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Anjos e Demónios, em nome de Deus

As expectativas são elevadas para este Anjos e Demónios, a mais recente produção de Ron Howard. Primeiro, porque é baseado num dos best-sellers mais lidos e aclamados por todo o mundo, o livro homónimo que ainda hoje continua a deleitar as almas mais fantasistas. Depois porque o seu precedente, O Código DaVinci, igualmente baseado numa obra de Dan Brown, constitui um dos maiores sucessos de bilheteira dos últimos anos. E aguarda-se um êxito ainda maior para esta adaptação cinematográfica, sendo uma obra dificilmente transposta para o grande ecrã. Ron Howard decerto estava ao corrente destes aspectos quando se aventurou na conquista do mundo mágico de Dan Brown, uma vez mais, tentando compensar alguns erros cometidos no primeiro filme, que muitos consideraram fatais. E conseguiu-o, sem dúvida, realizando uma obra notável, ultrapassando todos os condicionalismos impostos às filmagens e as pressões da crítica.
Robert Langdon é, como já o sabemos, historiador, professor em Harvard, especialista na análise de símbolos e o aventureiro dos tempos modernos, sem pistola nem espada, armado apenas com o seu conhecimento e coragem. Desta vez, e após ter desvendado um dos maiores segredos da história da Igreja, é convocado pelo próprio Vaticano, para ajudar a investigar o aparente ressurgimento da sociedade secreta Illuminati, constituída por grandes nomes como o próprio Galileu. Estes indivíduos procuram vingança, depois de a Igreja os ter marcado com ferros em brasa no massacre conhecido como ‘la purga’, há séculos atrás. Os quatro cardeais preferidos para serem eleitos no Conclave que decorre naquele mesmo dia, 'il preferiti', são também raptados pelos Illuminati. Porém, outra ameaça está a pôr em causa a eleição do novo Sumo Pontífice e toda a Cidade do Vaticano: um contentor de antimatéria, a mais recente descoberta da cientista Vittoria Vetra, que se encontra algures no Vaticano, ou algures em Roma, escondido pelos Illuminati, de modo a destruir a Igreja Católica e a vingar as mortes do passado. Ao longo da tarde e da noite, tempo no qual se passa a acção do filme, Robert Langdon e Vittoria Vetra tentam, a todo o custo, impedir o assassino Illuminati de matar os cardeais raptados, um por um, de hora a hora, entre as oito e as onze da noite, tal como encontrar o contentor de antimatéria antes da meia-noite e impedir a destruição da cidade. No topo da hierarquia religiosa encontra-se o camareiro do Papa falecido, ‘il camerlengo’, um homem profundamente entregue a Deus, que não consegue afirmar o seu poder sobre os outros por ser um simples padre, jovem, que não passa de um protegido do anterior Papa.
É importante compreender a componente religiosa e a sua importância no drama e na realidade. A Igreja Católica tem vindo a perder influência sobre as pessoas, e sente-se cada vez mais incapaz de atrair apoiantes. Por seu lado, a ciência aproxima-se cada vez mais da Igreja, tentando justificar a existência ou não de Deus e a criação do universo. A antimatéria é, efectivamente, produto de uma colisão que se assemelha à teoria do Big Bang, demonstrando que os progressos científicos das últimas décadas têm conduzido a uma maior descoberta do passado e à sua comprovação empírica. E isto é totalmente ameaçador para a Igreja, segundo uma perspectiva mais conservadora. De facto, a conjugação da ciência com a religião, apoiada por alguns, pode significar uma profanação das bases da Igreja, caracterizadas por uma componente não científica, cuja barreira está a ser quebrada. A Igreja precisa de algo que faça as pessoas serem mais crentes, mais fiéis; precisa de um milagre, de um herói, que volte a dar esperança ao povo e confiança na religião. Assim, anjos tornam-se demónios, e vice-versa, num jogo que aparentemente nada tem a ver com Deus, mas que no fundo acontece em seu nome. E a ameaça presente neste Conclave, ao nível dos raptos e das mortes dos cardeais favoritos, da antimatéria e do ressurgimento dos Illuminati, se é que esse ressurgimento se dá de facto, acaba por ser esse milagre, por conduzir a uma maior crença na religião, no caso particular de Robert Langdon e no caso geral dos fiéis. Esta é a base da história, do livro e do filme, e constitui o ponto fulcral e mais fascinante de ambos. Os desígnios de Deus, como se diz por aí, são misteriosos e insondáveis.
Embora com ligeiras alterações em relação à obra de Dan Brown, Ron Howard teve uma preocupação espiritual com o conteúdo do best-seller, ignorando praticamente o romance existente entre os personagens principais e a importância do CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, sedeado na Suiça) no desenrolar da história, concentrando-se no tema religioso que dá forma a todo o thriller e que, no meio cinematográfico, acaba por fazer mais sentido. Um filme com mais de duas horas tem, obrigatoriamente, de ser apelativo e misterioso até ao final, e este Anjos e Demónios consegue transpor para a realidade o mistério e a emoção que Dan Brown oferece à obra original, do início até ao fim. O argumento contém diálogos fascinantes e foi brilhantemente escrito a partir do original, identificando-se desta forma com as personagens e o ambiente. Com uma realização consistente e uma banda sonora perfeitamente adequada, Tom Hanks enquadra-se de forma mais realista na personagem de Robert Langdon, com os seus habituais momentos de humor, e Ewan McGregor demonstra uma vez mais o seu talento versátil, no papel de camerlengo. Quanto a Ron Howard, imortaliza-se definitivamente como um génio da actualidade, com altos e baixos ao longo da carreira, mas com grandes filmes que dificilmente serão esquecidos.
O único pormenor menos positivo a registar acerca deste Anjos e Demónios é talvez o excesso de protagonismo atribuído a Robert Langdon, após uma dispersão do protagonismo em O Código DaVinci, e a consequente aposta débil na personagem de Vittoria Vetra, que não passa de uma figurante, de uma acompanhante de Tom Hanks, não por culpa própria, pois é o único rosto feminino num elenco de homens, mas pelo argumento que não favorece a sua personagem. De resto, a acção e todo o mistério trazidos para o grande ecrã encaixam-se na perfeição no espírito do filme, tal como os actores se encaixam nas personagens que representam. Os efeitos especiais, embora suaves, não deixam de estar presentes nos momentos necessários, e o filme vive à base do argumento que o constitui, das imagens que lembram palavras, da realização coerente de Ron Howard, da semelhança com a actualidade e da realidade da história. É uma verdadeira obra-prima, que pode e deve figurar entre os grandes filmes já exibidos neste ano de 2009, e que decerto superará o sucesso e as expectativas criadas à sua volta.

Publicado em Red Carpet

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