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Blindness

Digam o que disserem, pensem o que pensarem acerca da sua forma de escrever – criticada por muitos devido à quase total ausência de pontuação –, gostem ou não das suas crenças políticas e religiosas… Saramago é um génio, e tal facto é inegável. A forma como transmite a sua visão do mundo para o papel, recorrendo a metáforas inteligentes e consistentes, destrona qualquer outro escritor e coloca-o no pedestal mais elevado entre os escritores portugueses de todos os tempos. Ensaio sobre a Cegueira é uma obra complexa, intensa, improvável de ser adaptada ao cinema devido à sua ambiguidade, mas Fernando Meirelles aceitou o desafio, e ainda bem que o fez. Saramago chorou ao ver o resultado final. E é mesmo para chorar.
No filme retrata-se o Homem, aquele ser que, aparentemente altruísta, não passa de um animal irracional disfarçado de ser superior. De repente, numa cidade desconhecida, numa época desconhecida, um homem afirma deixar de ver, ficar cego – mas uma cegueira branca, sem a habitual escuridão. A epidemia espalha-se, e depressa contagia a sua mulher, o médico, e um sem número de pessoas por todo o mundo. Os afectados são colocados numa antiga instituição psiquiátrica, em quarentena – cegos, sem condições de higiene, e abandonados pelo resto da civilização. Entre eles encontra-se uma mulher, esposa do médico, que, incompreensivelmente, não ficou cega, mas acompanhou o marido na ida para a quarentena. Esta mulher, que esconde o facto de conseguir ver, é a única esperança do grupo para sair daquela prisão.
Com uma extraordinária realização de Meirelles, alternando entre os tons brancos e azuis, de ângulos inesperados, o filme mostra a violência, a superficialidade, a ganância, a vingança, a vontade de sobreviver a qualquer custo, desprezando o resto da humanidade. Mesmo a mulher que não cegou, a única que, a nosso ver, não se deixou ficar pelo lado animal e procurou ser racional, procurou ver o que se passava à sua volta – mesmo ela deixa o altruísmo para trás e cansa-se de servir os cegos, de tentar guiá-los para fora do edifício onde estavam fechados. O grupo onde está inserida contrasta com outro grupo, a camarata três, que demonstra o lado mais animal do Homem – o espírito de sobrevivência particular, ignorando as necessidades básicas dos outros.
Uma curiosidade interessante é o facto de as personagens não terem nomes próprios. Temos o doutor, a mulher do doutor, a mulher com óculos escuros, o ladrão… mas nada de nomes concretos. Penso que isso demonstra a generalização – não é um simples ser humano que carrega aquelas características, mas sim toda a humanidade. Outro aspecto curioso é a relação entre as pessoas – a situação degradante em que foram colocados une-as de uma forma intensa, como se fossem uma família, e por vezes até se conseguem distinguir alguns momentos de felicidade no meio de tanta calamidade. Esses momentos dão-nos alguma esperança – não por eles, por saírem do edifício e regressarem à civilização; mas por nós próprios, por queremos acreditar que não somos assim, que não nos regemos apenas pelo instinto animal.
A epidemia espalha-se por todo o mundo, não deixando ninguém imune; apenas a mulher do médico continua a testemunhar o que acontece dentro do edifício, a desumanidade entre os homens. Julianne Moore interpreta esta mulher que carrega o fardo de cuidar das pessoas à sua volta, de os guiar para a saída, de os alimentar, proteger e ajudar a sobreviver, num registo magnífico e realista. Consegue transparecer todos os sentimentos que esconde, a emoção da situação e a essência do filme.
É um filme fantástico, com um argumento brilhante, que nos põe a pensar do início ao fim. Como vai acabar? Como vai um grupo de pessoas cegas sobreviver num mundo que deixou de existir devido ao inexplicável “Mal Branco”? Tentamos compreender a metáfora, mas só no final do filme conseguimos apreciar, verdadeiramente, o trabalho psicológico de Saramago e a transposição da obra para o grande ecrã por parte de Fernando Meirelles. É mesmo para chorar, tanto pelo drama da história como pela percepção da realidade.

1 comentários:

Miguel Pires Prôa disse...

Olha, eu, sinceramente, não gostei do filme. Claro q eu sou biased against cinema, mas mesmo assim achei muitas cenas paradas e muito previsível... Enfim, talvez o livro seja melhor!