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Desejo de mudança - Revolutionary Road

Nos anos 50, April e Frank Wheeler são um casal modelo para a vizinhança, que os considera especiais. Dois filhos, um casamento de revista, um marido que trabalha na cidade e sustenta a família, e uma mulher que fica em casa a tratar das lides domésticas. Mas não são um casal especial, nem feliz. Pelo contrário. Ambos abandonaram os sonhos que tinham para seguirem o que estava correcto, o que todas as outras pessoas faziam: casar, ter filhos e assentar, ainda que isso significasse um emprego que não agradava a Frank e uma cada vez maior incompatibilidade entre eles. Numa rotina que os levava a discussões constantes, April e Frank decidem partir para Paris e começar uma vida nova, na qual April trabalharia para sustentar a família e Frank teria tempo para descobrir o que queria fazer. A proposta irrealista de April é abalada por uma conjuntura desfavorável à realização do plano: um novo filho está a caminho, e Frank é impelido pela sociedade da época a permanecer no conformismo e assumir o papel de trabalhador na família. Contudo, April continua a desejar uma mudança, algo que a faça, de novo, querer viver.

Não há muitos filmes como este. Consome-nos por dentro, faz-nos querer abandonar a sala ao primeiro aviso, à primeira discussão, ao primeiro indício de que será difícil aguentar, uma vez intrometidos no drama. Mas não conseguimos fazê-lo, por mais que tentemos escapar; sentimos necessidade de aguentar até ao fim e torcer por Frank e April, pela consolidação da mudança tão desejada por ambos, pela felicidade daquela família que parece à beira da ruína, porque nos afeiçoamos a eles. É um filme perturbador, sufocante, particularmente nas discussões entre os protagonistas, num ritmo alucinante, durante as quais levamos o nosso olhar a um, depois a outro, e assim sucessivamente, tentando encontrar um equilíbrio entre eles. Essa foi a grande falha naquele casamento: Frank e April não conseguiram encontrar um equilíbrio entre o que ela queria e o que ele queria, entre o que estava correcto e o que estava errado, entre o que era real e o que não o era. Como April refere a certa altura, caíram na mesma ridícula ilusão de que tinham de se conformar naquela vida a partir do momento em que os filhos nasciam. E a rotina deu cabo deles. A rotina e o facto de ambos, em especial April, quererem quebrá-la a todo o custo.

Frank e April amavam-se. Há quem diga que não tinham muito em comum – os seus ideais de vida eram bastante diferentes. Mas amavam-se, e isso devia ser suficiente. Em contrapartida, o casal vizinho e amigo, os Campbell, invejavam a sua felicidade modelo. Shep, marido de Milly, gostava de April desde sempre, mas tanto ele como a esposa se adaptaram à rotina, às regras da sociedade, a uma vida monótona e sem significado. E sobreviveram aos desejos de mudança, de recomeço. Sobreviveram e, provavelmente, conseguiram ser felizes. Os Wheeler não.

A sociedade e a época também não ajudaram. Frank sentia que, como homem de família, tinha de trabalhar para sustentar April e os filhos, e isso implicava cometer o mesmo erro que o pai cometera e acabar por fazer algo que odiava. A proposta de April, a mudança para Paris, deu-lhe algum alento, mas depressa se apercebeu de que seria impossível concretizá-la. Não podia ser sustentado pela mulher e ficar em casa sem fazer nada. Ainda por mais, tinha sido promovido no emprego, e receberia um salário mais confortável. Por seu lado, a ideia de mudar de lugar, fosse para Paris ou qualquer outra cidade, significava para April um recomeço, uma nova oportunidade para seguir os seus sonhos e, especialmente, para Frank seguir os seus, o que a faria ainda mais feliz. Quando as coisas não correram como planeado, a necessidade de mudar manteve-se lá dentro, escondida, e a pressão da rotina era simplesmente demasiada.

Os Wheeler precisavam urgentemente de uma mudança, e procuraram-na fora do casamento. Frank teve um caso amoroso com uma secretária, no emprego, e April deixou-se levar por Shep. É curioso observar o arrependimento de Frank ao chegar a casa, após ter estado com Maureen, e ser surpreendido por April e os filhos a fazerem-lhe uma festa de anos casual e acolhedora. Tudo o que acontecera naquela tarde, aquela tão desejada fuga à rotina, acabou por servir apenas para se sentir mal consigo próprio por ter traído a família, por ter tentado fugir dos problemas em lugar de os tentar resolver ou, neste caso, ignorar, como April fizera. April tentava apenas remediar tudo o que estava a acontecer entre eles; tentava fazer com que sobressaísse o amor existente entre eles, e não os pontos em que discordavam.

Neste contexto aparece uma personagem, John Givings, um homem que está internado num instituto psiquiátrico e se assume como voz do subconsciente, que diz tudo o que há para dizer mas não deve ser dito. É, entre eles, o homem mais são, mais puro, que retira a cortina e descobre a verdade, os problemas do casal e as suas aspirações. Provocou alguns risos na assistência, mas todas as suas palavras foram encaradas por April e Frank de forma pesada e incrédula. Afinal de contas, John parecia conhecê-los melhor do que eles próprios, e isso punha tudo a limpo e assustava-os.

Uma das cenas mais intrigantes do filme é o pequeno-almoço entre April e Frank, após a maior discussão que tiveram durante toda a película. April afirmara que odiava Frank, que precisava de pensar, que não sabia o que fazer. Frank tentara falar com ela, mas preferira deixá-la em paz e esperar. Só no dia seguinte, naquela derradeira manhã, voltam a trocar palavras. E April age como se nada fosse, como se estivesse tudo bem entre eles. Tomaram um pequeno-almoço perfeitamente normal, como uma família feliz; conversaram sobre a nova função de Frank no emprego e April disse-lhe, à saída, que não o odiava, como dissera antes. Conseguimos até ouvir um silencioso «I love you» entre eles. E afinal tudo não passava de uma ilusão. April continuava com um desejo incrível de mudar, e Frank nem sequer se apercebeu disso. Nem nós, espectadores.

É realmente um filme fantástico. Singelo, sem esforços para ser bonito, real, tratado com a naturalidade necessária. Quase terrível. Trágico, quase como nas tragédias clássicas, com alguns momentos mais subtis, incluindo a cena final. Sam Mendes fez um trabalho louvável com uma história que, à partida, não tem muito para dar numa adaptação cinematográfica. Adaptou com precisão o romance de Richard Yates, captando a sensibilidade dramática da história. Criou um filme que tem tanto de belo como de monstruoso, e através de uma reconstrução épica fiel e exacta, realizou um dos melhores filmes do ano, até agora.

Para o conseguir, contou com a colaboração de dois dos melhores actores da actualidade, a sua esposa, Kate Winslet, e Leonardo DiCaprio. Amigos de longa data, com uma relação fantástica na vida real e uma química estrondosa no grande ecrã, deixaram para trás qualquer ligação a Titanic, desta vez num registo ainda mais dramático e sincero. Kate e Leo são ambos perfeitos para os papéis. Eles fazem o filme, sem tirar nem pôr. Conseguem criar um ambiente mundano à volta das personagens, uma atmosfera de tensão e, ao mesmo tempo, de grande afeição entre Frank e April. Toda a história se baseia na relação entre eles, nas suas expressões, nas suas discussões e momentos de esperança. Sem eles, não teríamos o Revolutionary Road que temos. De destacar ainda Michael Shannon no papel de John Givings, que conseguiu uma nomeação para os Óscares. De resto, o filme de Sam Mendes foi esquecido pela Academia, tal como o seu brilhante realizador e os seus grandes protagonistas. É pena, porque merecia muito mais. E Kate Winslet tinha razão ao dizer, no seu discurso de agradecimento pelo Globo de Ouro ganho sobre este filme, que DiCaprio merecia igualmente um prémio pela sua interpretação. São ambos espantosos.

Thomas Newman fez também um excelente trabalho com a banda sonora, harmoniosa e, ao mesmo tempo, provocante. Começando por retratar, de uma forma muito breve, a primeira troca de olhares entre April e Frank, e a sua primeira conversa, Sam Mendes constrói o filme mostrando a sua relação sete anos após o casamento, com alguns flashbacks ao passado, que podiam ter sido prolongados por todo o filme, mas que se ficaram pela primeira parte. É o único pormenor que há a criticar.

Revolutionary Road é um filme sobre as relações humanas, o casamento, o desespero, o amor, homens e mulheres, a vida, a sociedade dos anos 50, a rotina e a necessidade de mudança, de algo novo. April e Frank Wheeler precisavam de uma revolução nas suas vidas, na sua relação, como indicava o nome da estrada onde viviam. Ao longo de duas horas, tentamos ajudá-los e incentivá-los a encontrar essa mudança, a encontrar uma forma de melhorar as coisas e encontrar a felicidade onde ela parecia não existir mais. Um drama intenso com muito mais do que um simples homem e uma simples mulher a tentarem sobreviver a uma relação. Um filme para pensar e repensar; para ponderar e mastigar. Um filme para relembrar, quanto mais não seja porque serve de lição e de exemplo para todas as relações humanas: por um lado, não queremos que algo semelhante nos aconteça, e o filme serve de modelo negativo; por outro lado, é um exemplo de algo que pode acontecer numa relação, e alerta para a rotina criada entre duas pessoas. Um filme para não esquecer.

O melhor: Kate e Leo, Sam Mendes, e a complexidade da história
O pior: o cessar dos flashbacks, a uma certa altura do filme, e a tragédia que sentimos quando abandonamos a sala de cinema

As frases:
- Hopeless emptiness. Now you've said it. Plenty of people are onto the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness.
- We can be happy here. I can make you happy here.
- Look at us. We’re just like everyone else. We got into the same ridiculous delusion, this idea that you have to settle down and resign from life.

4 comentários:

Ricardo Vieira disse...

Excelente crítica! Se tinha vontade em ver o filme, ainda me deste mais! Os meus parabéns!

Ricardo Vieira disse...

Ah, adicionei-te no meu estaminé!Espero que não te importes... :)

de Sousa disse...

Honestamente, vejo muitas pessoas. Ou vá, lembro-me delas! Não as poderia ver realmente estando com os olhos fechados lolol
Gosto sempre das tuas críticas... Quando é que abres o teu próprio jornal? =P

Fernando Ribeiro disse...

Sem dúvida um grande filme. Daqueles que teve a capacidade de me deixar com ele na cabeça por vários dias. A minha nota: 9/10.

Beijinho