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No Limite... do Amor

Baseado numa etapa particularmente instável da vida do grande poeta galês do século XX, Dylan Thomas, No Limite do Amor é um bom filme de época que retrata a relação entre a poesia de Dylan e a sua vida conturbada. Em 1940, o Reino Unido está em guerra e Vera Phillips entretém a população cantando nos abrigos do metropolitano. Ao reencontrar o seu primeiro amor, o poeta Dylan Thomas, o passado comum volta a assombrá-los e a interligá-los de forma intensa. No entanto, Dylan está casado com Caitlin, uma mulher extrovertida, que depressa inicia uma amizade profunda com Vera. Por sua vez, William, um soldado prestes a partir para a guerra, apaixona-se por Vera e os dois casais tornam-se unidos apesar do ciúme que os intimida. Quando William parte, Vera continua a não conseguir amá-lo e Dylan não consegue esconder o seu afecto por ambas as mulheres da sua vida.
É interessante observar a relação entre Vera e Dylan. A única realidade que os une é o passado em comum, uma primeira relação que os marcou para o resto da vida, e o reencontro, alguns anos depois, não reacende a paixão, simplesmente os reporta para a infância no País de Gales e o que ela significa para ambos. Caitlin aparece como um impedimento àquela relação, não exactamente devido ao seu papel de esposa de Dylan, mas por se ter tornado a melhor amiga de Vera e relativamente aberta quanto à amizade entre ela e o marido. William (Cillian Murphy, numa interpretação consistente) é talvez a única personagem que não se enquadra naquela familiaridade, mas ama Vera com todo o coração e ela, por mais que tente, não consegue libertar-se do primeiro amor e corresponder-lhe. O trio amoroso constitui a principal atracção do filme, pois Dylan vive dividido entre Vera e Caitlin, perdido no que sente em relação a ambas, para além da intensidade da amizade entre elas.
Por mais que este seja um filme acerca da vida de Dylan Thomas, é inevitável associá-lo mais à personagem de Vera Phillips do que ao poeta em si. Ela é a força unificadora do filme, a personagem que realmente se destaca entre os quatro protagonistas, e isso deve-se, em grande parte, à interpretação fabulosa de Keira Knightley, que parece amadurecer mais a cada papel que representa. Disponibilizou-se até para cantar, algo que os espectadores provavelmente não esperam dela, e durante o filme duvidam se aquela será realmente a sua voz. É mesmo. Uma vez mais consegue adaptar-se na perfeição a um papel de época, que a encaminha numa ascensão irreversível para a fama. O mesmo ou melhor se pode dizer de Sienna Miller que, apesar de não ser uma estrela no mundo do cinema, tem vindo a mostrar o seu engenho natural. Em No Limite do Amor, quaisquer dúvidas que se tivessem quanto ao talento da actriz são totalmente dissipadas. As suas beleza e simplicidade, conjugadas com a personagem Caitlin, que lhe assenta na perfeição, mostram que nenhuma actriz poderia ter realizado melhor a missão de interpretar aquele papel.
A realização de John Maybury é para lá de maravilhosa, consistente, utópica. Num contraste entre grandes e pequenos planos, cores quentes e frias, uma fotografia fantástica e uma banda sonora perfeitamente adequada, este é talvez o ponto mais envolvente e estimulante do filme, que inicialmente parece não ter muito a dar mas que, após uma revisão geral da história, dá a sensação de desejo cumprido. Ao longo do filme, contudo, sentimos que a história nunca se chega realmente a desenvolver, que falta algo para equilibrar o drama e chamar a atenção do espectador, algo que esperamos até ao final e não chega a acontecer. Em parte, a personagem de Dylan Thomas é responsável por essa sensação. Matthew Rhys, apesar de tentar agarrar a personagem, nunca chega a captar a sua essência, ou talvez seja apenas o verdadeiro Dylan Thomas que não consegue afirmar a sua personalidade. A verdade é que assistimos a um certo período da sua vida e não compreendemos honestamente o que pretende, de quem gosta, quem é na realidade. E essa é a principal falha de um filme que tinha tudo para ser perfeito mas que, apesar de se aproximar da plenitude, não a consegue alcançar.
Sobra-nos um bom filme, um drama intenso que, embora não seja perfeito, não deixa de merecer algum mérito. Não é puro entretenimento, nem pretende ser belo simplesmente para ser comercial. Pelo contrário, é profundamente desgastante, desmoralizador, até; mas o resultado final acaba por ser favorável e dar alguma esperança. Marcado pelo ciúme, pelas traições, pelas feridas que o amor pode causar, No Limite do Amor dignifica o melhor da vida através do olhar destas quatro personagens e, mais do que um simples filme biográfico, transforma-se num hino à amizade e o amor.


Publicado em Red Carpet

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