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people

Olho à minha volta. Os carros passam a uma velocidade estonteante; o sol brilha no infinito do céu; os prédios altos cobrem a vista do mar; os passeios estão desgastados pelo vigor do tempo. Onde estão as pessoas no meio disto tudo…?
Uma criança olha incessantemente para o boneco que deixou cair no chão, enquanto outra o apanha e lho devolve; um homem permanece sentado no passeio, com os joelhos contraídos contra o peito, agarrando com as mãos molhadas o rosto repleto de lágrimas; outro passa a correr à velocidade da luz, não se importando com o que derruba no caminho. Continuo a olhar à volta e vejo mais. Uma mulher agarra com força a mão do homem a seu lado, sorrindo para si mesma; um jovem vagueia pelas ruas abrangido pela música do seu iPod; uma rapariga caminha vagarosamente, lendo em simultâneo o livro que tem aberto nos braços…
Pessoas tão diferentes, tão características… Cada uma com os seus sonhos e vivências, segredos e desabafos, histórias e valores… Basta um olhar para nos apercebermos dessa diversidade. É fantástico o que uma pessoa pode revelar num simples olhar, ou numa simples acção… Transmite-nos uma vida inteira. Vale a pena olhar para uma pessoa e ver o que ela tem a dar. Um simples gesto pode significar tanto… E aí continua a diversidade. O que significa um sorriso? E uma lágrima? Os nossos gestos podem ter tantos motivos…
Observar. Tudo faz parte do grande dom da observação. Poder observar uma pessoa e tentar descobrir o que ela esconde debaixo do rosto amargurado e da roupa amachucada. Olhar à volta e dar conta da diversidade de sentimentos, de expressões, de gestos… E poder imaginar os seus motivos. Porque estão ali? O que estão a pensar? Porque estão a rir às gargalhadas? Há todo um processo de observação/imaginação no que toca a desvendar uma pessoa. Podemos acertar, ou não. Mas o que interessa é que imaginámos, e descobrimos uma pessoa que, mesmo que não corresponda à realidade, existe na nossa imaginação.
Suponho que haja até quem faça disto profissão. Porque não? A Psicologia integra um pouco desta observação/imaginação, também. E não parece interessante descobrir uma pessoa olhando à nossa volta e observando a diversidade? A verdade é que nos ajuda a compreender as nossas acções, e a questionar sobre o que a vida nos oferece. É totalmente reconfortante ver uma pessoa a sorrir, como a mulher que agarrava a mão do homem a seu lado. Mas não dói também observar o homem que chorava agarrado às pernas?
Olho à minha volta, uma vez mais. Será que alguém me está a observar?

2 comentários:

Isabel disse...

Adorei o texto!
É uma ideia que tem tudo para parecer simples mas que, conseguindo com que ela não nos escape das mãos, também se percebe que tem vários pontos interessantes.
Não sei se fizeste de propósito; mas o título, "people", com "p" minúsculo, consegue esconder, por ser pouco vistoso e estar em inglês, o interesse que se encontra no texto. Algo que eu me atrevo a comparar à simplicidade de cada pessoa; pois analisando bem cada "gesto", "expressão", "sorriso" (como tu escreves) consegue-se, também, traduzir – "pessoas" – cada personalidade e conviver com o que realmente existe.

Raquel disse...

Isabel,
Sim, foi propositado, pensei que o título "people" com "p" minúsculo pudesse transmitir essa ideia de simplicidade de cada pessoa mas, ao mesmo tempo, do elevado valor da sua personalidade e dos seus gestos. Ainda bem que consegui transmitir a mensagem... Ainda bem que gostaste. Obrigada pelo teu comentário.