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A Volta a Portugal em Bicicleta e o «eterno favorito»... mais uma vez

Ano 2007. 5 a 15 de Agosto. 69ª Volta a Portugal em Bicicleta. A maior prova nacional de ciclismo, sempre distinta e celebrada, disputada por mais de 150 atletas, ao longo de quase 1600 quilómetros. Durante 11 dias, 18 equipas tentaram a sua sorte de Norte a Sul, em etapas já conhecidas do habitual público espectador, e a festa espalhou-se por todo o país. Mas só no último dia da competição ficou verdadeiramente definido um vencedor.
No dia 15, em Viseu, o céu estava encoberto e a chuva parecia não cessar. Um dia invulgar no auge do Verão, que cobriu todo o país de um manto escuro e sombrio. Nada parecia ditar o futuro daquele dia, que tanto podia colocar milhões de sorrisos por todo o Portugal, como podia enchê-lo de amargura.
Há razões para se dizer que a penúltima etapa, findada no alto da Serra da Estrela, foi decisiva quanto à escolha de um vencedor para a Volta deste ano. O eterno favorito, o português Cândido Barbosa, na altura Camisola Amarela, chegou estafado à meta, com um triste terceiro lugar e com algum tempo perdido para Eladio Jimenez. A etapa que o espanhol conseguiu ganhar valeu-lhe a Camisola Amarela e um primeiro lugar na Classificação Geral, contando 33 segundos de vantagem sobre o português, e 37 sobre um ilustre desconhecido chamado Xavier Tondo.
Foi nestas condições que se chegou à 10ª e última etapa da Volta a Portugal de 2007. Em Viseu, disputar-se-ia um contra-relógio que atravessaria cerca de 34 rotundas, num total de 39 quilómetros. Todos os ciclistas estavam a postos, mesmo sabendo que era praticamente impossível ganhar qualquer um que não os dois espanhóis e o português que ocupavam os três primeiros lugares.
Cândido Barbosa parecia incerto. Ainda no dia anterior, depois de saber que, em Viseu, teria de recuperar 33 segundos, dissera numa entrevista que esperava conseguir fazê-lo, e viver o dia mais feliz da sua vida. No fundo, das vidas de todos os portugueses, também. Há muitos anos que Cândido tenta conseguir esse feito, mas a sorte não o tem ajudado muito. Nesta Volta, venceu quatro etapas, vestiu a Camisola Amarela durante cinco etapas, e a Camisola dos Pontos nunca deixou de ser sua, por uma diferença muito considerável sobre o segundo classificado. Esteve sempre entre os primeiros, e, mais uma vez, espalhou uma nuvem de esperança por todo o Portugal, que acreditou na sua vitória até ao último segundo.
Ouvia-se na rádio que o espanhol Xavier Tondo era um contra-relogista nato, e que o português teria de se esforçar e muito para o conseguir bater, sobretudo devido à escassa vantagem de 4 segundos que mantinha. Cândido esforçou-se ao máximo e, mais uma vez, cortou a meta totalmente se fôlego. Seguiu caminho pelo meio da multidão que se fazia sentir em Viseu, cabisbaixo e cansado. Nessa altura, o espanhol já tinha cortado a meta, e a Volta já estava decidida. Cândido Barbosa recebeu os aplausos das centenas de pessoas que tinham ido ali para o ver, para o apoiar, para o ver ganhar um Volta que lhe parecia fugir há muito tempo… E foi aí que a memória do dia 15 de Agosto, do ano de 2006, veio à memória de todos os presentes. Foi como se voltássemos a Castelo Branco, e olhássemos para os ecrãs gigantes que, ligados na RTP, acabavam de mostrar a Classificação Geral…
Xavier Tondo foi o vencedor da Volta. Sem vencer uma única etapa, o ciclista aparentemente desconhecido vestiu a Camisola Amarela na derradeira, e retirou as esperanças e as forças a todos os portugueses. Cândido Barbosa cortara a meta com um minuto de atraso em relação ao espanhol, e ficara a 56 segundos na Geral…
Seria um erro dizer que os portugueses ficaram desiludidos. Se tivessem ficado, não teriam sequer enchido Viseu no último dia. Somos demasiado ingénuos para desistir num momento em que interessa mais o sonho do que a realidade.
Todos sabem que Cândido deu o seu melhor, e que fez tudo o que estava ao seu alcance para tentar ganhar a Volta. Durante 11 dias, inundou Portugal de coragem, como em 2006 tinha feito, e pedalou cada metro com o apoio de milhares de pessoas, por todo o país. Para nós, ele foi o verdadeiro vencedor, por ter estado sempre entre os primeiros, por se destacar durante toda a Volta, e por merecer mais do que ninguém vestir a Amarela no pódio. A vida não é justa, e Cândido Barbosa sabe-o melhor do que ninguém. Merecia mais do que um simples segundo lugar que, em termos de classificação, é o primeiro dos últimos, mas que significa o mundo para quem o apoia desde sempre. Não estamos desiludidos; a esperança que espalhou por Portugal transformou-se numa tristeza sólida, que será difícil de sarar. Mas que acabará por ser esquecida, quanto mais não seja quando a Volta de 2008 começar, e houver a hipótese de Cândido voltar a discutir o primeiro lugar…
Senti que tinha de escrever isto… de relatar o que verdadeiramente aconteceu, o que vai nas cabeças dos portugueses, e o que eles queriam que tivesse acontecido… Senti que, sem isto, seria impossível seguir em frente. A moral está em baixo, parecendo uma reprodução do que aconteceu no ano passado, mas o tempo acabará por selar a Volta deste ano, e em 2008 os nossos olhos voltarão a estar postos no português que parece não conseguir concretizar o seu maior sonho.
É esta fé, a esperança com que nos brinda a cada ano que passa, que faz com que seja impossível desistir de o apoiar. O seu sorriso sempre pronto, a palavra amiga que dirige sempre aos portugueses, e o sprint que o torna o melhor ciclista português do momento, contribuem para que a esperança nunca desapareça. Mas será que Cândido é mesmo o eterno favorito? Será que vai ser sempre o que nunca ganhou, mas no qual se depositam sempre todas as nossas esperanças? Queremos acreditar que, num bonito e quente dia de Verão, 15 de Agosto, o vamos ver a cortar a meta e a fazer a festa da vitória… E é por essa imagem que vamos
viver até lá.

1 comentários:

Anónimo disse...

Muito fixe xD

assinado: Dumbo