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Sintra n' Os Maias - Roteiro Queirosiano

Os Maias é um dos mais admirados romances portugueses do século XIX. O seu autor, o grande Eça de Queiroz, tornou-se um mestre da literatura portuguesa, um dos maiores e mais afamados de sempre, e parece que, há medida que o tempo passa, o é ainda mais. Foram diversas as obras que nos trouxe, desde A Relíquia, O Crime do Padre Amaro, e O Primo Bazílio, à compilação Contos, ao mítico O Mistério da Estrada de Sintra (com Ramalho Ortigão), e ao igualmente imponente A Cidade e as Serras. Eça nasceu em 1845 e faleceu no ano de 1900, atravessando a segunda metade do século XIX. É apontado como introdutor do Realismo em Portugal, cerca de 1865, após um início de século marcado, em toda a Europa, por revoluções de cariz liberal. Em Portugal, tal revolução deu-se em 1820, período no qual proliferou o Romantismo (nomeadamente com Almeida Garrett), tanto na literatura como em outras áreas. Períodos literários totalmente opostos, que originaram, após o Realismo, uma facção mais radical deste – o Naturalismo. Quanto à conquista pela liberdade em Portugal, durante o denominado Romantismo, a guerra civil deu-se entre absolutistas e liberais, e enquanto Queluz ofereceu um enorme apoio aos ideais liberais, a vila de Sintra foi mais conservadora e apoiou o Absolutismo. No final do século XIX, época na qual é retratada a acção principal d’ Os Maias, a liberdade estava já consagrada, e Sintra era um local de grande prestígio para visitar.

Escrito entre 1882 e 1888, Os Maias é uma obra complexa, de um realismo mordaz, irónica e provida de um elevado valor emocional, considerada a obra-prima de Eça de Queiroz. O tema central da obra é o incesto, neste caso específico entre dois irmãos, de forma inconsciente, malvisto na sociedade da época. Em linhas gerais: Carlos Eduardo da Maia, personagem principal, pertence a uma família aristocrata, ou seja, da alta nobreza distinta, que vivia na Beira. Afonso da Maia, avô de Carlos, é um verdadeiro humanista, e educou o neto à inglesa, de forma mais rigorosa, em Santa Olávia (junto ao Douro). Já crescido, Carlos tira o curso de Medicina em Coimbra, mas tem mais habilidade para as relações amorosas, e é por isso considerado um diletante (gosta de ‘bricabraque’, tem um certo estatuto social e exerce uma profissão por paixão). Muda-se para Lisboa, onde pretende abrir um consultório, e conhece Dâmaso Salcede, um novo-rico (ou novo-burguês) que imita Carlos em tudo (o que veste, o que faz, o que gosta) e escolhe os amigos de acordo com a sua condição na sociedade e a sua influência em determinados aspectos. No Ramalhete (que significa ramo de girassóis), habitação actual d’ os Maias, faziam-se tertúlias (discussões sobre a actualidade, o pais, um pouco de tudo e de nada) entre homens, amigos de Carlos e de Afonso. Cruges, o maestro (instruído e admirador dos grandes clássicos da música), é um desses amigos, que Carlos convida para uma viagem a Sintra, na qual pretende encontrar a misteriosa mulher que viu apenas uma vez e da qual deseja saber um nome, pretende conhecer e deslindar o que se passa no seu coração.

No capítulo VIII d’ Os Maias, Eça descreve então o passeio de Carlos e Cruges por Sintra, enquadrando assim a vila de Sintra na obra e na acção da história. Carlos procura Cruges na sua residência na Rua das Flores, em Lisboa, cerca das oito horas da manhã, mas vem a encontrá-lo na Rua de S. Francisco, casa da sua mãe, que lhe implora para trazer o doce petisco regional de Sintra – ‘Olha não te esqueçam as queijadas!’. Os dois amigos partem em direcção à vila num break (transporte com quatro lugares), atravessando as Quintas de Benfica e chegando à Porcalhota, restaurante no qual Cruges ingere um almoço campestre, ‘uma bela pratada de ovos com chouriço’. Após o acepipe, Cruges sente-se satisfeito, tornando-se até um pouco melancólico, e conversa com Carlos sobre a ignorância do país e a ociosidade das pessoas.

