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O Elo do Amor

Dois anos após o seu lançamento nos EUA, O Elo do Amor chega finalmente a Portugal, discretamente, como se o seu realizador e os seus actores não constituíssem alguns dos melhores da actualidade. A história inicia-se em 1941, no Michigan: Ethel Ann conquista o coração de Teddy e dos seus dois amigos aviadores, Jack e Chuck, mas apenas tem olhos para o primeiro. Quando se dá o ataque a Pearl Harbour, Teddy e Ethel Ann casam em segredo, com promessas de fidelidade eterna, e ele guarda o anel de ouro que contém gravados os seus nomes. Caso algo lhe aconteça, Chuck promete cuidar de Ethel, e assim partem os três para a Segunda Guerra Mundial. Cerca de cinquenta anos depois, a ainda angustiada Ethel Ann recorda toda a sua juventude, quando o marido morre e a filha Marie procura uma explicação para o passado secreto da mãe, e mesmo para a sua falta de sofrimento. Ethel Ann sofre apenas com o passado longínquo, que a volta a assombrar quando Jimmy, um rapaz irlandês, encontra numa montanha de Belfast o anel que Teddy levara para a guerra.

Temos duas histórias em paralelo, no presente (ano de 1991), e ainda o passado recordado por Ethel Ann. Numa delas, encontramos a sempre carismática Shirley MacLaine, uma Ethel Ann que ainda vive amargurada com a perda do seu grande amor, com a falta de provas que confirmem esse mesmo facto, com uma vida que não fora a planeada, e com um elo de fidelidade eterno que não pode, no seu íntimo, quebrar. Jack Etty, um dos companheiros de Teddy, representado pelo grande Christopher Plummer, é agora o maior amigo de Ethel Ann, futuro sogro da sua filha Marie, e após todos aqueles anos, continua apaixonado por ela. Sofre também com a vida que não teve ao lado dela, pois a responsabilidade de cuidar da jovem que Teddy deixara para trás fora concedida ao seu amigo Chuck. Em simultâneo, na Irlanda do Norte, Michael Quinlan procura diariamente escavar o local onde o avião B-17 se despenhou, há quase cinquenta anos, durante a guerra, e conta com a ajuda do jovem Jimmy, que desvenda a história de Ethel Ann e a contacta para devolver o anel encontrado. As histórias unem-se quando Jimmy parte para o Michigan e o passado é desvendado, tanto para as restantes personagens, como para os espectadores.

O drama torna-se um pouco incoerente ao nível temporal, particularmente no início, com uma certa desordem de ideias e pormenores desnecessários a receberem demasiado destaque. De facto, a segunda parte do filme (embora não possamos verdadeiramente dividir a história em duas partes) é mais consistente; até a realização é mais bela e harmoniosa. Um pormenor interessante é a comparação subjectiva entre a história da Segunda Guerra Mundial, no passado, e os ataques do IRA, em 1991, na Irlanda do Norte. O filme transporta-nos para uma nova guerra, para novos heróis e novos inimigos, e também para uma pronúncia diferente, um sotaque irlandês muito peculiar, especialmente protagonizado pelo jovem Jimmy. Os poucos momentos humorísticos do filme são conseguidos exactamente através desta personagem, apesar de não se enquadrarem muito bem no clima trágico da história, mas dão-lhe uma certa ligeireza e não retiram por completo a sua credibilidade dramática.

Directamente do pequeno para o grande ecrã, Mischa Barton amadurece e adapta-se na perfeição ao papel sensível e dramático da jovem Ethel Ann, deixando para trás a inconstante e adolescente Marissa de O.C. Gregory Smith, vindo da série Everwood, toma o papel do jovem Jack, que esconde a sua paixão por Ethel Ann, num registo também mais maduro. O jovem Martin McCaan, que representa Jimmy, merece um destaque especial pelas suas expressões e naturalidade ao nível da acção. Richard Attenborough realiza consistentemente um bom filme de época, que se distancia de Pearl Harbour e de todos os restantes romances de guerra, não através das relações entre as personagens, que são simples clichés, mas através da própria história, da relação entre o passado e o presente, e entre as diversas pontas da história, que o espectador procura unir desde o início até ao final do filme, encantando-se à medida que vai desvendando os pedaços da narrativa.
A banda sonora, composta por Jeff Danna, acompanha e suaviza, de certa forma, toda a acção, auxiliada pelas magníficas paisagens, tanto do Michigan como de Belfast. O argumento, escrito por Peter Woodward, foi criado a partir da descoberta verídica de um anel, em Belfast, cerca de cinquenta anos após a queda do avião B-17, durante a segunda grande guerra, concebendo a história de Ethel Ann à volta deste acontecimento. Efectivamente, o sofrimento de Ethel Ann é justificado por aquele elo, aquele anel que não a liberta de um passado irreversível, de um amor impossível de consolidar. E este regresso ao passado permitirá libertá-la desse amor e até, quem sabe, começar de novo a viver. Não é um grande filme, e provavelmente só valerá a pena na primeira vez que se visualiza. Mas é uma boa história que não deve ser passada ao lado.

Publicado em Red Carpet

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