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Diana Krall: Quiet nights in... Lisboa

Nasceu canadiana, mas o seu coração reparte-se agora um pouco por todo o mundo. Diana Krall veio a Lisboa, no sábado passado, apresentar o seu mais recente álbum, Quiet Nights, numa noite mágica no Campo Pequeno. Acompanhada por três músicos fantásticos, cantou durante quase duas horas, sempre amável e comunicadora. E encantou o público lisboeta.

Diana Krall surge em palco elegante, graciosa, num vestido preto fechado, bonita e de sorriso fácil. Senta-se cautelosamente ao piano, os longos dedos sobre as teclas brancas. Começa a cantar e a tocar, a sua voz melodiosa contrastando com o instrumento, o contrabaixo e a bateria a marcarem o ritmo, a guitarra a completar o cenário. E, num momento de silêncio, respira fundo e murmura: “Olá”.

O público entusiasta aplaude, sorri, deixa cair a lagrimazinha ao canto do olho. Diana interrompe alguns momentos musicais para falar do marido que está longe, dos filhos gémeos que a acompanham nesta digressão e falam melhor português que ela, de como gosta de tocar àquela hora da noite e poder passar o dia “de robe e chinelos”. Diz-se feliz por estar na sua “beloved Lisbon”, que gostava de ter visitado há mais tempo, e vai animando a plateia, que retribui com risos sinceros e muitas palmas. Depois volta ao piano, aos seus ritmos de jazz, bossa nova e samba, encantando a sala de espectáculos com os longos instrumentais e a voz poderosa.
Alguém grita da plateia “You’re beautiful!” e, mais tarde, outro alguém faz-se ouvir com “We love you Diana!”. A cantora volta a sorrir e a engraçar com os comentários, mostrando a sua boa disposição, o seu bom humor e a sua simpatia. Prestes a recomeçar a cantar, Diana baixa então o olhar e a voz, murmurando baixinho “I love you too”. É esta graciosidade, esta magnificência, que a tornam uma deusa em palco, que a fazem ganhar a atenção e a admiração do público português.

Este décimo segundo álbum que, segundo a própria cantora, é um dos mais intimistas, reúne canções como Quiet Nights, Walk on By, I’ve Grown Accustomed to His Face, So Nice, Este Seu Olhar (única música interpretada em português) e The Boy From Ipanema (variante da música A Garota de Ipanema, de Tom Jobim), todas estas interpretadas no concerto em Lisboa. Diana mistura o jazz característico da sua voz com os ritmos brasileiros, e a sua maravilhosa banda contribui com os sons da guitarra, do contrabaixo e da bateria, para o cunho pessoal que dá à música. De realçar estes três homens, Anthony Wilson, Ben Wolfe e Karriem Riggins que, através dos solos e dos improvisos, provaram, em concerto, que Diana Krall não é apenas uma mulher, mas um quarteto, uma mulher e a sua banda, uma voz e um grande poder do instrumental na sua produção musical.
Para além das músicas deste novo álbum, Diana Krall encantou o público com a sua interpretação de Cheek To Cheek e Let's Face The Music And Dance, ambas de Irving Berlin, e Let’s Fall in Love. Apesar do seu estilo marcadamente sereno, Diana e os seus músicos animaram o público com ritmos mais mexidos, nomeadamente por parte do piano da cantora, e tiveram até de regressar ao palco uma vez, após uma ovação em pé, depois da qual Diana afirmou que, para a próxima, permaneceriam em Lisboa por “duas semanas”. O único aspecto negativo a referir, no concerto, foi a péssima acústica do espaço que, apesar de tudo, não afectou a excelência do concerto.

Diana Krall, quarenta e quatro anos, passou por Lisboa neste dia 10 de Outubro, e deu outro magnífico concerto no dia seguinte, no Palácio de Cristal, no Porto. Conquistou os portugueses com a sua simpatia e a voz que fazem delirar todo o mundo. Esperemos voltar a ser contemplados com a sua presença num futuro próximo. Vê-la ao vivo é algo que não devemos perder.