Ao chegarem às primeiras casas de Sintra, e depois ao Ramalhão e às portas da serra, Carlos avisa Cruges que não se dirigem para a afamada Lawrence’s, antes para o hotel Nunes. Dois curtos apartes: primeiro, junto ao Palácio da Vila (o imponente Paço que Cruges adora quando vê), é possível observar a antiga instalação do Hotel Vítor, referenciado na obra, no qual os Cohen (família judaica, Jacob e Raquel Cohen – com a qual João da Ega tem um caso amoroso e é descoberto, sentindo-se resignado) ficaram hospedados – agora residência particular; segundo, Eça terminou a redacção do romance no exacto ano em que foi inaugurada a linha de comboio entre Lisboa e Sintra. O break seguiu então em direcção à serra de Sintra, desviando-se para o Nunes, hotel de dois andares, agora Hotel Tivoli (após a sua demolição, em 1973, que pôs fim ao carácter mítico do edifício, que permanece apenas através da imortalização de Eça). No Nunes, encontram Eusebiozinho Silveira, obeso e viúvo, acompanhado por Palma Cavalão e por duas meretrizes espanholas, Lola (mais franzina) e Concha (‘um mulherão’). Palma demonstra um machismo profundo, e Eusébio mostra-se cobarde ao não admitir que trouxera Concha consigo para Sintra; esta sente-se furiosa com a sua atitude e sai da sala do hotel. Eusébio representa uma educação mais conservadora, tradicional, à portuguesa, que falha, tanto no final da obra (quando se diz que a esposa lhe bate), como nesta situação no Nunes (quando se acompanha de duas meretrizes, após a viuvez). A educação de Carlos (marcada pelo positivismo), apesar de contrastante, falha também, nomeadamente devido ao incesto, a certa altura consciente e incoerente, à fuga de Carlos para a Europa, à ociosidade de não exercer a sua profissão, entre outros factores.

Sintra representa, para as classes altas do século XIX (e particularmente para a aristocracia lisboeta), um espaço digno da sua presença, uma elevada ociosidade (numa sociedade burguesa já por si ociosa), um local para fugir ao espírito urbanizado das cidades, para respirar ar puro e visitar edifícios esbeltos. O Nunes, embora não tão preferido como a Lawrence, fazia parte da simbologia burguesa; e apesar de Eusébio não ter querido admitir a companhia das duas espanholas, ao vê-lo, Carlos admirou a sua atitude, demonstrando que a sociedade burguesa talvez não o levasse a mal por as ter levado a Sintra. Carlos fica, de novo, desiludido por não encontrar a mulher misteriosa (que sabemos ser Maria Eduarda, mais tarde divulgada como irmã de Carlos) pela qual empreendeu aquela viagem a Sintra.

Na estrada que vai dar a Colares, o denominado passeio público de Sintra, o break segue para o hotel Lawrence’s, que se localiza antes da serra. Construído em 1780, é um dos hotéis mais antigos de Portugal e da Europa, e apesar de já ter sido remodelado no interior, a fachada é a original. Sempre serviu a grande aristocracia, e caracteriza-se pela sua fachada amarela e as marcas do passar do tempo. Carlos e Cruges passam pela Lawrence sem lhe dar muita atenção, partindo em direcção a Seteais, pois o maestro não conhecia Sintra muito bem e recordava-se apenas da imponência do palácio. Carlos recebe então um indício da aproximação da mulher que procura: ouve uma flauta, que o leva a pensar que Castro Gomes (suposto marido de Maria Eduarda, que toca esse instrumento) está perto. Passam pela cascata dos pisões, coberta de eras e musgos, e numa nuvem de pó (as estradas não eram cimentadas) aparece Tomás de Alencar, o poeta romântico que fora amigo de Pedro da Maia, pai de Carlos, e que acede a regressar a Seteais com eles, recordando os tempos lá passados (‘E os ais que soltei ali / Não foram sete mas mil!’). Na mesma estrada, em direcção ao palácio, pode observar-se a Quinta do Relógio, antiga residência favorita do rei D. Carlos, agora particular e em remodelação; e a recente Quinta da Regaleira, construída em 1900, que transmite a corrente do Revivalismo, conjuga diversas correntes, como os estilos arquitectónicos manuelino, gótico e barroco, entre outros, e é provida de um intenso carácter esotérico e mítico.

