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Batman e muito mais

“O Cavaleiro das Trevas”, mais do que entretenimento, mais do que fantasia, mais do que terror, é um filme moralista, bastante mais do que qualquer outra adaptação cinematográfica de Batman . Nele destacam-se as personagens, as suas características, e as suas mudanças ao longo do tempo, mais do que propriamente a história conhecida por todos nós. Um Batman sem Batman no título, que contém o herói de BD e muito mais.

Bruce Wayne, o homem por detrás de Batman, quer apenas o que é melhor para Gotham, mesmo que isso não seja o melhor para ele próprio e para a imagem pública que a cidade tem dele. É por isso que, no final do filme, acaba por assumir a culpa de crimes que não cometeu, dando a Gotham o herói que precisava, o herói com rosto, Harvey Dent, em vez do Batman que se escondia atrás da máscara. Sacrifica-se em nome do que Gotham merece: alguém em quem acreditar, que não seja um herói fantasma. Mas permanece atento, vigiando o crime em Gotham, protegendo-a de tudo e de todos, na escuridão; é o cavaleiro das trevas. Põe em causa desistir de Batman, mostrar ao mundo quem é; até porque acredita que Rachel o aceitará quando deixar essa vida. Não consegue abdicar dela, por mais que tente. Mas acaba por esconder a sua identidade, porque se apercebe de que a cidade ainda precisa dele.

“I make my own luck.” “Let’s put a smile on that face!”

Joker é uma personagem difícil de descrever. Heath Ledger deu-lhe algo que não tinha antes, nem mesmo com Jack Nicholson a interpretá-lo. É louco, é assustador, é imprevisível, espontâneo... mais do que isso, só me ocorre uma palavra: doentio. Quer provocar o caos a todo o custo; não se importa com mais ninguém a não ser com ele próprio; não lhe interessa se morrem uma ou cem pessoas numa situação causada por si, desde que provoque o caos e a desordem na cidade. Não segue regras, não tem um plano. Acredita que essa é a única forma de viver. É a consequência de um passado sombrio, e de uma vida também ela doentia.

“The night is darkest just before the dawn. And I promise you – the dawn is coming.”

Harvey Dent é o herói que Gotham precisa, que dá o rosto e liberta a cidade do crime organizado. É o cavaleiro da madrugada. Joker consegue atingi-lo no ponto mais fraco: o coração; Rachel Dawes. Dent desce então ao seu nível: deixa de ser quem era e torna-se um criminoso, um vingador. Ele, que era o melhor de todos entre os que queriam o bem público de Gotham, foi destruído por aquela criatura doentia, e transformou-se numa pessoa que queria, a todo o custo, destruir aqueles que tinham participado na morte de Rachel. Mas Batman, apercebendo-se de que Joker tinha ganho, que tinha destruído o verdadeiro herói, não podia permitir que ele passasse a ser visto como um criminoso, apagando a anterior imagem que Gotham tinha dele. É por isso que a sua identidade, Duas-Caras, é escondida para sempre, dando à cidade o herói que precisava, e escondendo aquele que merecia: o próprio Batman.

“You either die a hero, or you live long enough to see yourself become the villain.”

É disto que o filme trata. Das pessoas. No meio de tanta crueldade, de tanto caos, de tanta injustiça, só os verdadeiros heróis valem. A cena dos barcos, dos prisioneiros e das pessoas, que se tentam salvar, dá uma certa esperança à história. Há que haver alguma esperança, entre tanto caos, num mundo que parece determinado pelo crime e pelos criminosos. Todos podiam ter carregado no botão e rebentar com o outro barco. Seria o melhor para eles. Mas nenhum o fez. Joker queria destruí-los, Batman queria salvá-los. Mas o futuro não estava nas mãos deles, e sim nas suas. Houve esperança; valeram as pessoas, os corações.

“The only morality in a cruel world is chance.”

“The Dark Knight” é um filme de cinema. É um filme para tremer de medo no cinema; para saltar de surpresa no cinema; para ver atentamente do princípio ao fim do cinema, para ouvir no cinema. É um filme que precisa da reacção geral, dos rostos assustados, das bocas abertas de estupefacção. No cinema.

Excelente filme. Pode não ser o melhor do ano, mas é excelente do ponto de vista técnico, comercial e inovador. É um Batman; só por isso pode não atrair os mais realistas ao cinema e, pelo contrário, pode atrair os mais fantasistas e apreciadores do mito. Mas é inovador porque, ao contrário de todos os outros já filmados, demonstra o lado moral, o lado emocional, de Batman e de Gotham City. É um filme complexo: fala de uma realidade, do crime organizado, da máfia, de corrupção; de heróis com ou sem rosto, da protecção de uma cidade; de regras, e do seu cumprimento; de homens doentios, agentes do caos; de morte, de amor, de justiça e injustiça; de sorte, cara ou coroa. Tem um pouco de tudo. Para além disso, não podia ser mais obscuro; as trevas dominam praticamente todo o filme. É negro, é misterioso, é interior.

Tem um elenco de louvar. Christian Bale, o sempre favorito do realizador, é o Batman mais real, mais humano; e o Bruce Wayne mais astuto, mais emocional. A sua interpretação é fabulosa, embora ultrapassada pelas personagens dos colegas. Não retira a máscara; esconde-se nela, tal como Batman; mas talvez por isso, ela entra-lhe na perfeição. Aaron Eckhart é Harvey Dent, tanto no início como no final do filme, por isso bastante versátil. Representa o que há de melhor e o que há de pior em Gotham. É o herói do filme, e ele roda basicamente à sua volta. É o único verdadeiro herói, embora Batman viva na sua sombra. Heath Ledger criou um novo Joker; mostrou as suas origens, os seus pensamentos, a sua demência. É a personificação perfeita de um homem que não é um homem, porque de humano parece não ter nada. Malogrado, não viveu tempo suficiente para consolidar a sua carreira como recheada de sucessos, e para ver o resultado deste filme que, dizem, marca a sua melhor interpretação, digna de um Óscar em 2009. A sua interpretação e a de Aaron Eckhart ultrapassam Christian Bale, não por sua culpa, mas porque ambos, cada um à sua maneira, inovaram a história de Batman e deram-lhe um novo carácter, tanto mais terrível, por um lado, como mais imaculado, por outro. Destacam-se ainda os sempre fantásticos, Morgan Freeman e Michael Caine, ainda que em pequenos papéis – ambos se podem considerar parte da consciência de Bruce Wayne –; Gary Oldman, como James Gordon; e Maggie Gyllenhaal, no papel de Rachel, cuja graciosidade permite dar à personagem o carácter firme e susceptível que a caracterizam, em relação a Bruce e a Harvey.

Christopher Nolan, para quem o conhece, é mesmo assim. Obscuro, sempre que possível; moralista, sempre que necessário. Grande realizador, de êxitos como “O Terceiro Passo” e “Memento”, neste novo Batman conseguiu provar que nem sempre um filme cujo tema é demasiado experimentado é, obrigatoriamente, um filme experimentado. Com novas personagens, novos actores, novas caracterizações das personagens, novas concepções, criou um filme que fica na história; criou frases que não se esquecem; imagens que dificilmente serão substituídas. Um Batman com Batman e muito mais.

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