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Repórter de Guerra - Luís Castro

Título Original: Repórter de Guerra
Autor: Luís Castro
Oficina do Livro
2007


«Mandaram-me para um conflito esquecido no imenso Zaire; perdi-me na linha da frente em Angola; aprendi a língua do mato e descobri reféns em Cabinda; fugi das cidades em chamas e vasculhei montanhas em Timor; estive dentro da guerra e das traições na Guiné; fui à capital dos talibãs para sentir o cano de uma Kalashnikov; disfarcei-me nas tempestades do deserto iraquiano para compreender o povo do exército mais fraco. (…) alguém me disse que ‘os tiros que tu ouves não te matam’. Ouvi-os a todos e fui agradecendo a Deus cada vinte e quatro horas de vida que me dava.» (pág. 15)

Luís Castro esteve, por diversas vezes, onde se fez história, e teve a possibilidade de expor os acontecimentos para todo mundo, através da RTP. Foram 17 guerras ou situações de conflito, incluindo Angola (1999), Cabinda (2001); Guiné-Bissau (1998/2003); Timor-Leste (1999/2000); Afeganistão (2001/2003); e Iraque (2003/2006). As histórias relatadas no livro Repórter de Guerra são apenas algumas de entre as mais de mil horas de imagens que consultou, e estão relatadas não só pela sua visão jornalística, mas pela sua visão pessoal e emocional, apesar de ser contada a verdade, sem tirar nem pôr. Cada país, cada episódio vivido, levam-nos numa viagem ao interior de cada cultura, descobrindo homens e mulheres que, mais do que qualquer ocidentalizado, têm, verdadeiramente, problemas – como o refere o autor, ao longo do livro. De modo a focar a nossa atenção em factos que me tocaram especialmente, escolhi salientar dois episódios, que aconteceram em Angola e no Iraque.

Dizia Georg Hegel «O homem não é mais do que a série dos seus actos». Luís Castro, dentro e fora do país, tem amigos que o apoiam e uma família que se preocupa, principalmente quando parte para uma situação de guerra, sem saber se volta ou não. Também ele sofre, cada dia que está longe, desconhecendo se, no dia seguinte, ainda estará cá para contar o que vê. Os perigos que enfrenta, numa guerra, são louvados pelo ser humano mais comum, que admira a sua coragem e a sua ‘maluquice’, como muitos chamam ao seu desejo de sair da redacção e partir para o centro do conflito.

Em Angola (págs. 74-79), os militares das FAA eram peremptórios: «Em África não se fazem prisioneiros». Os inimigos eram mortos porque, vivos, seriam mais um prejuízo para eles. Certo dia, os militares trouxeram um prisioneiro da UNITA, e não permitiram que o matassem – situação estranha ao repórter da RTP, que ainda não tinha visto nenhum prisioneiro vivo. Dizem os das FAA: «- Senhor jornalista, fizemos um prisioneiro só para si. Para que o interrogue e filme o momento em que lhe vamos cortar a cabeça com a catana.» Imaginamos a reacção do autor a esta afirmação. Sim, entrevistou o prisioneiro, mas o seu lado pessoal não permitiu que o matassem. A decisão ficou dependente do cumprimento ou não da promessa dos militares, de que não o iam matar. Como jornalista, teria sido um momento de grande impacto, pois as suas imagens seriam únicas – filmar um soldado a cortar o pescoço a um prisioneiro. Mas Luís Castro não poderia permitir isso, como que sentindo «A morte de cada homem diminui-me, porque eu faço parte da humanidade» (John Donne). Sendo respeitado pelos soldados, sentiu que a única hipótese de salvação daquele homem estava nas suas mãos, e fez a única coisa que poderia, de forma a dormir tranquilo: abdicou dessas imagens em prol da vida do prisioneiro. Influenciou a acção, algo que um jornalista nunca deve fazer; mas, tal como refere no livro, talvez tivesse esse direito, pois a acção só foi desencadeada porque ele ali estava. O que faríamos no seu lugar? Teríamos a coragem de observar, filmar e distribuir por todo o mundo o momento do assassinato de um prisioneiro? Decerto traria uma elevada satisfação profissional, mas a nível pessoal, continuaríamos a viver descansados sabendo que o podíamos ter evitado? Penso que fez a escolha correcta, embora sob pressão e, provavelmente, temendo ele próprio algum tipo de repercussão.

No Iraque, em Março de 2003 (págs. 273-280) o jornalista e o repórter de imagem Vítor Silva embrenharam-se no deserto em direcção à linha da frente do exército americano. O facto de não estarem “embedded”, e de levarem consigo dois jornalistas israelitas, levantou dúvidas por parte dos soldados americanos, que desconfiaram da veracidade das suas identidades. Foram assim considerados inimigos, maltratados e humilhados. Permaneceram sequestrados dentro do jipe cerca de dois dias e meio, incomunicáveis, sobrevivendo ao calor e ao tédio. Tal como Séneca disse, «Devemos ir buscar a coragem ao nosso próprio desespero». Luís Castro ainda tentou conversar com os militares, saindo do jipe, mas estes ameaçaram-no com uma arma e bateram-lhe, deixando-o dorido. No terceiro dia, os americanos assumiram o erro e pediram-lhes desculpa, libertando-os, depois de confirmarem que eram simples jornalistas. Mas a situação marcou intensamente o repórter. O pró-americanismo que sentia esfumou-se quando se apercebeu do que estes lhe tinham feito. Se estivéssemos no seu lugar, decerto sofreríamos do mesmo sentimento de revolta.
Em 2008, Luís Castro partiu para o Iraque, de modo a relatar os cinco anos desde o início da guerra. Cinco anos após a situação descrita no livro, esteve “embedded” com os soldados americanos, no deserto iraquiano; os mesmos que o maltrataram e humilharam em 2003. A situação foi diferente: pôde estar, como tanto gosta, onde se fez história, e transmitiu para o mundo, uma vez mais, imagens inéditas da frente de batalha do exército americano, para além de reportagens menos mediáticas sobre Bagdade e os exércitos mais fracos. A vida tem destas ironias: juntar o jornalista com os americanos, apesar da culpa de uns não ter perdão, e a dor do outro não ter remédio.

Descobri, através do livro Repórter de Guerra, que o homem tem ainda muito a aprender acerca do mundo que o rodeia. Luís Castro conheceu meio mundo, fez amigos por toda a parte, sofreu com o que viu, teve medo, foi obrigado e puxar pela coragem, cobriu guerras que nenhum de nós consegue, sequer, imaginar… E, ainda assim, é lá, no centro da guerra, que se sente bem, que se sente útil e, verdadeiramente, jornalista, que ali está para relatar os acontecimentos e transmiti-los para o mundo. O livro não inclui todos os países em que esteve, muito menos todas as situações que viveu, mas inclui o essencial para percebermos que gosta do que faz e que o faz por gosto. Bassim Shuaip, jornalista iraquiano e amigo do autor, refere «(…) perguntei-lhe porque gosta dos palcos mais perigosos, especialmente do Iraque. Disse-me que só há uma verdade e que tinha de contá-la, nem que isso lhe custasse a vida». É isso que tem feito, ao longo da sua vida de jornalista, e que demonstra através das suas vivências em cenários de perigo.

1 comentários:

Anónimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado