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conta-me como é

Desde meados de 2007 que a série “Conta-me como foi” ocupa as noites de Domingo da RTP. Adaptada da série espanhola “Cuentame como pasó”, pelos realizadores Fernando Ávila e Pedro Miguel, retrata o ambiente social e económico dos finais da época de 60, pela voz de um homem que a viveu enquanto criança, e pelos olhos de uma família tipicamente lisboeta. Considerada uma das melhores séries portuguesas da actualidade, “Conta-me como foi” reúne história, ficção e entretenimento, num passado não assim tão longínquo.

Sem juízos de valor, sem moralismos, sem tomadas de partidos. “Conta-me como foi” demonstra a realidade de uma época conturbada, de um regime ditatorial, de uma sociedade difícil de enfrentar. Pretende apenas entreter, contando, em forma de filme, como foi que nos tornámos o que somos hoje. Mas penso que, essencialmente, faz milhões de pessoas voltar atrás no tempo para recordarem e reviverem momentos já esquecidos, e outros milhões conhecerem a história daquele que é o seu país. Não sei se o título pretende obrigar o narrador a contar aos telespectadores exactamente como foi que aconteceu, ou se pretende apenas ser sugestivo. Talvez suscite várias concepções, e seja esse o seu verdadeiro objectivo: ser subjectivo. A verdade é que o é.
“Conta-me como foi” mostra a evolução da moda, das tecnologias, dos produtos, das publicações, dos veículos, da política, do desporto, da rádio, da televisão, das pessoas… É a imagem de um país fechado em si mesmo, que hoje já não existe, mas continua a assombrar o futuro. Através de uma abordagem realista, com um toque de humor à mistura, o Portugal de 1968 é desvendado e comparado com o Portugal de hoje, onde usar um computador faz parte do dia-a-dia, e não é uma simples visão.
Uma família lisboeta, de classe média-baixa, que se debate diariamente com problemas financeiros, é o centro desta história. É através dela e das suas peripécias que o telespectador acompanha a sociedade portuguesa, e os hábitos da altura. Um casal, uma avó, e três filhos. O mais novo narra a história, não como ela realmente aconteceu, mas como ele a viu: pelos olhos de uma criança de oito anos, que se vê dentro de uma sociedade que não compreende mas aceita. Agora, já adulta, a criança conta a sua infância, e deixa transparecer uma inocência que já não sente.
As peripécias vividas pela família Lopes acompanham também as associações secretas e as manifestações anti-regime, a prisão pela PIDE, os conformismos das classes altas e as desgraças das classes baixas, a rigidez da educação, os hábitos da vida social. Consegue uma coesão narrativa que se adequa perfeitamente ao período retratado – muitas vezes documentado, mas nunca como em “Conta-me como foi” –, através de um enredo fantástico e de um elenco que parece vindo da década de 60 – destacando a excelente interpretação de Miguel Guilherme e Rita Blanco, enquanto pai e mãe de família, respectivamente, e de Luís Ganito, enquanto filho mais novo do casal. Conta todos os tabus, todas as acções corajosas, todas as ambições, todos os problemas… e a grande dificuldade de aceitação das novas mentalidades, que hoje nos parecem não fazer qualquer sentido.
Acompanhada pelo genérico musical de José Cid, “Conta-me como foi” é uma série de renome, aparentemente superficial, mas intensa depois de uma visão mais aprofundada. Sem quaisquer concepções acerca das personagens e do país, a liberdade que lhes é retirada é-nos dada de bandeja, para criarmos nelas o nosso próprio pensamento sobre a época e o mundo de hoje. O título acaba por obrigar, por uma qualquer força maior, o narrador a contar a história como foi, sem pôr nem tirar, e a dá-la a conhecer a todos os telespectadores – principalmente àqueles que não a conhecem –, continuando a ser sugestivo e subjectivo. Cabe a cada um tirar as suas próprias conclusões, mas o facto de ser um programa mais direccionado para as gerações que viveram a década de 60, não quer dizer que não seja importante para as gerações mais novas. Aliás, penso que é essencialmente importante para os jovens de hoje compreenderem o que era o país há 40 anos atrás – para compreenderem a sua evolução e poderem aprender mais sobre o futuro. “Conta-me como foi” é uma forma divertida, realista e pura de acompanhar o passado, e de nos conhecermos melhor a nós próprios. Sem isso, como podemos enfrentar este mundo?

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