Ao chegarem a Seteais (construído no século XVIII), Cruges sente-se desiludido com o que observa, mas Alencar começa a contar histórias e a recitar poemas que logo revitalizam a beleza de Sintra. Diz este: ‘… tudo em Sintra é divino. Não há cantinho que não seja um poema…’. Alencar, cerca de cinquenta anos, é ultra-romântico, ou seja, representa um tipo de romantismo levado ao extremo, exacerbado, radical, cujo oposto na obra é João da Ega, representante do ultra-realismo, uma iniciação ao Naturalismo. Apesar de opostos e contrastantes, Alencar e Ega mantém uma forte amizade. Carlos, Alencar e Cruges são abordados por burriqueiros, homens que levam as pessoas de burro até ao Palácio da Pena, mas decidem partir primeiro para a Lawrence, Carlos decidido a perguntar por aquela mulher e Cruges decidido a conhecer o tão famoso hotel.

Carlos recebe novos indícios da aproximação de Maria Eduarda: ao perguntar aos burriqueiros que estavam junto à Lawrence por uma família com as características pretendidas, recebe indicações de que uma senhora alta, com um sujeito de barba preta e uma cadelinha, se tinham dirigido à Pena. Ao decidir seguir caminho para o palácio, avista a família da qual os burriqueiros lhe tinham falado: ‘Era, com efeito, um sujeito de barba preta (…); e, ao lado dele, uma matrona enorme (…) e o cãozinho felpudo ao colo’. Mas não era ela. Abandonando os amigos, Carlos questiona o criado do hotel, que lhe diz que ‘… o Sr. Salcede e os senhores Castro Gomes tinham partido na véspera para Mafra…’, e de lá para Lisboa. O criado concede-lhe mais informações, como o facto de ter sido Maria Eduarda a apresar a partida, devido à preocupação com a filha, que ficara em Lisboa. Carlos cai num conflito interior, num monólogo que o leva a colocar questões e a arrepender-se de ter viajado para Sintra apenas no intuito de encontrar uma mulher que desconhecia, mas por quem parecia estar apaixonado. Sente-se frustrado, toma consciência da decadência para que está a ser arrastado por aquela paixão misteriosa: só a vira uma vez, não a encontrara em Lisboa, ‘e ele ali ficava, com aquele olhar no coração, perturbado todo o ser, orientando surdamente os seus pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua vida interior, por uma adorável desconhecida…’. Diz ainda: ‘… a brilhante deusa era também uma boa mamã’, o que o faz gostar ainda mais dela, sublimá-la.

Alencar e Cruges encontram Carlos perdido nos seus pensamentos, e decidem jantar na Lawrence antes de partirem todos para Lisboa. O poeta manda preparar o bacalhau à Alencar. Dirigem-se ao Nunes para pagar a conta, e reencontram Eusébio e Palma com as duas espanholas, a jogar à bisca. O jogo era um passatempo tipicamente burguês, como forma de simbolizar a ociosidade e o individualismo da sociedade. Às nove horas, ao luar, Alencar, Carlos e Cruges entram no break e partem em direcção a Lisboa. Carlos sente-se frustrado por não a ter encontrado, por ela ter partido mesmo a tempo de não se encontrarem. Alencar é o único que parece algo contente, recitando poesia; e Cruges lembra-se, repentinamente: ‘Esqueceram-me as queijadas!’.

A nós não, as queijadas de Sintra não escaparam. O percurso percorrido por Carlos e Cruges, desde o palácio da vila até Seteais, é marcado por uma subida inclinada em direcção à serra, com o Palácio da Pena como guia, no centro da vegetação que concede à vila um ar puro reconfortante em relação à cidade. A viagem circular empreendida, desde Lisboa a Sintra, e até ao regresso a Lisboa, simboliza o ciclo vicioso da vida, o eterno retorno, a impossibilidade de percorrer um caminho que não está escrito no destino, como Carlos encontrar Maria Eduarda em Sintra. Com um guia do percurso que parecia literalmente a reencarnação de Eça de Queiroz, sabendo na ponta da língua toda e qualquer frase da obra, a viagem a Sintra foi fundamental para a compreensão do capítulo VIII e um complemento à leitura do romance.

VISITA GUIADA: Dr. José Manuel Gonçalves, C. M. Sintra.

2 comentários:

Fernando Ribeiro disse...

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Anónimo disse...

Esta publicação é fantástica! também irei visitar sintra e realizar o roteiro queirosiano, por isso isto irá ser-me útil para fazer uns breves estudos antes! Muito obrigada pela boa publicação!