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céu profundo

“A Astronomia compele a alma a olhar para cima e leva-nos deste mundo para outro.”
Platão

Sob o imenso céu estrelado de Proença-a-Nova, numa fresca mas bela noite de Verão, o Departamento de Física da Universidade de Aveiro proporcionou aos presentes no Centro Ciência Viva da Floresta, da região, uma pequena lição de astronomia e uma encantadora observação do universo. Durante cerca de três horas, absorveram-se os conceitos-base de astrofísica, e puderam observar-se as mais importantes constelações, as mais brilhantes estrelas, e os mais visíveis planetas, a olho nu e com o auxílio de um eficaz telescópio. “Vamos observar o céu?”, perguntava José Matos, astrónomo responsável pela sessão, enquanto se dirigia para a noite escura e fria. As cabeças viraram-se para a escuridão do céu, totalmente limpo, e os olhos observaram. E deleitaram-se.
Através do telescópio enorme, colocado numa posição estratégica, observou-se, à vez, o maior planeta do sistema solar, visível durante o verão de 2008. A total ausência de luz no recinto permitiu uma maior visibilidade dos pontos luminosos no céu, e a mais fácil identificação desse planeta, o mais brilhante a olho nu. Júpiter encontrava-se inserido no centro da constelação de Sagitário, em direcção a sudoeste. “Vejam bem as nuvens em Júpiter”, avisava José Matos, coordenando as observações pelo telescópio. “Conseguem distinguir as duas faixas escuras, no planeta? E três das quatro luas: duas à esquerda e uma à direita? Tem sessenta e três luas, no total, mas só conseguimos observar quatro delas: Europa, Calisto, Io e Ganimedes”. Embora muito ao longe, Júpiter parecia relativamente perto. O planeta precisava constantemente de ser recolocado na mira do telescópio, devido ao movimento de rotação da Terra, que desviava o aparelho do ponto pretendido. Mas a experiência valia o esforço, insistia o astrónomo, porque a noite tinha as condições perfeitas para a observação do céu.
“Vêem a Estrela Polar?”, questionava José Matos, puxando pelo público interessado, enquanto algumas pessoas iam observando Júpiter ao telescópio. “Onde é que ela está? Muitas pessoas pensam que é a estrela mais brilhante do céu, mas não é. É uma estrela de brilho médio. Está no prolongamento da estrela mais à direita da Ursa Maior”. As cabeças viraram-se para o lado contrário do céu, quando o instrutor usou o seu ponteiro luminoso esverdeado, com bastante potência, para apontar a localização da estrela que indica o Norte. “É a última estrela da constelação da Ursa Menor. Enquanto as outras estrelas parecem mudar de lugar, ao longo da noite, devido à rotação da Terra, esta permanece sempre no mesmo sítio. Porquê? Porque o eixo da Terra está naquela direcção, e não exactamente sobre as nossas cabeças. O eixo é inclinado, e aponta para a estrela polar. Por isso, se se perderem, sabem sempre que a estrela polar indica o Norte. E podemos passar a noite toda a observá-la ao telescópio, porque ela não sai do sítio.”, explicou José Matos, mostrando de seguida a constelação da Ursa Maior, bem visível no céu de Verão.
Os nomes das constelações existentes, oitenta e oito no total, visíveis no nosso céu, provêm dos Antigos, que as denominaram de acordo com as suas formas. A união dos pontos lembra deuses gregos, animais, figuras ilustres, de acordo com os seus nomes; mas qualquer leigo pode decorá-las no céu através da visão de outras figuras. A Ursa Maior, por exemplo, pode mostrar também a forma de uma frigideira, um carro de supermercado, ou qualquer outra coisa. Fica ao critério de cada um identificá-las no céu. “É preciso alguma imaginação para identificar nas constelações as figuras que representam os seus nomes.”, admitia José Matos.
As constelações com nomes de signos – Peixes, Capricórnio, Escorpião, Sagitário, entre outras – são os locais onde se encontram, no mapa do céu, os planetas do Sistema Solar e o próprio Sol. “É naquela direcção que os podemos observar”, explicava o instrutor. Agosto é o mês do ano no qual se podem observar mais estrelas cadentes, especialmente cerca de dia doze. Na noite da observação, vinte e dois de Agosto, era mais propício observá-las perto da constelação de Perseu, mas elas viram-se claramente um pouco por todo o céu. “ As estrelas cadentes não são estrelas cadentes.”, esclareceu José Matos. “ Os cometas, que são astros, corpos gelados, que se movem em órbita, também à volta do Sol, deixam um rasto de pó por onde passam. Quando a Terra passa pela sua trajectória, caem na atmosfera alguns pedaços desse pó, brilhantes ao entrarem em contacto com o ar, que provocam a visão de pequenos pontos cadentes, no escuro do céu. Isso são as estrelas cadentes”. A apresentação em computador, mostrada antes da observação nocturna, ajudou a aprofundar conhecimentos acerca desse e de outros assuntos, como os asteróides e as chuvas de estrelas.
Olhando bem para cima das cabeças, lá no alto, era claro um conjunto de três estrelas brilhantes que, unidas, formavam um triângulo. “Denominado Triângulo de Verão, é composto pelas estrelas Deneb, Altair e Veja, e é visível durante a época do Verão. As estrelas pertencem às constelações de Cisne, Águia e Lira, respectivamente.”. José Matos apontava para o triângulo com a luz esverdeada, mostrando as constelações e o resto do universo, como Cassiopeia, Leão ou Aquário. O ponteiro aponta uma luz tão forte que é perceptível aos aviões, podendo até interferir com a sua visibilidade.
A galáxia onde está inserido o Sistema Solar é a Via Láctea, também denominada Caminho de Santiago. Pode ser observada a olho nu: consegue distinguir-se um aglomerado de pontos brilhantes, e uma mistura de cores azuladas e amareladas, que atravessam o céu. Uma galáxia vizinha da nossa, que se distingue devido ao intenso fumo branco que a caracteriza, é a Andrómeda. José Matos avisou: “Quem não gostar desta galáxia, não gosta de mais nenhuma!”, disse com o humor que o caracteriza. Mostrou-a ao telescópio, o fumo branco a cobrir os diversos pontos cintilantes. Mostrou ainda um enxame globular, ou seja, um aglomerado de estrelas, ao telescópio. Com a escuridão da noite sobre Proença-a-Nova, os olhos acabaram por se habituar ao ambiente nocturno e observaram ainda melhor o céu estrelado.
À direita de Júpiter, mais para oeste, os presentes deram conta de um ponto brilhante no céu, diferente dos restantes. A sua luminosidade era avermelhada, alaranjada, e parecia brilhar ainda mais do que as outras. “É Arcturus”, esclareceu José Matos. “É a estrela da constelação de Boieiros, a mais brilhante do hemisfério Norte e uma das mais brilhantes do Universo. É grande e vermelha, mas para além disso está a morrer. Está a crescer muito, e não se sabe se vai explodir e originar uma supernova, ou tornar-se buraco negro.”. O instrutor falou então de outra questão curiosa: a relação entre a distância dos corpos no universo e o tempo. “Por exemplo: Arcturus está a cerca de trinta e seis anos-luz da Terra. Isso significa que, a imagem que nos chega da estrela, hoje, o que vemos ali, é o que estava a acontecer há trinta e seis anos atrás. Daqui a trinta e seis anos, estaremos a observar o que lhe acontecia hoje. Ou seja, a distância a que um corpo está é também o tempo a que está.”. Sendo assim, estará Arcturus já morta? “Hoje em dia, já se pode ter acesso a essas informações sem ser pela observação, por isso sabe-se que ainda está a morrer.”, concluiu José Matos.
Ao princípio do dia vinte e três, eram já menos os observadores, mas ainda havia uns quantos resistentes; resistentes ao frio, às dores de pescoço e de pernas, e ao sono. Cerca da meia-noite, uma claridade esbranquiçada começou a aparecer a Este: era a Lua. Em quarto minguante, o satélite natural da Terra, naquele céu tão escuro e estrelado, fascinou todos os que ainda acompanhavam a sessão de observação nocturna. José Matos tinha já explicado os desenhos na superfície lunar, e as formas curiosas que assumiam. Mas quando apontou o telescópio para a claridade, os presentes estavam certos de que aquele seria o momento alto da noite. A olho nu, a Lua já se via bastante bem; ao telescópio, conseguiriam identificar cada cratera, cada diferença de tom. Assim foi. A Lua ocupou toda a mira do aparelho. O telescópio inverteu a imagem, mostrando a Lua em quarto crescente, como funcionam esses aparelhos; mas viu-se na perfeição. O contraste entre a luminosidade e a metade escura, não iluminada pelo Sol, era bem visível, e distinguiam-se bem os tons claros dos mais escuros. O astrónomo divertiu os resistentes: “Não vêem nenhuma bandeira?”.
Surgiu, na conversação entre José Matos e as pessoas, o tema dos sistemas duplos, ou seja, os sistemas que têm duas estrelas, e também se falou das estrelas que, a olho nu, parecem uma só, mas que o seu brilho alberga mais do que uma estrela. O instrutor apontou o telescópio para a segunda estrela da Ursa Maior, a começar da esquerda. Viam-se três estrelas diferentes: uma mais acima, e duas em baixo, na mesma linha. As duas de baixo parecem uma só, a olho nu; e, olhando com um pouco mais de atenção, consegue distinguir-se, pouco mais acima, a outra estrela que se via ao telescópio. José Matos revelou então que a própria Estrela Polar, na cauda da Ursa Menor, eram, na verdade, duas estrelas, e o brilho visto a olho nu era causado pela soma do brilho de ambas. Para comprovar a sua afirmação, o telescópio foi, uma vez mais, dirigido para Norte, e puderam observar-se as duas estrelas, uma mais brilhante – a verdadeira Estrela Polar – e a outra, mais pequena.
O Universo tem cerca de treze mil e setecentos milhões de anos, e teve origem na explosão denominada Big Bang. O planeta Terra tem quatro mil e quinhentos milhões de anos, desde a sua formação. “Até 1953,”, explicou José Matos, “o Homem pensava que o planeta Terra tinha apenas seis mil anos de idade, porque fora há seis mil anos a criação dos primeiros seres humanos, Adão e Eva, segundo a Bíblia. Mais recentemente, acreditou-se que a Terra seria mais antiga, e os meteoritos que caem na superfície terrestre ajudam a determinar a idade da Terra e a datar outros corpos. Os meteoritos são astros que se formaram aquando da formação do nosso Sistema Solar, e não sofreram alterações, por isso são fundamentais na datação e comparação de datas.”.
José Matos falou do resto do Universo, questionado se haveria vida noutros planetas. “O planeta Terra deve muito à sorte. Está no lugar certo, nasceu à hora certa. Em todos estes anos de vida, nunca sofreu nada, e tem todas as condições para continuar assim por muitos milhares de anos. Para o caso de haver vida noutros planetas,”, disse, “já foram enviadas para o espaço naves espaciais, umas com placas, com imagens, outras com discos, com mensagens em várias línguas…”, continuou, divertido. “Se for verdade, eles saberão que nós estamos aqui. Mas, se um dia desaparecermos, obra de um asteróide, ou por qualquer outro motivo… ninguém vai dar pela nossa falta. Só na Via Láctea, existem cerca de quatrocentos mil milhões de estrelas. Nós somos, diria, do tamanho de um mosquito. Nem tanto… Por isso, ninguém dará pela nossa falta.”, concluiu.
José Matos olhou o céu de Proença-a-Nova uma última vez, naquela fresca noite de Verão, depois de explicar esses factos. A lua aguardava, bem perto, iluminando tudo à sua volta. Arrumou o telescópio no carro, e à sua volta o público atento começou a dispersar. Pode não ter dito nada de novo, para alguns; pode ter falado demais, para outros. Por ele, poderia continuar a falar o resto da noite, desde que fosse sobre estrelas e outros corpos celestes. O astrónomo pode até não ter tido tempo suficiente para dizer tudo o que sabia do Universo, mas o que disse foi mais do que suficiente. Ao abandonar o Centro Ciência Viva e da Floresta, pôde observar as pessoas que tinham assistido à sua sessão nocturna. E pôde sorrir ao vê-las, qual delas a mais entusiasmada, a observar atentamente o céu estrelado, apontando constelações, planetas e estrelas.
Imaginariam Copérnico, Galileu, Newton, que a Astronomia se tornaria uma ciência não só para deslumbrar profissionais, mas também amadores? Sonhariam eles, sequer que, hoje, saberíamos tanto sobre o Universo, um dos conceitos mais vagos que existem? Certo é que o céu fascina, e continuará a fascinar as gerações futuras. Iniciativas como as que o Departamento de Física da Universidade de Aveiro proporciona, funcionam como um meio de divulgação do conhecimento, e de encanto pelo que nos rodeia, fora do que está à vista desarmada. O conhecimento daquela noite ficou ali guardado, na memória de cada um dos presentes em Proença-a-Nova. Vale a pena abrir bem os olhos para o céu, e observar as estrelas. Vale a pena experimentar. Deleitem-se. Não se vão arrepender…

4 comentários:

Miguel Pires Prôa disse...

Grandes noitadas de Astronomia, tou a ver!. Mt bom, qd me dedicar à Astronomia vou de certeza recorrer a este post p referência.

Cheers!

pedro oliveira disse...

Raquel dou-te os parabéns pelo teu blog,a tua escrita e interesse pela ciência.Muitas felicidades para ti.

Anónimo disse...

Olá Raquel

Agradeço o texto. Está muito completo uma grande reportagem. Ainda bem que as pessoas gostaram.

Vou fazer referência no radiante.

www.radiante.wordpress.com

Um abraço

José Matos

Anónimo disse...

Olá Raquel!
Obrigado pelo teu testemunho da actividade que realizámos no Centro de Ciência viva da Floresta.
É sempre muito gratificante para nós (Associação de Física da Universidade de Aveiro) terminar uma actividade de divulgação com a satisfação de dever cumprido. Pois divulgar a ciência e promover a cultura científica, foi desde o início o nosso propósito e quanto jovens como tu, manifestam o interesse, alegria e satisfação pela ciência, isso dá-nos motivação para continuar a fazê-lo mais e melhor.
Espero que alimentes esse teu interesse pela Astronomia e pela Física, e quem sabe um dia, venhas a fazer parte da nossa associação e seres tu a mostrares todos estes “mistérios” do universo às outras pessoas.
Desejo-te o maior sucesso nos teus estudos e para o teu futuro.
Beijo

Emanuel Santos
FISUA - Associação de Física da Universidade de Aveiro
www.fisua.pt.vu