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A Volta a Portugal em Bicicleta e o “eterno favorito”

Ano 2006. 5 a 15 de Agosto. 68ª Volta a Portugal em Bicicleta. A maior prova nacional de Ciclismo, que liga o Sul ao Norte em dez dias. Dez etapas com algumas subidas de montanha e um contra-relógio. Cerca de duzentos ciclistas profissionais tentam a sua sorte, numa competição que move todo o país em torno do Ciclismo nacional. É a vontade de ganhar e a alegria do povo, pelo orgulho de ser português.
Esta Volta em nada foi igual às sessenta e sete anteriores. Todos os dias mudou a camisola amarela, tendo passado por muitos portugueses até à etapa final. O último português a ganhar uma Volta foi Nuno Ribeiro, da L.A. Liberty, há três anos atrás. Desde aí, o grande herói português tem sido Cândido Barbosa, da mesma equipa.
Nascido no Porto, numa das zonas onde passa a Volta, Cândido nunca conquistou a Camisola Amarela numa etapa final. Geralmente, acaba a prova com a Camisola Branca (mais pontos), vencendo várias etapas e sendo o melhor português. Desde há muitos anos que Cândido luta por uma vitória na Volta, mas nunca a conseguiu. Em 2005, ficou a poucos segundos do primeiro classificado, desiludindo-se a si próprio. A verdade é que lhe faltou sorte, e muita justiça. É o eterno favorito à vitória. Os portugueses adoram-no, idolatram-no, sempre na esperança de ser neste ano a grande vitória do seu herói. Mas ainda não foi desta.
Fui a Castelo Branco ver a chegada dos ciclistas, na última etapa, a 15 de Agosto. Esperava-se um contra-relógio muito renhido, com onze possíveis candidatos à vitória final. Entre eles destacavam-se o espanhol David Blanco (Comunidade Valenciana) e, claro, Cândido Barbosa. Acompanhei um pouco da festa da RTP no “Há Volta”, ao vivo e a cores, para depois me dirigir para a Meta, na esperança de ver um português fazer o melhor tempo.
A etapa acabava com uma longa curva, que dificultava a aceleração esperada no final. As pessoas podiam estar mesmo ao lado dos ciclistas, só com uma grade a separar. Por vezes, eles passavam tão perto que tínhamos que nos afastar para não lhes tocar. A velocidade que eles atingem nas bicicletas é impressionante, e vê-los ali ao lado é uma sensação emocionante.
O apoio era enorme. Centenas de pessoas enchiam as ruas da cidade de Castelo Branco, e assistiam à Volta com um sorriso nos lábios. A prova movimenta milhares de portugueses, em todo o país, que lutam pelo objectivo comum de incentivar um português a ganhar. A L.A. Liberty tinha várias claques de fãs espalhadas pela rota da Volta, à chegada a Castelo Branco. Elas e todos os portugueses gritavam pelo nome de Cândido Barbosa; puxavam por ele como se isso fosse um caso de vida ou morte. Quando Cândido cortou a Meta, estava completamente estafado, e David Blanco também. O português passou mesmo à minha frente e das outras pessoas, e foi recebido com imensos aplausos à chegada. Apalusos merecidos, verdade seja dita.
Bem... Cândido não ganhou. Mas, tal como nos outros anos, convenceu, e não deixou de ser o herói português. O que importa é participar, não é vestir a Amarela no último dia. Voltou a vestir a Camisola dos pontos, sendo o melhor português na Volta e o ciclista mais regular. O terceiro lugar, como todos os que já ocupou nos outros anos, foi mais importante do que qualquer Camisola Amarela que Cândido pudesse ganhar, para Portugal. Continua a ser o eterno favorito; aquele que, até hoje, nunca ganhou, mas no qual se depositam todas as nossas esperanças.
David Blanco acabou por levar o troféu e a Amarela, com um excelente contra-relógio. E mereceu ganhar, apesar de tudo. Mas os portugueses continuam a acreditar que o verdadeiro vencedor da Volta é o primeiro português. E Cândido Barbosa nunca vai deixar de ser um dos melhores ciclistas portugueses. Nunca ninguém o vai esquecer, ganhe ou não uma Volta. Não será, decerto, tarefa fácil, ganhar no próximo ano. Mas a vida dá muitas voltas. E para o ano dá mais uma.

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