciatura e outra sem, certamente que quem tem o diploma acabará por vencer. A licenciatura é parte fundamental da experiência de um jornalista. Essa pergunta aparece porque os cursos de jornalismo são relativamente recentes em Portugal e, como tal, há muitos e bons jornalistas que não são licenciados e que por vezes olham com desdém para os cursos de jornalismo. Algumas vezes com razão pela falta de qualidade….. Mas a licenciatura é apenas o início. É a viola…quem tem unhas toca, quem não tem, não toca. As licenciaturas de jornalismo deviam apostar na especialização, o que na maioria dos casos não acontece. Por exemplo: economia, saúde, etc. E não fiquem à espera de receber tudo dos professores. Vão à procura. Vejam muita tv, ouçam muito rádio, naveguem na net…sejam proactivos.

Qual o motivo que o levou a seguir jornalismo?

Influência familiar, fascínio com a televisão, gosto e loucura… ;)

Conselhos para "aspirantes" a jornalistas.

Primeiro aprendam a escrever. Quem não sabe escrever não vinga nesta área. Depois, especialização. Escolham uma área para aprofundar os conhecimentos mas continuem com olhos bem abertos para tudo o que está à vossa volta. Finalmente, persistência. É quase impossível conseguir hoje um emprego decente em jornalismo quando se sai da faculdade. Se querem mesmo seguir a profissão, não desistam. Se não, saltem já.

Este artigo foi realizado em conjunto por:
Raquel Silva (texto + entrevistas)
João Simão (texto + entrevistas + edição)

Artigo completo em COMUNICAMOS


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