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Noite de Óscares

A 24 de Fevereiro, Hollywood voltou a ser palco da 80ª, Cerimónia dos Óscares da Academia. A audiência do Kodak Theatre, em Los Angeles, apresentou-se totalmente lotada, com cerca de 3 mil lugares preenchidos. Os telespectadores, espalhados por todo o mundo, eram muitos mais – dezenas de milhões, em mais de duzentos países… O ambiente foi o de sempre – actores emocionados e muito divertimento. As 24 estatuetas foram distribuídas durante as três horas e meia da Cerimónia, e a noite foi recheada de lágrimas e sorrisos

A passadeira vermelha começou a encher por volta das quatro horas e meia da tarde, hora local (meia-noite e meia em Portugal). Podíamos ver já alguns dos nomeados, e alguns dos apresentadores. Muitos se dispuseram para falar com as câmaras, antes de entrarem no Kodak Theatre para ocuparem os seus lugares. A chuva que se fazia sentir em Los Angeles não deixou ninguém em casa. Para o efeito, até se arranjou uma cobertura para a passadeira vermelha, de modo a abrigar os convidados da chuva. O facto de a greve dos argumentistas ter acabado há poucos dias, depois de três meses e meio de greve, também não surtiu efeito na afluência das estrelas de Hollywood à Cerimónia dos Óscares.
Cerca das cinco horas e meia da tarde, o relógio parou a contagem decrescente, e Jon Stewart entrou em palco para a sua segunda vez a apresentar os Óscares da Academia. Com o humor habitual, foram referidos os excelentes filmes e actores que estavam nomeados este ano. A festa dos Óscares tinha acabado de começar.
As estatuetas foram distribuídas pouco a pouco, desde o prémio para Melhor Guarda-Roupa até ao tão desejado prémio de Melhor Filme de 2007. Os favoritos eram Haverá Sangue (There Will Be Blood) e Este País Não é para Velhos (No Country for Old Men), com oito nomeações cada. Destacavam-se ainda na corrida aos Óscares principais Uma Questão de Consciência (Michael Clayton) e Expiação (Atonement), com sete nomeações. Não houve grandes surpresas, nas principais categorias, mas nem por isso a Cerimónia perdeu o seu glamour de sempre.
O primeiro dos grandes prémios a ser apresentado foi o de Melhor Actor Secundário, conquistado pelo actor Javier Bardem, por Este País Não é para Velhos (No Country for Old Men), no qual desempenha o papel de assassino sociopata, perseguindo um jovem que roubou uma mala de dinheiro da droga. O seu reconhecimento era já esperado, embora houvesse excelentes actores na corrida ao mesmo Óscar, que acabaram por ficar pelo caminho, como Casey Affleck, pelo filme O Assassínio de Jesses James pelo Cobarde Robert Ford (The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford) e Tom Wilkinson por Uma Questão de Consciência (Michael Clayton). No habitual agradecimento, Javier Bardem agradeceu aos irmãos Cohen (realizadores do filme) “por terem sido suficientemente doidos para pensar que eu conseguiria fazer isto e representar com um dos mais horríveis cortes de cabelo da história”. Teve ainda tempo para dedicar o Óscar à mãe, em espanhol, emocionado.
O prémio de Melhor Actriz Secundária foi atribuído a Tilda Swinton, pelo papel em Uma Questão de Consciência (Michael Clayton), no qual desempenha uma advogada que representa uma empresa, e que enfrenta um grave processo. Foi uma surpresa, pois era esperado que Cate Blanchett recebesse o Óscar pelo filme I’m Not There, onde representa o cantor Bob Dylan. Ainda assim, Tilda Swinton foi uma justa vencedora, e também o seu discurso de agradecimento foi comovido. “Oh, no. Happy birthday, man”, começou por dizer, olhando para a estatueta dourada que segurava na mão. Dedicou o Óscar a Sidney Pollack e a George Clooney, com o qual troçou amigavelmente pelo seu papel em Batman e Robin; “You rock, man”, disse ainda. Por fim, agradeceu.
A Actriz Principal premiada foi a francesa Marion Cotillard, pelo papel extraordinário de Edith Piaf no filme francês La Vie en Rose. Deixou para trás a que seria uma aguardada surpresa na noite, Ellen Page, pelo filme Juno, e uma Julie Christie que esperava consolidar a sua carreira. Marion Cotillard, sem admiração, levou para casa a estatueta, na sua primeira vez nos Óscares, e pode dizer-se que foi uma das mais emocionadas da noite. Agradeceu a Olivier Dahan; “… Tu deste a volta à minha vida”; e à Academia, até ficar “speechless”, sem palavras. Finalizou com: “Obrigada vida, obrigada amor, e é verdade, há alguns anjos nesta cidade…”.
O vencedor mais esperado e, no entanto, o grande vencedor da noite, foi Daniel Day-Lewis, que conquistou o Óscar de Melhor Actor Principal, pelo seu papel de petroleiro na Califórnia, destemido e ambicioso, no filme Haverá Sangue (There Will Be Blood). Daniel Day-Lewis concorreu, verdadeiramente, com grandes nomes a seu lado: George Clooney, Johnny Depp, Tommy Lee Jones e Viggo Mortensen. Muitos comentadores pensam que qualquer um dos cinco seria um justo vencedor. Mas Daniel Day-Lewis, com Haverá Sangue (There Will Be Blood), desempenhou o papel da sua carreira, ainda mais importante do que O Meu Pé Esquerdo (My Left Foot), com o qual também já tinha ganho o Óscar, em 1989. Mal ouviu o seu nome, Daniel dirigiu-se a George Clooney, abraçou-o dando-lhe um beijo na cara, e caminhou até ao palco, para agradecer emocionadamente: “Espero que todos aos quais eu devo isto, e me sinto profundamente grato, me perdoam se disser, simplesmente, «Obrigado, Paul (Thomas Anderson, o realizador do flme)»”. Agradeceu, de seguida, ao avô, ao pai e aos três filhos, depois de já ter agradecido à mulher, Rebecca Miller.
Os prémios mais aguardados, de Melhor Realizador e Melhor Filme de 2007, foram as últimas categorias a serem desvendadas, mantendo o habitual suspense, até ao final da Cerimónia. A grande dúvida pairava sobre Haverá Sangue (There Will Be Blood) ou Este País Não é para Velhos (No Country for Old Men), os mais nomeados e favoritos para estas categorias. O filme dos irmãos Joel e Ethan Cohen acabou por levar, não uma, mas as duas estatuetas douradas… Este País Não é para Velhos (No Country for Old Men), tornou-se, assim, o filme de eleição de 2007, e, no caso português, um filme para ver em 2008, pois a sua estreia acontece apenas a 28 de Fevereiro. Dos irmãos Cohen, Joel teve o discurso mais longo: “Ethan e eu criamos histórias com câmaras de vídeo desde que éramos crianças. (…) Sinceramente, o que fazemos agora não parece muito diferente do que fazíamos na altura”. Os risos arrancados à plateia foram muitos. Terminou, agradecendo a todos, e dizendo-se muito entusiasmados por receberem os Óscares.