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'5 Para a Meia-Noite': Os Bastidores

Estúdios Valentim de Carvalho. Paço d’Arcos. Estúdio 4. A porta envidraçada descobre a entrada do estúdio, as paredes cimentadas e as escadas que dão acesso ao interior. A ilustre D. Helena surge na sua vestimenta azul – pequena, sorridente, amorosa, pronta para tirar fotografias com as pessoas que vão chegando e sempre adivinhando no seu rosto a frase popularizada nas participações ocasionais no programa. Uma porta abre-se para o maravilhoso mundo da televisão, com cenários à direita, à esquerda e em frente. É Sexta-feira. Passa das onze horas da noite. Falta pouco mais de uma hora para o espectáculo começar.

O 5 Para a Meia-Noite é um programa de humor alternativo, inspirado nos late night shows americanos, ao estilo de Jay Leno ou Conan O’Brien, que teve início no mês de Junho e terminará no final de Setembro. Apresentado por cinco apresentadores diferentes, durante os cinco dias úteis da semana, o programa é transmitido por volta das cinco para a meia-noite, e conta diariamente com convidados, rubricas e diversos sketches humorísticos para animar as noites da RTP2. Cada semana tem um verbo como temática para o humor, e os apresentadores – são eles Filomena Cautela, Fernando Alvim, Nilton, Pedro Fernandes e Luís Filipe Borges, por ordem de dias –, aproveitam o tema como bem entendem, de forma sempre criativa e audaz, conseguindo uma intensa interacção com os espectadores, em estúdio e através da televisão.

Sexta-feira é o dia de Luís Filipe Borges, conhecido vulgarmente como Boinas, devido ao objecto que raramente retira da cabeça. O apresentador surge ainda de t-shirt, boné na cabeça e um estilo descontraído, conversando com as pessoas que já chegaram ao estúdio para assistir. Ricardo Jorge Tomé, da RTP2, faz a reportagem fotográfica da noite, enquanto se aguarda pela hora do programa. Invulgarmente, neste último dia da semana, o estúdio está cheio. Nunca esteve tão lotado, nunca se pensou que alguma vez viesse a estar. Mas está. São mais de cinquenta as pessoas que se começam a concentrar entre as paredes cimentadas do estúdio para entrar no cenário do 5 Para a Meia-Noite. E lá dentro existem apenas quinze lugares sentados.
O cenário, em si, é um choque à primeira vista. Pequeno, acolhedor, mas totalmente diferente do que se vê na televisão, parece ter encolhido uns bons metros desde que o vimos na noite anterior a partir da caixinha mágica que temos em casa. Colorido, vivo, hospitaleiro, faz adivinhar um ambiente de enorme descontracção e alegria entre a equipa do programa, o que se denota imediatamente na forma como o público é permitido de entrar e conhecer o espaço antes do início do espectáculo. Salta à vista o frigorífico esverdeado, com o verbo da semana, lucubrar, fixo por íman (dentro do frigorífico, podem encontrar-se canecas com o ícone do programa, das que se oferecem aos convidados, e inúmeras buzinas que o Nilton e o Boinas tanto gostam de usar), tal como o relógio que marca irremediavelmente a meia-noite menos cinco minutos e o aquário com os peixinhos de diversos tamanhos e feitios.

À esquerda, a parede com as imagens dos cinco apresentadores e uns quantos objectos conhecidos dos mais admiradores do 5 Para a Meia-Noite, como o pote da Mena e o Boininhas em versão portátil. À direita, o ecrã onde passam os sketches e o famoso cacto com fotografias nos espinhos. Em frente, a secretária do apresentador e o sofá esbranquiçado e confortável onde se sentam os convidados. As câmaras a postos, o teleponto a mostrar as primeiras frases, algumas pessoas já sentadas nas cadeiras disponíveis. A lotação mais do que esgotada obriga à alteração do cenário e ao acrescento de bancos para o público se sentar, bancos esses que são colocados numa posição estratégica abrangida pelas câmaras. O público mais jovem vai aparecer no directo.

Faltam cinco minutos, avisa o senhor brasileiro a quem chamam de Betão. Está tudo a postos. António Costa, o convidado da noite, sorri ao ver o cenário pronto e a tranquilidade com que se prepara o directo. Dois minutos. O público já está mais descontraído, após a gravação da promo do programa da Sexta-feira seguinte, onde já apareceu em frente às câmaras e leu em coro as palavras do teleponto. Cinquenta segundos. Silêncio no estúdio, Boinas maquilhado e preparado para entrar pela porta de fachada que cria o ambiente informal do programa. Passa o genérico, que já todos conhecem. Três, dois, um, zero. E inicia-se o directo.
Gargalhadas, gargalhadas e mais gargalhadas. O teleponto auxilia o apresentador a coordenar o programa, mas o auricular que tem ao ouvido é uma ajuda preciosa para o improviso. Do outro lado da linha, André Ferreira, o génio das piadas e produtor do 5 Para a Meia-Noite, vai criando algumas das frases que ouvimos da boca de Luís Filipe Borges, ele próprio rindo-se do que acaba de dizer. António Costa apresenta-se totalmente descontraído, abraçando a tarefa de ler a letra de Taras e Manias e sorrindo com algumas piadas e sketches que passam e com o humor do actor de serviço, conhecido como Raminhos.

Sempre que o directo faz uma pausa, para passar um sketch ou uma rubrica, a iluminação é reduzida, a maquilhagem concertada e a respiração regularizada. São cerca de dois, três minutos, nos quais o tempo pára, literalmente, até regressar em cheio com o reacender das luzes e o aviso do Betão, que logo pede entusiasticamente aos espectadores no estúdio para baterem palmas. Regressa o poder das câmaras, das piadas, dos célebres sons (que se ouvem baixo, em pequenas colunas espalhadas pelo estúdio) e da conversa com o convidado, na que é uma hora bem passada na companhia de toda uma equipa amável e descontraída.

Boinas prepara-se para dizer as últimas palavras, levanta-se, sorri, adora o facto de ter a “casa cheia” e o público sorridente com o que acaba de assistir. 3, 2, 1, corta. Foi o quinquagésimo quinto 5 Para a Meia-Noite. Subitamente, tudo acaba: as palmas extinguem-se, as pessoas começam a caminhar para a saída, o apresentador retira a maquilhagem da cara, as cadeiras são deixadas para trás, tal como os bancos onde o público estava sentado. O apresentador é rodeado pelos fãs, e grande parte deles permanece dentro da sala, aproveitando para tirar fotografias e observar melhor o cenário. É Sexta-feira, último programa da semana, o que significa uma mudança de letras magnéticas no frigorífico – realizando-se a transferência para o verbo vampirizar –, a cobertura do sofá com um pano vermelho, para o proteger, e a arrumação do estúdio e do que foi alterado para albergar o público excedente. Em poucos minutos, o silêncio e a escuridão regressam ao cenário.
O 5 Para a Meia-Noite tem sido um fenómeno de audiências desde a sua estreia, no início do Verão. Share sempre próximo dos 10 por cento – com picos superiores –, e um enorme apoio nas redes sociais e na Internet em geral (nomeadamente a partir do twitter, do live chat e da Webcam live), são apenas alguns exemplos desse sucesso que o programa late night tem tido entre miúdos e graúdos. É inconvencional, é original, é divertido. Depende sempre dos convidados e dos apresentadores, tal como do tema da semana, mas no geral é um programa acarinhado pelo público e encarado como uma modernização do segundo canal e da noite na televisão portuguesa. Com fim marcado para o final do mês, está na mira um possível regresso do formato para o ano de 2010, ainda sem data prevista.

