Rss Feed

Cinema vs Crise

Diz-se por aí que uma crise económica está a afectar meio mundo, e que esse meio mundo se está a afundar, lenta mas acentuadamente, numa recessão de que não há memória. Alguns preços começam a descer, para acompanhar a diminuição do poder de compra, e o desemprego mostra-se cada vez mais fatal. A especulação também não ajuda, provocando um medo crescente nas pessoas e a sua constante preocupação com o dinheiro que gastam. Medidas proteccionistas começam, inevitavelmente, a ser tomadas pelas grandes potências, como forma de combater a crise iminente e atacá-la antes que seja tarde demais. Especialistas dividem-se quanto às implicações económicas que este pico negativo pode vir a ter no presente, no futuro e na história, não havendo ainda uma certeza da sua gravidade. Mas ela está aí. Pelo menos é o que dizem. Porém, a indústria cinematográfica não tem sido muito afectada pela crise. Filmes continuam a ser produzidos, lançados mensalmente nos cinemas de todo o mundo, e as receitas não deixam de ser favoráveis.

O cinema tem essencialmente três propósitos: informar, propagandear e entreter. A informação é transmitida de forma fácil e rápida, acessível à maior parte das pessoas. Como propaganda, o cinema promoveu e ainda promove ideais políticos, convencendo os espectadores a tomarem o partido dos que publicitam as suas ambições. Como entretenimento, desde o seu aparecimento, tem vindo a conquistar cada vez mais admiradores. E em tempos de crise, este é o factor que leva mais pessoas ao cinema. Para termos uma ideia: no auge da Grande Depressão, em 1934, durante a qual o desemprego atingiu máximos históricos, cerca de 40% da população norte-americana ia ao cinema uma vez por semana; durante a Segunda Guerra Mundial, este indicador chegou mesmo ao 60%. Os filmes ofereceram uma panaceia na crise dos anos 30 nos Estados Unidos, foram o ópio do povo e meio de propaganda política durante a última grande guerra, e continuaram a embalar as pessoas nas décadas que se seguiram, até aos dias de hoje, rotulando Hollywood como a fábrica de sonhos. No século XXI, perante uma nova crise económica, podemos verificar que a situação não é muito diferente.

Em 1927, o mundo cinematográfico registou uma inovação técnica que alterou completamente o formato de toda a indústria do cinema: o aparecimento do som, com o filme O Cantor de Jazz. A maior parte dos primeiros filmes falados teve sucesso nas bilheteiras e, no final dos anos 20, houve mesmo um boom de filmes falados, com o aparecimento do género musical e de algumas produções que uniam a música à comédia. Em 1930, a indústria cinematográfica teve o seu melhor ano, quando os lucros das bilheteiras e dos estúdios atingiram níveis recorde. Um ano depois, a Depressão alcançou a indústria e os lucros baixaram drasticamente. Este facto foi contornado pelos cinemas que começaram a oferecer dois filmes em cada programa, para atrair clientes durante o período difícil da economia mundial. O programa era alterado duas a três vezes por semana e eram exibidos essencialmente filmes de série B, westerns, filmes de gangsters e de acção. Ir ao cinema tornou-se então um ritual semanal para a maioria dos citadinos nos anos 30 e, após o grande crash, houve igualmente um grande boom no visionamento de filmes.

Quanto à Segunda Guerra Mundial há a dizer que, ironicamente, uma vez mais, os anos de guerra foram comparativamente bons para Hollywood, constituindo 1939 um ano de ouro para a indústria cinematográfica, com títulos como E Tudo o Vento Levou e O Feiticeiro de Oz. Predominaram as produções de guerra, nomeadamente de carácter anti-fascista e anti-nazi, que exaltavam o carácter patriótico das nações envolvidas no conflito, bem como alguns westerns, musicais e comédias sofisticadas. Com a América envolvida na guerra global, o governo via Hollywood como fonte ideal de entretenimento, informação, reforço do moral e propaganda política e social. Os filmes eram visionados pelo exército, que com eles ganhava uma espécie de coragem especial e um propósito patriótico de sobrevivência e vitória. A grande afluência e diversificação de produções durante os anos 40 provocou receitas favoráveis nas bilheteiras, impulsionada pelo desejo de fuga da realidade por parte da população.

Nos dias de hoje, como já foi dito, a situação é bastante semelhante. Apesar da crise, as pessoas não dispensam uma qualquer forma de lazer, de escape ao mundo real, de inserção numa fantasia que afaste os pensamentos das suas vidas durante a crise. Pelo contrário, à medida que a crise se vai agravando, e com ela o desespero da população a nível mundial, o cinema tem cada vez mais o papel de distracção da realidade, de criação de um mundo de fantasia, de uma utopia que foge completamente às dificuldades vividas, tal como o foi nos dois períodos acima referenciados, dois dos piores (em termos económicos e sociais) que a história já presenciou. O cinema tem tendência a ganhar com estas grandes crises e a aposta neste século XXI vai exactamente (para além da comédia) para as produções mais fantasistas, de terror, de ficção científica, de animação, géneros pouco desenvolvidos no passado e que, hoje em dia, apesar de terem elevados custos, constituem o expoente máximo da tecnologia e do afastamento da realidade no cinema.

No caso específico de Portugal, a afluência de espectadores às salas nacionais aumentou cerca de 10% em Janeiro de 2009, em relação ao mesmo período de 2008, segundo o ICA (Instituto de Cinema e Audiovisual), o que evidencia a escassa influência da crise económica nas prioridades das pessoas. Este aumento, no primeiro mês de cada ano, tem sido uma constante desde 2007, o que se deve ao facto de, geralmente, serem exibidos nas salas de cinema, nesse período, os filmes candidatos aos Óscares de Hollywood. No entanto, o valor diminuiu em relação a Dezembro e 2008, também bastante concorrido devido a corresponder às férias das camadas mais jovens da população. Será o primeiro sinal de agravamento da crise? Há um número crescente de pessoas que têm optado pelo cinema em casa, particularmente devido ao elevado preço dos bilhetes nas salas – um bilhete normal custa cerca de 5,70 euros -, mas as receitas das bilheteiras apresentam-se alheiamente elevadas devido ao aumento do preço dos impressos. Apesar disso, as pessoas continuam a ir regularmente ao cinema, e este passa uma vez mais ao lado da crise.

Na semana de 2 a 8 de Abril, o estreante Monstros vs Aliens, filme animado com recurso a 3D, foi o mais visto nas salas de cinema nacionais, contando com 107.362 espectadores. Numa semana, as receitas brutas das bilheteiras equivaleram a 610.272,96 euros. A crise pode estar aí e ser até bastante forte. Mas caso não fosse tão comentada e discutida, um pouco por todo o mundo, o cinema provavelmente não daria por ela, tal como não deu no passado, sobrevivendo às grandes crises do século XX. A ver vamos como se comportam as pessoas durante o resto do ano, com o agravar da crise, e se o cinema sobrevirá a estes anos difíceis que se avizinham.

Publicado em Red Carpet

0 comentários: