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A SOMBRA DO VENTO

Verão de 1945

Foi quase por magia que aquele livro apareceu na vida de Daniel. Era um ingénuo rapaz nos seus dez anos, quando o pai o levou pela mão até ao Cemitério dos Livros Esquecidos. Um sitio mágico que parecia enfeitiçado pelas almas dos escritores daqueles livros que já ninguém lembrava.
«- Não podes contar a ninguém aquilo que vais ver hoje, Daniel».
O rapaz sentia-se estranho e desorientado naquele lugar que visitava pela primeira vez. Aí, o pai disse-lhe que, na primeira visita àquele lugar, era costume escolher um livro no Cemitério dos Livros Esquecidos, que poderia adoptar e guardá-lo como a própria vida. Tinha de se assegurar que esse livro que escolhia permaneceria vivo, e que nunca ia desaparecer. Uma promessa para toda a vida. E aquele era o dia de Daniel escolher o seu preferido, e jurar protegê-lo para sempre.
Durante algum tempo, Daniel deambulou por aquele lugar mágico, à procura do livro que merecia a sua promessa. Por um instante, Daniel teve o pressentimento que já tinha escolhido o livro que ia adoptar. Viu-o numa estante, encadernado a cor de vinho, com o título a chamá-lo a letras douradas. Daniel aproximou-se do livro e leu o que dizia na capa.


A Sombra do Vento
Julián Carax




Daniel não se recordou de alguma vez ter visto aquele livro, ou de sequer ter ouvido falar no seu autor. Mas o que interessava isso? A sua decisão estava tomada; sabia que era aquele o livro que precisava de viver, e nada o faria mudar de ideias. Sabia que não se arrependeria de o ler. Pegou no livro e levou-o, satisfeito com a sua escolha. O que nem se atrevia a imaginar era que aquele livro ia mudar a sua vida.



Verão de 2007


Foi quase por magia que aquele livro apareceu na minha vida. Não estava minimamente inclinada para ler um livro, pois tinha perscrutado as várias estantes de livros que tinha em casa e levado nenhuma das obras que encontrara. Porém, num momento de abstracção total, troquei o olhar com um livro esbranquiçado, de toques acinzentados e sombrios, que parecia chamar-me com uma força intensa. Ergui uma mão e peguei-lhe, ainda absorvida por um qualquer sentimento de refúgio. Abri aquele livro desconhecido e comecei a lê-o, sem sequer me dar ao trabalho de descobrir o seu nome e autor. Senti que precisava de o ler e, fosse qual fosse a sua história, me ia identificar com ela.
«- Não podes contar a ninguém aquilo que vais ver hoje, Daniel».
Senti que a própria história era sobre mim, que eu era o protagonista daquele diálogo. E a partir desta frase não consegui parar de o ler. A história puxa-nos com um força impossível de parar, e nem nós próprios a queremos largar.
Só mais tarde olhei para a capa daquele livro que parecia enfeitiçado.


A Sombra do Vento
Carlos Ruiz Záfon



Não me recordei de alguma vez ter visto aquele livro, ou de sequer ter ouvido falar no seu autor. Mas o que interessava isso? A minha decisão estava tomada; sabia que era aquele o livro que precisava de viver, e nada me faria mudar de ideias. Sabia que não me arrependeria de o ler. O que nem me atrevia a imaginar era que aquele livro ia mudar a minha vida.



A Sombra do Vento

O leitor sente-se verdadeiramente o protagonista da história. Acaba de descobrir um livro fantástico, que mal consegue parar de ler e que vai mudar a sua vida para sempre. Tal como o rapaz retratado na história, Daniel.
Por sua vez, o autor do livro que Daniel descobre no Cemitério dos Livros esquecidos esconde terríveis segredos, e o rapaz entra numa aventura para desvendar a sua vida. Julián Carax apaixonara-se pela irmã de um amigo, e a partir desse momento todas as semelhanças com Daniel parecem existir. O rapaz traz de novo à baila as histórias que tinham ficado esquecidas no tempo, para o bem ou o mal de todos os envolvidos.
Daniel tenta proteger o livro quando um indivíduo que se intitula de Laín Coulbert, o diabo no livro de Carax, aparece para queimar todas as obras do autor que todos dão como morto. Daniel procura indícios do escritor durante mais de oito anos, tentando sempre descobrir aquele homem que lhe diz tanto, e que parece desaparecido para todo o sempre.
Com algumas cenas de humor, regularmente protagonizadas pelo personagem Fermín Romero de Torres, e algumas cenas mais funestas, apresentadas pelo inspector Fumero, “A Sombra do Vento” é um livro sobre outro livro; é a história de um rapaz e de um homem que parecem a mesma pessoa, mas que viveram em épocas diferentes e que procuram mudar a história trágica um do outro. É um livro sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros; sobre um livro maldito e o seu autor, sobre amizades perdidas, amores impossíveis, homens que escondem segredos, sobre a amizade, a coragem, o amor, a traição, o incrível, a magia, uma mansão assombrada que esconde segredos ocultos, uma Barcelona em tempo de guerra e de momentos menos bons, e uma infância perdida nas recordações de quem a viveu. Acima de tudo, é um livro sobre o que fazemos da vida e o que ela faz de nós.
Li-o em seis dias apenas. Podia ter demorado menos tempo se me tivesse dedicado a tempo inteiro à sua leitura. E podia ter demorado mais tempo se não tivesse abdicado de outras coisas importantes, em prol de desvendar esta história mágica sobre livros e vidas cruzadas. Mas foi preciso algum tempo para absorver as informações dadas pelas personagens, e para tentar adivinhar alguns segredos na história contada. Porém, nunca me senti tentada a parar de o ler, porque a história me absorveu logo desde a primeira frase que li. O suspense literário e o mistério criados pelo escritor espanhol trespassam para o leitor à medida que vai lendo cada palavra, cada frase, cada parágrafo, e que vai passando de página para página. Entre relatos, diálogos, cartas, confissões, revelações e detalhes, o passado acaba por ser desvendado e a verdade acaba por vir ao de cima sem que haja qualquer indício disso mesmo. Um livro onde nada é o que parece, e onde nos apercebemos de que há prisões piores do que as próprias palavras.
“A Sombra do Vento” mudou a minha vida, não da mesma maneira que o livro de Carax mudou a vida de Daniel, mas de um modo mágico, também. E o que mais me surpreendeu foi a maneira como ele foi parar às minhas mãos: como se fosse eu própria a protagonista da história e encontrasse o livro de Carlos Ruiz Záfon num Cemitério de Livros Esquecidos. Não esperava ler nenhum livro naquele dia, mas “A Sombra do Vento” como que chamou por mim e disse-me que tinha de o ler. Hoje, digo que não me arrependi de o ler, e que acabou por se tornar num dos meu livros preferidos, A sensibilidade com que cada cena esta descrita deu-me a sensação de estar a viver um sonho que permanecia vivo na sombra do vento… e, tal como o escritor já referiu, por vezes, os leitores recordam melhor um livro do que o seu próprio autor. Sinceramente, acho que mesmo que quisesse, não conseguiria esquecer o livro que me marcou, e que me fez ver a magia que existia na história para além das próprias palavras…
«- Não podes contar a ninguém aquilo que vais ver hoje, Daniel».
Mais de 7000000 de leitores não conseguiram guardar este segredo. Nem o próprio Daniel. O melhor é ler o livro antes que o segredo viaje na sombra do vento e seja desvendado ao mundo…

1 comentários:

Max Braga disse...

Eu li esse livro em janeiro de 2008. Muito bom!

Agora, cerca de um ano depois, estou terminando de ler O Jogo do Anjo.