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Maioria dos tweets são sobre 'nada'

O Twitter e a sua utilização foram recentemente analisados num estudo da Pear Analytics, que mostrou alguns pormenores curiosos acerca desta rede social. O estudo examinou duas mil mensagens (tweets), escritas em inglês, divididas por seis categorias: ‘notícias’, ‘spam’, ‘auto-promoção’, ‘conversas’, ‘nada’ e ‘RTs’. Contrariamente ao que se previa, os tweets categorizados como ‘spam’ e ‘auto-promoção’ não foram os mais registados no período analisado. A principal conclusão retirada deste estudo foi o predomínio dos tweets sobre ‘nada’, mensagens sem conteúdo relevante, como por exemplo “estou a comer uma sandes”.

Cerca de 41% dos tweets são, portanto, sobre ‘nada’. Seguem-se os tweets categorizados como ‘conversas’, trocados entre utilizadores, com cerca de 38%, e os ‘RTs’, em terceiro lugar, com um valor percentual muito próximo de 9, ou seja, muito inferior aos dois primeiros. Os valores de ‘spam’ foram muito abaixo do esperado, e os valores de ‘conversas’ e ‘nada’ foram muito elevados. O valor de ‘notícias’ foi também inferior ao que se previa, tendo em conta a utilização do twitter como meio de divulgação de informação e a sua utilidade para o jornalismo.

O que significa este estudo? Que o Twitter não é, afinal de contas, uma ferramenta maioritariamente utilizada para divulgar acontecimentos? Que os tweets desinteressantes, sobre nada em especial, são os que mais se escrevem e publicam?

Primeiro, temos de ter em conta que a amostra utilizada neste estudo se refere apenas a dois mil tweets, todos na língua inglesa, ou seja, a maioria dos tweets portugueses não se poderia incluir nesta análise. Segundo, qual é o verdadeiro propósito do Twitter? A pergunta-base que nos leva a começar a escrever é “O que está a fazer?”, e não “O que aconteceu de importante no mundo?” ou “O que pretende publicitar?”. O próprio Twitter solicita aos utilizadores que partilhem o que estão a fazer, por mais desinteressante que seja. Assim, deveria ser esperado que as respostas fossem, na sua maioria, com pouco conteúdo relevante… incluídas na categoria ‘nada’. Não é esse o propósito da rede social?

Agora, a questão é o que o Twitter se tornará num futuro próximo. Continuará a ser uma rede onde as pessoas publicam as suas actividades, que pouco têm a ver com os interesses gerais? Ou tornar-se-á um local mais sério, onde a circulação de notícias será o conteúdo da maior parte dos tweets? Esperemos para ver os próximos estudos.

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17 Again...

Será que tomámos o caminho correcto? Teremos vivido tal como estava destinado, ou podíamos ter alterado o nosso percurso, lutado por coisas diferentes e ter sido mais felizes? Estas são algumas questões levantadas pelo filme 17 Anos, outra vez! e as principais indecisões do protagonista, Mike O’Donell. Mike tem quase quarenta anos e está prestes a divorciar-se da esposa, Scarlet, namorada do liceu com a qual se viu ‘obrigado’ a casar precocemente ao saber que estava grávida. Culpando-a sempre por ter destruído toda uma vida que se apresentava brilhante à sua frente, Mike torna-se alguém que não queria ser, um homem que nem sequer consegue ser promovido no emprego e manter uma relação estável com os filhos. Ao desejar regressar ao passado e remediar o que fez e não fez, a oportunidade é-lhe dada sem que se aperceba… e quando dá por si tem, de novo, dezassete anos, e uma vida inteira pela frente.

O conceito de comédia romântica com leves toques de drama e ficção científica não é novo. Temos em Big um dos melhores exemplos do género, e em De Repente, já nos 30! outro filme bem-humorado e com características muito semelhantes. Mas o ‘voltar atrás no tempo’ é uma fórmula que pode sempre ter sucesso, dependendo da história que envolve a situação, a realização e as interpretações. E no caso deste filme, é uma fórmula ganha, que o torna um dos melhores do género entre os que já tivemos oportunidade de ver este ano. É de louvar a realização brilhante de Burr Steers, um ilustre desconhecido neste mundo cinematográfico. O filme tem um ritmo impressionante, permite a absorção de cada momento e não leva o espectador a dispersar a sua atenção para pormenores desinteressantes. Como história em si, não figurará no panorama de grandes argumentos de cinema. É previsível, é lamechas (se assim o quisermos chamar…), é banal, até. Mas capta a atenção, é comercial, cativa o público pela sua simplicidade. De realçar ainda a banda sonora, contemporânea, juvenil, fresca, e o genérico final, ilustrado com fotografias dos actores quando eram novos… original e divertido.Em relação às interpretações, há também muito a apontar. Mattthew Perry é um senhor da comédia, um actor que nunca foi muito aclamado mas que dá passos nesta indústria há muitos e vai captando, de tempos a tempos, a atenção dos mais distraídos. Representando Mike O’Donell enquanto adulto, não se adequa na perfeição às exigências do papel, mais dramático e maduro… mas ainda assim consegue realizá-lo. Falta-lhe talvez um pouco mais de protagonismo, apenas. Thomas Lennon é o protagonista dos momentos mais humorísticos do filme, na pele de Ned, amigo inseparável de Mike, o que retira alguma seriedade ao filme e é, seguramente, propositado, de modo a tornar mais leve o ambiente carregado da história.

Quanto a Zac Efron, as coisas são totalmente diferentes. Primeiro aviso: esqueçam High School Musical, Hairspray, e tudo o mais que já viram com o actor de comédias adolescentes. Em 17 Anos, outra vez!, Zac torna-se um homem, ao interpretar Mike O’Donell enquanto jovem. A forma como capta a maturidade da personagem e como corresponde na perfeição às suas exigências, é simultaneamente surpreendente e fascinante, no verdadeiro sentido das palavras. Representa um homem de quarenta anos na pele de um rapaz de dezassete… a tarefa não parece fácil, mas Zac consegue cumpri-la. E nunca pensei dizer isto, mas acredito que o rapaz de vinte e dois anos pode vir a tornar-se um grande actor dramático, para além da comédia e do romance. Fiquemos atentos. Acima de tudo, 17 Anos, outra vez! é mais um típico filme de Domingo à tarde, para toda a família, divertido, com alguns momentos mais sérios, mas que prima sobretudo pela mensagem que pretende transmitir. Ao voltar ao liceu, Mike compreende que a sua missão é não só ajudar os filhos adolescentes a ultrapassar os momentos difíceis da juventude, como também aproveitar a segunda oportunidade, não para remediar o passado, mas para melhorar o futuro e mudar quem é no presente. E as pessoas identificam-se com essa mensagem, tenham elas dezassete anos ou quarenta, porque todos vivemos e nos arrependemos de algumas acções efectuadas no passado. Vale a pena ver o filme, pela realização, pela mensagem, e pela consagração de Zac Efron como um dos actores em ascensão no panorama de Hollywood. E porque saí da sala de cinema com uma sensação enorme de preenchimento, de dever cumprido, de realização. Aconselha-se vivamente.

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Redes Sociais: a era da partilha digital

Estamos na era digital, das novas tecnologias e da sua adaptação cada vez maior à vida quotidiana. Para termos uma ideia clara, são cerca de 625 milhões os utilizadores activos da Internet, em todo o mundo, segundo o mais recente estudo da Universal McCann. No caso específico do nosso país, contam-se 2,9 milhões de utilizadores activos – muito abaixo dos cerca de 23 e 19 milhões registados, respectivamente, na Alemanha e em França, países europeus líderes neste ponto; mas ainda assim um número considerável tendo em conta os 10 milhões de portugueses. Agora o aspecto mais surpreendente deste estudo, no que diz respeito a Portugal: destes utilizadores activos, 2,1 milhões criaram perfis em redes sociais. Cerca de 73 por cento, valor superior à média universal de dois terços.


Quando falamos em redes sociais, vêm-nos sobretudo à memória as chamadas redes de social network, com uma componente social e pessoal. Delas são exemplos o hi5, o Facebook e o MySpace. Permitem a partilha de imagens, informações pessoais, eventos, criando relações de “amizade” agrupadas por interesses comuns, na maior parte das vezes apenas virtuais.

Mas existem outros tipos de redes sociais, igualmente conhecidos do grande público. As redes de share (partilha), como o
Youtube, o Flickr, e o Delicious, por exemplo, permitem a publicação de conteúdos online, desde fotografias, vídeos, a informações diversas. Existem ainda as redes de publish, como os blogs, através das quais qualquer cidadão pode dar a sua opinião livremente e publicá-la; e as redes de microblogging, como o Twitter, com um carácter maioritariamente de divulgação de informação, permitindo a partilha de ideias, notícias, fotografias, tudo isto em tempo real.

O estudo já referenciado revela outro pormenor curioso: ao nível global, os principais objectivos dos frequentadores de redes sociais na Internet, ao criarem os seus perfis, são o envio de mensagens a amigos, a publicação de fotografias, o reencontro de antigos amigos e o estabelecimento de novas amizades. Revela ainda que, no domínio da Internet, os blogs estão a perder terreno no que respeita à partilha de informação e de conteúdos multimédia, que tem vindo a crescer progressivamente nas redes sociais. As redes permitem aos utilizadores fazerem tudo o que quiserem num blog e mais ainda, apesar de diferentes tipos de redes se adequarem a diferentes tipos de utilizadores e mercados dominantes. Estas plataformas continuam a crescer, enquanto outros elementos dos social media estagnam ou entram em declínio.

Entre
as diversas redes sociais, e tendo particularmente em conta as mais conhecidas do público, os dados estatísticos mostram as divergências de utilização e a sua importância nas vidas dos utilizadores da Internet. Em Portugal, o hi5 é o site mais visitado e conta cerca de 3,2 milhões de perfis registados. Em termos de comparação, no nosso país, o Facebook regista apenas 400 mil utilizadores. Ao nível internacional porém, os números são bastante diferentes. O Facebook é a rede social com mais adeptos em todo o mundo, ultrapassando os 260 milhões de registos. O MySpace continua a ser outra grande força, apesar de ultrapassado pelo Facebook, e conta mais de 125 milhões de utilizadores. São as redes de
social network mais populares, seguidas pelo LinkedIn, com mais de 40 milhões de utilizadores, e pelo Twitter, rede de microblogging, que também já chegou à fasquia dos 40 milhões.

Ilações gerais a retirar destes dados são a perda de terreno do MySpace em relação ao Facebook, nos últimos anos, e a vulgarização deste como meio de partilha de informação. Se observarmos bem, a maioria destas redes de social network foi fundada entre 2003 e 2004 (hi5, Facebook, MySpace, LinkedIn…), sendo as diferenças de utilizadores entre elas justificadas pelas suas diferentes funcionalidades e a sua atractividade para os utilizadores da Internet. O LinkedIn, exemplificando, é uma rede voltada para as empresas, registando mais de 170 indústrias diferentes, não sendo tão vulgarizado como, por exemplo, o hi5, que foi abraçado maioritariamente pelas camadas etárias mais jovens. O Twitter é a excepção neste grupo de redes sociais: fundado há três anos, está neste ano de 2009 a começar a ser conhecido e vulgarizado entre os utilizadores frequentes das novas tecnologias, e a sua técnica algo inovadora, de microblogging, começa lentamente a atrair não só jornalistas, mas também o público em geral, que procura estar mais próximo da informação.


