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O 'rafeiro' milionário - Slumdog Millionaire

Jamal Malik está a uma pergunta de ganhar vinte milhões de rupias. Como conseguiu chegar até ali? A: Sorte; B: Batota; C: Inteligência; ou D: Destino? O apresentador da versão indiana de Quem Quer ser Milionário? acredita na hipótese B:, e Jamal é levado pela polícia por suspeita de fraude. De modo a justificar o facto de saber responder a todas as perguntas que acertou, Jamal começa a contar a história da sua vida: como ficou órfão, sozinho com o irmão; como conheceu Latika e se apaixonou por ela; como foi parar àquele programa e porque ali está. Jamal, dezoito anos, estava a poucas horas de se tornar milionário. E a única coisa que lhe interessava era encontrar a rapariga que amara e perdera.

Jamal não teve uma vida fácil; cresceu nos bairros de lata de Bombaim, e após a morte da mãe, fugiu com Salim, o seu irmão mais velho, para conseguirem sobreviver. Conheceram Latika, uma criança igualmente órfã, e juntos tornaram-se os três mosqueteiros, inspirados no livro de Alexandre Dumas. Foram obrigados a crescer depressa, a aprender a viver mais cedo do que o normal. Por força do destino, Jamal e Salim acabaram por partir e deixar Latika para trás, voltando a reencontrá-la uns anos depois. Dessa vez, foi Jamal quem abandonou a companhia de Salim e Latika, encontrando-se agora, com dezoito anos, a trabalhar como assistente num call centre. É através do sistema informático que reencontra Salim, na esperança de voltar a ver Latika. E inscreve-se no concurso de modo a conseguir ficar com ela, pois sabia que ela estaria a ver. E estava mesmo.

Salim e Jamal eram duas pessoas completamente diferentes. Criados no mesmo meio, sobreviventes das mesmas guerras e situações, tornaram-se seres humanos com características totalmente opostas. Jamal era um rapaz simples, tímido, apaixonado, emotivo, determinado. Nunca pretendeu mais do que sobreviver e encontrar Latika, o amor da sua vida. Salim era ganancioso, altivo, controlador. A necessidade de sobrevivência levou-o ao materialismo e ao desprezo do passado. Mas Jamal, Salim e Latika não deixavam de ser os três ‘rafeiros’ de Bombaim, os três amigos que tinham partilhado experiências de vida dramáticas e inesquecíveis. E isso funcionava como um elo interno, inquebrável, que conduziu ao desfecho do enredo.

O romance entre os protagonistas Jamal e Latika, brilhantemente interpretados por Dev Patel e Freida Pinto, reúne todas as características de um romance juvenil vulgar, como a impossibilidade de ficarem juntos, a amizade em crianças, as coincidências do destino e a luta pela ultrapassagem de todas as barreiras. Mas consegue conter muito mais do que duas pessoas apaixonadas. As personagens viveram algo que as uniu para sempre, momentos das suas vidas que não conseguiriam esquecer, mesmo que tentassem. Para além de toda a vulgaridade aparente, temos duas pessoas que sobreviveram juntas, que precisavam da companhia da outra para poderem ser felizes, que nunca desistiram de se encontrar. E esse é o ponto alto de um amor que nunca se concretizou até ao momento final do filme, mas que é a base de toda a história.

Alternando entre os momentos mais dramáticos e os mais divertidos da vida de Jamal, o filme é especialmente enérgico e bem-disposto em duas situações específicas protagonizadas pelos dois irmãos. No início do filme, as primeiras gargalhadas espalharam-se pela sala de cinema com a ideia de Jamal, fechado numa casa de banho arcaica em Bombaim, de saltar para dentro de uma poça de dejectos humanos de modo a conseguir um autógrafo do seu actor favorito. A segunda chegou com Salim, depois de ambos terem encontrado, por um acaso, o Taj Mahal, que pensaram ser um hotel, e fingirem-se guias turísticos, inventando histórias e enganando os turistas com informações falsas. Estes momentos, para além de equilibrarem o drama retratado, mostram a realidade do ambiente pobre da Índia em contraste com a Índia turística e histórica.

Torturado e interrogado pelas autoridades, Jamal conta tudo isto ao inspector que lhe vai mostrando, simultaneamente, a gravação do programa do dia anterior, que terminara com a dúvida: irá Jamal atingir os vinte milhões de rupias e ser o primeiro concorrente do Quem Quer ser Milionário? a levar para casa o prémio máximo, quando nenhum outro mais instruído e inteligente o conseguiu? Para cada uma das respostas, Jamal tem uma justificação – de forma impressionante, apercebemo-nos de que a vida daquele jovem, a sua experiência, é a única inteligência e o único conhecimento que tem. Numa realização independente e criativa de Danny Boyle, vamos do presente ao passado num fechar de olhos, através de flashbacks incrivelmente bem construídos, e conhecemos a história de Jamal, o ‘rafeiro milionário’.

O final, embora previsível, encerra uma singularidade digna de Slumdog Millionaire, uma emotividade esperada mas necessária para completar o romance. Jamal caminha pela estação vazia, em direcção a Latika, a única razão de todo o seu sofrimento e da sua nova conta bancária. Um jovem pobre, com um passado dramático, foi a um concurso de televisão, pôs em êxtase milhões de indianos, que pararam nas ruas e em frente aos televisores para verem se conseguiria tornar-se milionário, e encontrou o amor da sua vida. Mas o entretanto, todas as histórias e momentos que levaram a esse desfecho, tornam este Slumdog Millionaire um filme maravilhoso e invulgar. E a banda sonora de A.R. Rahman, nomeada e provável vencedora de Óscares, completa a visão oriental que os espectadores devem ter desta grande obra de entretenimento, cujo principal objectivo parece ser obrigar os espectadores a acreditarem no destino. E consegue-o.

Slumdog Millionaire é o oposto dos filmes que estamos habituados a ver e criticar. Não tem nada de convencional ou comercial; pretende apenas entreter e mostrar a realidade da vida nos bairros pobres de uma Índia cada vez mais ocidentalizada. Literalmente, põe ‘tudo a nu’. Conjuga a informalidade e naturalidade de Jamal, um rapaz que sempre lutou para sobreviver, com a modernidade e popularidade de Quem Quer ser Milionário?, um concurso televisivo conhecido por milhões de pessoas, em todas as partes do mundo, e com um impacto invulgar (pelo menos a nível nacional) sempre que um concorrente está numa maré de sorte. Apetece entrar no jogo e estar no lugar de Jamal, na cadeira do programa, prestes a acertar ou errar. Apetece marcar as hipóteses, adivinhar as respostas e ajudar Jamal a encontrar Latika. Apetece, até, rever os programas apresentados por Jorge Gabriel e descobrir se, entre os concorrentes, por detrás de cada rosto, não existe uma história fantástica como a de Jamal para contar ao mundo.

Num ritmo intenso e cativante, Danny Boyle leva-nos através de uma história original e emocionante, que constitui um filme maravilhoso e verdadeiramente arrebatador. Maioritariamente falado em indiano, não deixa de ser um filme ocidental e hollywoodesco, embora seja uma verdadeira pérola de criatividade e magia. E a língua natural dá-lhe um carácter mais real e autêntico. Um elenco desconhecido e um realizador europeu acabaram por criar um dos melhores filmes deste início de ano, incomparável a todos os outros, que se encontra nomeado para dez categorias nos Óscares, e é um provável candidato à vitória. Quem diria?

D: It’s written. É o destino.

As frases:
- When somebody asks me a question, I tell them the answer.
- Maybe it's written.

3 comentários:

Fernando Ribeiro disse...

Amanha já o vou ver. :) Espero que seja realmente aquilo que o pintam. A ver vamos!

Beijinho

Ricardo Vieira disse...

É, realmente, um excelente filme. Torna-se emocionante se o vivermos. Sintam e vivam esta fita em vez de analisá-la apenas racionalmente e verão que ficarão bem satisfeitos no final.

Boa crítica!

Roberto F. A. Simões disse...

Excelente crítica, parabéns. Muito bem escrito! É, SLUMDOG MILLIONAIRE é um filme magnífico, um triunfo emocionante, muito bem feito, e que, como alguém chamou, é uma autêntica «explosão de energia»!

Cumps.

Roberto F. A. Simões
CINEROAD