De destacar ainda outros prémios, também importantes, na Cerimónia. O filme Ratatui (Ratatouille), de Brad Bird, arrecadou o Óscar de Melhor Filme de Animação, já esperado, mas não conseguiu sequer chegar à nomeação para Melhor Filme do ano. O prémio de Melhor Banda Sonora foi para o filme Expiação (Atonement), cujo característico som da máquina de escrever ficou no ouvido de todos os que viram o filme. O prémio de Melhor Documentário foi ganho por Táxi to the Dark Side, embora a escolha não pudesse ser muito divergente, pois todos os nomeados estavam relacionados com o tema do Iraque. O filme de baixo custo Juno venceu o Óscar de Melhor Argumento Original, mas não superou as expectativas, como se pensou que pudesse fazer, talvez ao levar a estatueta de melhor filme ou realizador. Esse facto era aguardado com alguma esperança, depois de ter ultrapassado os 125 milhões de dólares na bilheteira americana. Na categoria de Melhor Música Original, depois das três nomeações (talvez um pouco exageradas) de músicas do filme Uma História de Encantar (Enchanted), o grande vencedor foi o filme independente Once, com a música Fallng Slowly, merecedora do Óscar. O Melhor Guarda-Roupa foi para Elizabeth – A Idade De Ouro, e a Melhor Direcção Artística foi o único Óscar para Sweney Todd – O Terrível Barbeiro de Fleet Street.
No balanço da Cerimónia, Este País Não é para Velhos (No Country for Old Men), dos irmãos Cohen, foi o vencedor da noite, com quatro prémios arrecadados, incluindo ainda Melhor Argumento Adaptado. A grande surpresa foi Ultimato (The Bourne Ultimatum), que venceu nas três categorias para as quais estava nomeado. Embora todas sejam categorias técnicas, de som e imagem, acabou por ser o segundo filme mais premiado da Cerimónia. Seguiu-se Haverá Sangue (There Will Be Blood) – também com Melhor Fotografia – e La Vie en Rose – também com Melhor Caracterização –, com duas estatuetas cada. No geral, não podemos falar de grandes vencedores e grandes vencidos. Os prémios foram bastante distribuídos, por grande parte dos filmes nomeados, e não houve preferência em género ou em número de nomeações.
A Cerimónia contou ainda com vários tributos a actores, realizadores e filmes antigos, especialmente devido a esta ter sido a 80ª Cerimónia dos Óscares da Academia, uma data histórica. O tributo fez-se, maioritariamente, na Cerimónia, quando se recordaram os setenta e nove filmes já premiados com Óscares de Melhores Filmes, não contando com o de 2008. Em 1928, a primeira cerimónia foi um jantar, num hotel, no qual se distribuíram os Óscares, na altura onze, pelos vencedores previamente anunciados.
O Presidente da Academia, Sid Ganis, levou ainda os espectadores a uma viagem virtual pelos segredos dos Óscares: o envelope selado e o sigilo entre júris. Outro momento alto da noite foi a recordação dos actores, realizadores, argumentistas, entre outras pessoas ligadas à indústria do cinema, que faleceram no ano de 2007 e no princípio de 2008. Relembraram-se, entre muitos outros, Ingmar Bergman, Michelangelo Antonioni e Heath Ledger, este último morto acidentalmente em Janeiro, que deixou todo Hollywood de luto. Por fim, o Óscar Honorário foi entregue a Robert Boyle, de 98 anos.
O apresentador americano, Jon Stewart, encarregado da animação e apresentação dos Óscares deste ano, protagonizou os momentos mais hilariantes da Cerimónia. Embora tenha ficado um pouco aquém de Ellen Degeneres, nos Óscares de 2007, Stewart riu e fez rir, divertindo a audiência e os espectadores que acompanhavam a Cerimónia de casa.
Eram quase nove horas da noite, locais (cinco da manhã em Portugal), quando o último prémio foi anunciado, e a Cerimónia dava mostras de estar prestes a acabar. Uma noite recheada de emoções, como sempre, que significou uma «directa» para muitos fãs e críticos de cinema, que não perderiam os Óscares por nada deste mundo. Uma Cerimónia histórica, para se juntar às outras setenta e nove, que constituíram, definitivamente, história, no cinema e no mundo. O único ponto negativo da Cerimónia dos Óscares da Academia é, exactamente, chegar ao fim, e sabermos que só daqui a um ano a poderemos ver outra vez; fazer outra «directa», não dormir, e passar mais uma noite com as estrelas de Hollywood. Tal como Jon Stewart se despediu, também nós temos de dizer adeus aos Óscares. Até à próxima!

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