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Na linha da morte

O deserto que os rodeava sugeria uma luta difícil contra a morte. Com o filho de cinco meses nos braços, o jovem casal Stolpa perdeu-se numa interminável tempestade de neve, no Nevada, sendo Jim e Jennifer, juntamente com Clayton, considerados desaparecidos. Já mal podiam andar, mas a vontade de sobreviver e de salvar o filho levou-os a não desistir de tentar encontrar ajuda. Caminhando através da neve, e suportando temperaturas abaixo de zero graus, durante nove dias, os Stolpa sobreviveram para contar o episódio mais delicado das suas vidas

James e Jennifer Stolpa viviam em Castro Valley, na Califórnia, onde James era soldado privado do Exército americano. No final do ano de 1992, receberam a notícia da morte de uma avó, e decidiram viajar até Idaho, para assistir ao funeral, apesar do Inverno bastante rigoroso e das tempestades constantes. Partiram, assim, a 29 de Dezembro de 1992, em direcção a Pocatello: Jim, com vinte e um anos; Jennifer, com vinte; e o filho, Clayton, com cinco meses de idade.
A viagem na pick-up estava a decorrer sem problemas. Porém, no Norte do Nevada, depararam-se com a estrada principal, a Interestadual 80, sobre Donner Pass, encerrada devido à neve. Sem avisarem ninguém, os Stolpa seguiram por uma estrada secundária, tentando chegar a tempo ao funeral, contornando Donner Pass. Acabaram por ser encurralados numa tempestade de neve, que deixou a carrinha presa num monte de neve e totalmente imóvel, a cerca de 64 quilómetros da civilização.
Permaneceram quatro dias no interior da carrinha, um abrigo gelado, quase sem mantimentos, tentando manter Clayton vivo; esperando que alguém os encontrasse. Mas ninguém veio. Os Stolpa perceberam então que dificilmente alguém os ia resgatar. Por isso, no quinto dia, decidiram abandonar o veículo e caminhar, tentando encontrar ajuda. Jim ia à frente, puxando um trenó onde repousava Clayton, dentro de um saco; Jennifer caminhava atrás dele, um pouco cansada, devido ao parto que tinha sofrido há apenas cinco meses. Andaram cerca de 19 quilómetros, quando se aperceberam de que a estrada que procuravam estava também encerrada. Jennifer ficou perturbada, chorando descontroladamente e dizendo que não aguentava mais as dores nas ancas e nos pés. Mas Jim convenceu-a a voltar para trás de modo a tentar encontrar a localidade mais próxima. “Nós não estamos a fazer isto por mim nem por ti. Estamos a fazê-lo pelo bebé”, disse-lhe. Deram assim a volta e seguiram caminho.
Ao não ouvirem o choro de Clayton, por momentos, Jim e Jennifer temeram que a criança não tivesse aguentado o frio e a fome. Mas foi apenas um susto.
Durante vinte e oito horas, irromperam pela neve densa, que tornou a caminhada extremamente complicada. Jennifer estava cada vez mais fraca, impossibilitando-os de continuar a andar, mal aguentando estar em pé, quando Jim descobriu uma pequena gruta, escavada nas rochas. Abrigaram-se aí durante a noite, construindo uma pequena fogueira, que não durou muito. Tiveram de passar mais uma noite ao frio, no deserto. No dia seguinte, Jim decidiu abandonar a gruta e partir sozinho em busca de ajuda, pela estrada que ia dar a Vya, deixando Jennifer e o filho abrigados do frio e do vento. De princípio, Jennifer ficou apreensiva, pois tinham combinado permanecer sempre juntos. “Ela não queria que nos separássemos. Mas no fundo, acho que ela sabia”, disse, mais tarde, James Stolpa, numa entrevista. “Se eu tivesse ficado lá, todos teríamos morrido”. Então, Jim despediu-se de Jennifer, trocando palavras de consolo e promessas, não sabendo se conseguiria regressar. Deixou na gruta a maior parte das provisões e o saco-cama, e pediu à esposa para rezar por ele.
Jim continuou assim o seu caminho, lutando contra o cansaço, o frio e a fraqueza. Dezoito horas depois de ter abandonado a gruta, seguindo as suas pegadas, encontrou a pick-up que os tinha trazido até ali, e pernoitou no seu interior para descansar da longa caminhada. “Tenho de sobreviver. Tenho de sobreviver para eles poderem sobreviver”, continuava a dizer a si próprio.
Na manhã seguinte, caminhou para Oeste, seguindo os vestígios das rodas da carrinha, esperando chegar ao último túnel pelo qual tinham passado, a cerca de 80 quilómetros e meio. Caminhou durante trinta horas, ultrapassando os 64 quilómetros, sem comida nem água. De modo a combater a exaustão, adormecia cerca de cinco minutos, de hora a hora, e continuava a repetir para si que tinha de sobreviver, e que não podia dormir mais do que isso, com medo de não voltar a acordar. Quase sem dar por isso, Jim avistou uma carrinha, ao longe, na estrada, e começou a acenar e a gritar o melhor que conseguia, para o verem e resgatarem. O funcionário da auto-estrada, Dave Peterson, parou a carrinha para ver o que estava a acontecer, quando viu James Stolpa entrar no veículo e dar-lhe um grande aperto de mão. Tinha caminhado entre 80 a 97 quilómetros pelo deserto de neve, em dois dias. O seu rosto estava coberto de gelo, os pés e as mãos congelados. Mas Jim tinha conseguido.
Entretanto, Jennifer continuava à espera do marido, na gruta. Amamentava o filho como podia, embora não tivesse muita água para beber. Passado um tempo, apercebeu-se de que não estava a produzir leite suficiente. Então, começou a derreter neve na boca e a deixar cair a água na boca de Clayton. Para além dessa dificuldade, Jennifer sentia os pés muito frios, e tentou destapá-los de modo a aquecê-los dentro do saco-cama. Os pés tinham adoptado uma cor azul, e ela mal os sentia. Não sabia também que a diferença de temperaturas ainda piorava mais o estado do pé.
Três dias depois de Jim os ter abandonado na gruta, já sem água e com poucos alimentos, Jennifer ouviu um som vindo do deserto. Ao colocar a cabeça de fora da gruta, avistou uma carrinha e dois homens que a vinham salvar.
Depois de ter sido levado por Petersen para a sua casa, James forneceu a informação detalhada aos homens, para poderem resgatar Jennifer e Clayton. Posteriormente, foi levado para o hospital, onde se encontrou com Jennifer e o filho. O olhar que trocaram foi apenas de agradecimento por estarem todos vivos. Devido aos ferimentos graves de exposição ao frio durante um longo período, Jim e Jennifer tiveram de se submeter a cirurgias, nas quais lhes foram amputados todos os dedos dos pés. Mas o contentamento por o filho não ter sofrido lesões graves fê-los superar a tragédia que tinham acabado de viver.
Os media depressa foram atraídos pela miraculosa história dos Stolpa. Foram feitos filmes e documentários sobre a sua sobrevivência, de Dezembro de 1992 a Janeiro de 1993, no deserto do Nevada; e a família, aos poucos, foi recuperando do episódio. Quinze anos depois de terem sido encontrados, a sua história ainda corre por todo o mundo. Hoje, Jim Stolpa, com 37 anos, e Jennifer, com 36, estão divorciados, desde 1999, e partilham a custódia do filho Clayton, de quase 16 anos, e da filha Shelby, nascida em 1995. Jim voltou a casar e trabalha como operador de máquinas, enquanto estuda design mecânico. Quanto a Clayton, Jennifer Repetti – também casada de novo – garante: “Ele era demasiado novo para se lembrar de alguma coisa. As únicas vezes que ele pensa nisso acontecem quando vê algo sobre isso na televisão”. Apesar do divórcio, Jim e Jennifer nunca esquecerão o que viveram juntos, e continuam a ser bons amigos. Guardam uma boa recordação de toda a situação, afirma Jim: “Sempre que olho para os meus filhos, apercebo-me de que eles não estariam aqui – nenhum deles –, se não tivéssemos saído dali”.

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