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A magia de Benjamin Button

What if I told you that instead of gettin' older, I was gettin' younger than everybody else?


David Fincher já nos habituou a um tipo de cinema memorável, com características próprias e pernas para andar durante muitos anos sem perder a consistência e a magia, como Seven (1995) ou Zodiac (2007). Mas nenhum dos seus filmes se pode comparar a esta história fantástica e bizarra de um homem que vê a vida e o tempo passar ao contrário, argumento escrito por Eric Roth. Baseado num conto de F. Scott Fitzgerald, datado de 1921, O Estranho Caso de Benjamin Button segue a vida de um homem, Benjamin, que nasce velho e começa a rejuvenescer à medida que cresce, ao contrário de todas as outras pessoas. Em 1918, abandonado à nascença pelo pai, é encontrado por uma mulher que o recebe de braços abertos no seio de um lar de terceira idade. Benjamin atravessa uma infância difícil para um homem de cerca de oitenta anos: cresce junto a pessoas idosas, aparentemente iguais a si próprio, e apaixona-se por Daisy, a única criança que é capaz de o ver para além da velhice aparente. À medida que vai crescendo, Benjamin conhece pessoas e perde outras, começa a ficar mais novo e a trabalhar no alto-mar. Passa pela Rússia, onde conhece Elizabeth, o seu primeiro amor, e regressa mais tarde a Nova Orleães para reencontrar Daisy, já uma mulher e bailarina profissional. Acabam por se encontrar a meio, quando têm aparentemente a mesma idade, e vivem um romance que poderia durar para sempre, não fossem as leis da natureza e o estranho caso de Benjamin. Acompanhamos esta história a partir de um diário de Benjamin que Caroline, filha de Daisy, lê à mãe já no século XXI, no dia em que o furacão Katrina destrói Nova Orleães; e da narração do próprio personagem ao longo de todo o filme.

Benjamin Button atravessa a Segunda Guerra Mundial, a ascensão dos Beatles, o início da vida cosmopolita de Nova Iorque, cada vez mais novo mas também mais experiente. Conhece a vida ao contrário, começando por experimentar a velhice a acabando a experimentar ser criança. Brad Pitt interpreta este homem diferente que tem de enfrentar uma vida invulgar, surpreendente enquanto idoso, e encantador e inocente enquanto jovem. Partilha o ecrã com Cate Blanchett no papel de Daisy, numa interpretação segura e profunda. Juntos, protagonizam os momentos mais belos do filme, encontrando uma química que não tinha sido conseguida em Babel (2006). Vivem um amor possível durante aqueles escassos anos em que têm a mesma idade, mas impossível a partir do momento em que ela começa a envelhecer muito e ele a rejuvenescer muito. Por isso, queriam recordar-se um do outro como estavam naquele momento exacto, que talvez tenha sido a única coisa que durou para sempre, através da sua filha Caroline.
A melhor sequência do filme é encontrada na narração de Benjamin do acidente de Daisy, que acabou com a sua carreira de bailarina. Fincher foi buscar uma cadeia de acontecimentos que levaram à ocorrência daquele acidente, na qual se um desses factos se tivesse processado de forma diferente, talvez Daisy não tivesse sido atropelada. De forma genial, entramos na dinâmica do filme e somos absorvidos pelas cores quentes que transmitem a antiguidade da história e pelas belas e tranquilas paisagens que caracterizam as épocas retratadas. De realçar ainda a fantástica caracterização, tanto de Pitt como de Blanchett, que lhes permitiu viver as personagens nas diversas fases das suas vidas e interpretá-las com mais credibilidade; a banda sonora composta por Alexandre Desplat, amena e luminosa, que acompanha todo o filme; e alguns momentos mais leves e alegres, que dão equilíbrio ao drama retratado.

Foi a primeira vez que senti lágrimas prestes a caírem dos meus olhos, a ver um filme, no cinema, numa sala cheia de gente petrificada com o que acabara de ver. Não pela beleza da história ou do filme em si; antes pelo peso afectivo que tem sobre Benjamin e nós próprios, espectadores. A dor de ver partir todas as pessoas à sua volta, de sentir que está a tornar-se numa criança saudável à medida que todos os que ama começam a desaparecer. A dor de abandonar Daisy apenas porque não pode dar uma melhor vida à sua filha, porque não pode envelhecer com ela e morrer com ela; porque acabará por morrer como uma criança e ela merece mais do que isso. A dor de, numa primeira fase, nascer e crescer como uma pessoa idosa e amar Daisy como criança; e, numa segunda fase, morrer como um bebé nos braços de uma Daisy já idosa, não se recordando de toda uma vida que passara e deixara para trás, a não ser quando a olha nos olhos uma última vez.

Cada pessoa verá esta história com olhos diferentes, e sentirá de forma diferente o que ela transmite, pois o que verdadeiramente importa é o que se sente durante a visualização do filme. Mas é do senso comum a sua essência mágica, a profundidade que atinge, a emoção que transmite a cada frame, a cada momento. Não pode ser contado; tem de ser visto para ser acreditado. E a verdade é que acreditamos em tudo o que vemos. Encontramos uma nova forma de encarar a vida e a morte, o envelhecimento e o passar do tempo, como se, em vez de andarem para a frente, os ponteiros do relógio seguissem na direcção contrária. Mas parar, não se consegue parar o tempo.

Durante quase três horas, atravessamos cerca de oitenta anos da vida invulgar de Benjamin Button, praticamente sem darmos por isso, sem querermos que a experiência acabe, tentando ao máximo prolongar aquele momento. É um épico fantasista sobre o amor, a vida e a morte, o destino, os milagres, a diferença, a experiência, a dor, mas consegue ser também uma história real que nos toca bem no fundo. As expectativas eram elevadas, mas este O Estranho Caso de Benjamin Button conseguiu superá-las. É uma obra extraordinária – não só pelo argumento único como pela realização inteligente e serena de Fincher – que ficará para a história e se tornará, sem dúvida, num clássico do cinema. É intenso, mágico, brilhante, perfeito, único, em todos os aspectos. Não resta nada para dizer, senão que há coisas que duram para sempre, e este filme é uma delas.

O melhor: A magia e originalidade da história, a perfeição da sequência narrativa e um Brad Pitt versátil.
O pior: Ter apenas três horas de duração... As diferentes etapas da vida de Benjamin foram perfeitamente colocadas na linha temporal do filme, mas se ocupassem mais tempo, a experiência seria mais longa…

As frases:

- We're meant to lose the people we love. How else would we know how important they are to us?
- You never know what's comin' for ya.
- Our lives are defined by opportunities, even the ones we miss.
- I hope you live a life you're proud of. If you find that you're not, I hope you have the strength to start all over again.
- I was thinking how nothing lasts, and what a shame that is.

4 comentários:

Fernando Ribeiro disse...

Boa crítica. O filme é mágico e ao mesmo tempo uma grande obra do cinema moderno. Confesso que me lembrei várias vezes durante o decorrer do filme de Big Fish. Embora sejam diferentes, toda aquela temática de contar uma história são em tudo parecidos.

A minha nota: 9/10

Cumprimentos.

http://ante-cinema.blogspot.com/

Fernando Ribeiro disse...

Convite,

O Ante-Cinema e o Hotvnews querem celebrar o final de um ano cinematográfico que teve, como não poderia deixar de ser, tanto bons como maus filmes. Assim sendo, queremos que vocês elejam uma lista com os vossos 10 preferidos para os melhores e piores filmes do ano de 2008. Além disto ainda vos pedimos o seguinte:

- Eleição do Filme Surpresa de 2008
- Eleição do Filme Desilusão de 2008

Até 25 de Janeiro

http://ante-cinema.blogspot.com/search/label/Ante-Cinema

de Sousa disse...

É verdade. Infelizmente, temos mesmo que esperar. É sempre bom pensar naquela simplicidade que era o mundo para nós quando eramos crianças, mas a verdade é que, neste momento, já não é isso que desejo. Agora o que desejo realmente é ver o mundo com olhos vivos. Entendê-lo, compreendê-lo e saber lidar com ele. Mas enfim! Lá terei que me sentar e esperar um bocadinho à chuva =)

Fazes críticas excepcionais aos filmes. Tenho vindo aqui ver algumas para decidir se vale a pena ir ver algum filme ou não e este aqui já está na minha lista de "to do's" =D

Ricardo Vieira disse...

Gostei da crítica! E estou a gostar deste blog! Muito obrigado pelo teu comentário no meu estaminé. Eu irei passar aqui mais vezes! :)