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Museu de Cinema de Melgaço | Jean Loup Passek

Em pleno centro histórico da Vila de Melgaço, junto às muralhas, o edifício anteriormente ocupado pela Guarda Fiscal alberga agora o Museu de Cinema,um dos únicos do género em Portugal (a par do museu existente na Cinemateca Portuguesa). Inaugurado em Junho de 2005, reúne uma grande parte do espólio do cinéfilo Jean Loup Passek, que doou a sua colecção privada à autarquia de Melgaço. Porquê um museu de cinema naquela pequena freguesia minhota, no ‘fim do mundo’, quase na fronteira com a Galiza? A verdade é que Lisboa, Porto, Braga, entre outras cidades portuguesas, bem como algumas cidades francesas, demandaram as fotografias, cartazes, câmaras, documentos, coleccionados por Jean Loup Passek, mas o francês de origem russa contrariou as expectativas e escolheu uma vila portuguesa para o efeito. Conta a história que, há cerca de trinta anos atrás, Jean Passek conheceu em Paris dois emigrantes portugueses, e com eles travou uma amizade que duraria a vida inteira. Uma vez passando férias em Melgaço, terra natal destes portugueses, rendeu-se aos encantos do Minho e tornou-se um apaixonado por Portugal. Fundador e director do Festival Internacional de Cinema de La Rochelle, coordenador do departamento de cinema do Centro George Pompidou e entusiasta pela sétima arte, Jean Passek encontrou em Melgaço o local perfeito para a concretização do seu sonho de construir um museu dedicado ao cinema, adquirindo até uma residência de férias no concelho. Com setenta e três anos, divide o seu tempo entre Paris e Melgaço, e permanece com "espírito eslavo, nacionalidade francesa e coração português”, como referiu certa vez numa entrevista.

O Museu de Cinema contém uma exposição permanente, que retrata as origens do cinema e o seu percurso ao longo dos tempos, desde os seus primeiros passos, a chamada era do pré-cinema, até ao início do cinema propriamente dito. As salas do rés-do-chão recuam a finais do século XVIII e inícios do século XIX, com o aparecimento das lanternas mágicas, objectos mais antigos em exposição. Funcionavam através de uma manivela, que fazia girar pequenas superfícies vidradas pintadas, com imagens. Outros aparelhos, como o Fenakistiscópio e o Praxinoscópio, fazem também parte da pré-história do cinema. O primeiro, criado por Joseph Plateau em 1832/33, oferece a ilusão de movimento da imagem através de um disco giratório com desenhos ligeiramente diferentes, constituindo talvez o início da movimentação de desenhos. O segundo, criado por Émile Reynaud, em Paris, cerca de 1877, era constituído por longos espelhos dispostos ao centro do aparelho, e por uma manivela que permitia accionar e fazer rodar o tambor, mostrando os desenhos em movimento. Em exposição encontram-se também alguns dos primeiros cinematógrafos, que marcam verdadeiramente o início do cinema, com a sua criação pelos irmãos Lumière, em 1895, na cidade de Paris – um dos quais de fabrico alemão, em metal. Estes objectos, mais do que inventos e produtos técnicos e científicos, são testemunhos da história da arte, de novas formas de espectáculo, e representam uma alteração da forma de encarar o mundo, mudança essa que o cinema simbolizou desde a sua pré-história.

Prateleiras cobertas de vidros pintados, com imagens, simbolizam as primeiras histórias contadas através de projecções cinematográficas. Ao fundo de uma das salas, um enorme cartaz mostra algumas das figuras mais influentes da Europa observando-se a preto e branco num ecrã, como num espelho. O cartaz, desenhado por Adrien Barrère, em 1908, tem uma elevada importância histórica, pois é o primeiro cartaz do cinema em sala. O cinema, até à época considerado espectáculo de feira, torna-se diversão burguesa, e Charles Pattié abre a primeira sala de cinema. Os chefes de estado europeus são então os primeiros a encontrar-se numa sala de projecção, surpreendidos com a inovação. Na outra sala do rés-do-chão, cartazes coloridos e um ecrã suspenso em frente à parede granítica original do edifício indiciam a exposição temporária do piso superior, igualmente da colecção de Jean Loup Passek, que o museu alberga agora: uma homenagem a Federico Fellini.

Fellini viveu de 1920 a 1993, e é considerado um dos mais importantes cineastas italianos. Os seus filmes caracterizavam-se por uma conjugação perfeita entre memória, desejo, sonhos, fantasia, muitas vezes retratando e criticando a sociedade. A genialidade do homem é visível através da versatilidade e da magia dos seus filmes, entre os quais se destacam A Doce Vida, Satyricon, Roma, Amarcord, Julieta dos Espíritos, A Estrada, Entrevista, A Cidade das Mulheres, O Casanova de Federico Fellini, entre muitos outros. No Museu de Cinema de Melgaço, fotografias e cartazes, a preto e branco e a cores, desvendam essa mesma genialidade, bem como o filme Ginger e Fred, que passava no televisor suspenso. As exposições temporárias encontram-se activas durante cerca de três meses, altura em que a anterior é substituída por uma nova, igualmente do espólio pessoal de Jean Loup Passek. O cinéfilo deverá regressar a Melgaço no próximo mês de Maio, e a exposição temporária de Fellini será desactivada.

Numa das últimas visitas de Jean Passek a Portugal, durante o ano de 2008, Manoel de Oliveira foi convidado de honra no Museu de Cinema, onde o francês lhe mostrou as exposições em exibição. Ao deparar-se com as escadas do edifício, Jean Passek terá dito que estava a ficar velho, que lhe custava a subir os degraus. Por seu lado, Manoel de Oliveira, nos seus noventa e nove anos (na altura), o cineasta activo mais idoso do mundo, terá subido as escadas sem qualquer dificuldade, o que enuncia o carácter perdurante da sua carreira e a sua capacidade extraordinária de criar histórias e colocá-las no grande ecrã, apesar da idade avançada.

O Museu de Cinema de Melgaço, por entre as muralhas da Vila e sob o olhar atento da Torre de Menagem, é uma paragem obrigatória para os amantes da sétima arte. A colecção de Jean Loup Passek inclui mais de meio milhão de fotografias e cartazes de valor artístico incalculável, número esse em constante crescimento, já que o cinéfilo continua a frequentar leilões e a adquirir novos artigos da história do cinema. Por essa razão, o Museu de Cinema deverá ser ampliado, dentro de seis meses, incluindo-se num outro edifício da Vila novas exposições da colecção de Jean Passek. No primeiro ano desde a abertura, o Museu recebeu cerca de 7500 visitantes, e continua a recebê-los diariamente, dando a conhecer a encantadora história do cinema, ‘máquina de sonhos’, que continua a maravilhar e a mudar o mundo.
Publicado em Red Carpet

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