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Nos Bastidores da Informação

São oito horas da noite. Pegamos no comando da televisão e ligamos na RTP, para ver o Telejornal. Faz parte da nossa rotina diária, e já nem estranhamos fazê-lo. Nem sequer pensamos ligar noutro canal, porque já é costume carregarmos no botão que tem um “1”. E já nem nos lembramos de olhar para a televisão. Com o tempo, tornámo-nos insensíveis às imagens, e quase só ouvimos as notícias. Para nós, ver o Telejornal é uma sensação calma; é por ele que sabemos como vai o mundo, e nem nos damos ao trabalho de imaginar que pode haver pessoas a trabalhar naquele preciso momento, só para podermos estar a ver o Telejornal sem erros e com a maior comodidade possível. Porque nada se faz sem o mínimo esforço. E é por isso que vale a pena ver o outro lado da informação; um lado obscuro e secreto que muitos desconhecem.
Em vez de ligarmos a televisão, às oito horas da noite, que tal entrarmos no estúdio e assistirmos em directo à emissão do Telejornal? E que tal vermos as centenas de pessoas, que fazem parte da grande equipa de informação da RTP, a trabalharem para fazer da televisão em Portugal um bem necessário à vida dos portugueses? Talvez se passe a respeitar mais os erros que acontecem de vez em quando, e se perceba que nem todas as profissões são enfadonhas e previsíveis como muita gente as diz.
Um dia nos bastidores do Telejornal nunca é igual ao anterior nem ao seguinte. Parece que há uma lei que diz não ser possível haver dois dias iguais. É sempre diferente a sensação se estar ali, porque as surpresas parecem não acabar. Enquanto que, em casa, os Telejornais nos parecem sempre iguais, a verdade é que não são. Há sempre qualquer coisa que os faz diferentes; únicos. E o facto de estarmos lá não nos leva a perceber que coisa é essa; só que ela existe.
Olhamos para o estúdio e vimos o Jornalista pivot a preparar-se para ter milhões de olhos pousados sobre si. Olha para a câmara, penteia-se, ao ver a sua imagem num televisor, que tem à sua frente, e fala com a equipa técnica por um microfone. Está tudo a postos dentro da régie que gere a emissão da RTP durante aquela hora. O coordenador prepara a equipa, o realizador diz que faltam cinco segundos, a pessoa responsável pelo teleponto prepara-se, e começa a aparecer uma imagem de fundo relacionada com o tema da notícia, acompanhada pela informação resumida em poucas palavras, no ecrã. E é aí que tudo começa.
Dentro da régie existem cerca de vinte cinco televisores, cada um com a informação pretendida: SIC, SIC NOTÍCIAS, TVI, CNN, SportTV, a imagem do Jornalista, em várias perspectivas, o teleponto, e a imagem da notícia, entre outros. Enquanto observamos todos esses monitores, damos conta de que existe um relógio certo, que bate as vinte horas, e de outro que marca, em contagem decrescente, o tempo que falta para o fim da reportagem em questão.
Viramo-nos para o outro lado e observamos a grande mesa onde o Jornalista se encontra sentado. O coordenador e o realizador trocam palavras com ele constantemente, de modo que nada falhe durante aquela hora. Quando, finalmente, faltam poucos segundos para acabar a reportagem, todos se põem a postos e fazem voltar a adrenalina do estar em directo. Se fosse um programa gravado, não havia problema com os enganos. Mas em directo tem que se ter muito mais cuidado.
É assim até haver o primeiro erro. Alguém decidiu alterar o alinhamento do Telejornal, com ou sem intenção, e tudo corre bem até a reportagem não aparecer. Aí, o coordenador sugere passar à notícia seguinte. O pivot comunica aos telespectadores que não é possível mostrar as imagens naquele momento e que vão mostrar as imagens da reportagem que se segue. E aí surge outro problema: essas imagens também foram mudadas de sítio no alinhamento das notícias, e não se sabe a que outras pode ter acontecido o mesmo. E como num directo as decisões têm que ser tomadas o mais depressa possível, o coordenador não tem outra hipótese senão antecipar o intervalo, para perceber o que se está a passar.
Quando se regressa do intervalo já está tudo tratado; as notícias que faltaram vão ser introduzidas noutra altura, e não voltarão a acontecer erros como aquele. Passada a adrenalina do momento, e depois de toda a agitação que faz daquele lugar invulgar, tudo regressa ao normal. O pivot volta a anunciar a notícia, a imagem aparece e a cadeia de acontecimentos não deve voltar a alterar-se. Mas, quem está a ver a RTP em casa, não se apercebe de metade das surpresas que acontecem naquele estúdio durante a hora do Telejornal. Aparecem erros, mas eles não são sentidos como por quem está ali, a vivê-los. É completamente diferente.
Por volta das nove horas, o pivot despede-se do público, as últimas imagens aparecem e a agitação desaparece. Em poucos minutos, desaparece a confusão que ali estava instalada e ninguém diria que acontecera ali tanta coisa na última hora. Depois da informação, outras pessoas serão encarregues da emissão da RTP, e todos os que trabalharam das oito às nove, mais os que trabalharam durante o dia para o Telejornal ser o mais normal possível, podem, finalmente, descansar e respirar de alívio.
As instalações da RTP são espaçosas e interminavelmente grandes. Lá, trabalham centenas de pessoas cujo objectivo é informar o país e o mundo das notícias do dia. Elas trabalham para nós, e embora não liguemos a isso, vale a pena dizer que é uma honra e um enorme prazer trabalhar ali, não só porque essas pessoas nos ajudam a descobrir e a interpretar as notícias, mas também porque trabalhar ali é como viver num mundo irreal, diferente e melhor do que o mundo comum onde nós vivemos. Faz-nos ver não só os bastidores da RTP como os bastidores da televisão em si, e ajuda-nos a perceber que, por detrás de todas as coisas boas da fama há decisões difíceis de tomar e tarefas complicadas para acabar. Mas, quando essas decisões são tomadas, e quando essas tarefas são acabadas, toda a magia volta a aparecer e a vontade de voltar ali dá mostras da sua existência.
No dia a seguir, voltam a ser oito horas da noite, e ligamos a televisão na RTP para vermos o Telejornal. Mas a nossa perspectiva daquele mundo já é diferente. A partir do momento em que nos apercebemos que estivemos nos bastidores daquele mundo irreal, começamos a vê-lo com outros olhos, e a respeitar o que a televisão nos tenta mostrar. Vale a pena pormo-nos no lugar de todas essas pessoas que trabalham para nós e para elas próprias, e vale a pena ver como é o universo da televisão e da informação. Porque dependemos dele todos os dias, mais do que imaginamos. E porque é ele que nos faz ser quem somos hoje e amanhã.

1 comentários:

Anónimo disse...

Raquel,
poucos conseguiriam dar uma imagem tão real do que se passa naquela regie. Tu estavas lá.
Bjs
Luís Castro