Outra estatística curiosa: o Second Life, também fundado em 2003, regista apenas 500 mil utilizadores em todo o mundo… e cerca de 95 por cento encontram-se inactivos na plataforma. O Orkut, por seu lado, é apenas líder no Brasil e na Índia.

A questão não é, portanto, se vale ou não a pena aderir, se há ou não interesse em criar um perfil numa rede social, se x ou y são redes para aderir ou evitar. A verdadeira questão é: será que o entusiasmo de aderir a uma rede social e criar um perfil se desvanece passado algum tempo? Depende, claro, como tudo na vida… Depende da rede social em causa, do tempo, da disponibilidade do utilizador, das suas intenções ao criar o perfil. Para além disso, existe a questão das modas: a rede que está em voga hoje pode já não estar amanhã, e a rotatividade é constante. A própria moda das redes sociais pode vir terminar num abrir e fechar de olhos. No entanto, o estudo da Universal McCann revela que quase 65 por cento dos utilizadores activos da Internet, com perfis em redes sociais, gastam tempo a actualizar as suas informações e conteúdos exibidos nos perfis, o que contradiz a opinião de muitos que referem a perda de interesse das redes sociais e o consequente perecimento do interesse depositado nelas por parte dos utilizadores.

Em relação à importância das redes sociais, sabemos que têm os seus prós e contras. Por um lado, promovem a abertura à informação global (aproveitando a expressão, são uma “janela aberta para o mundo”) e ao conhecimento do que nos rodeia. Por outro, podem levar à exclusão social e à supressão do contacto face-to-face, principal crítica endereçada às redes na Internet. Porém, ao nível do jornalismo, com a revolução que se está a verificar, através da partilha de informação em tempo real, o valor destas redes é incalculável. Estão a alterar por completo a face da informação, a impulsionar o jornalismo de cidadão – qualquer um de nós pode relatar um acontecimento para o mundo –, a mudar o papel do jornalista na sociedade de informação. Ao nível das empresas, as redes sociais surgem como meios de divulgação de actividades, de produtos, de informação, e podem vir a tornar-se fundamentais como elemento de contacto entre trabalhadores e clientes. Ao nível da política institucional, surgem também como meio de aproximação entre eleitos e eleitores, como forma de divulgação de eventos e opiniões, e até como sensibilização para as questões que preocupam o país e o mundo.

Queiramos ou não fazer parte do progresso, é fundamental abraçar e acompanhar a modernização que se verifica nos dias de hoje, e a adesão e exploração das redes sociais faz parte desse processo evolutivo.

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Sócrates e a Blogosfera

Sempre na vanguarda das novas tecnologias e da sua utilização na política, o deputado Jorge Seguro, em conjunto com Rui Grilo e o jornalista Paulo Querido, convidaram o Primeiro-Ministro e Secretário-Geral do Partido Socialista, José Sócrates, para um encontro com bloggers, ao estilo de uma conferência de imprensa. A blogconferência teve lugar na Segunda-feira dia 27 de Julho, pelas cinco horas e meia da tarde, na Cantina Lx Factory em Lisboa.

José Sócrates chegou ao local e, acompanhado por Carlos Zorrinho, responsável pelo Plano Tecnológico, aprontou-se a cumprimentar os vinte bloggers presentes no encontro, que aguardavam o início da conferência sentados à volta de uma mesa em “U”, com os computadores portáteis ligados à Internet, prontos para colocarem as suas questões.
Paulo Querido, pivô e moderador da conferência, deu início à sessão, colocando desde logo a sua questão para José Sócrates. No twitter, em simultâneo, criticava-se o facto de a transmissão do encontro na Internet ter falhado, o que ainda não foi explicado. Paulo Querido, Jorge Seguro e Rui Grilo lamentaram a falha técnica que impossibilitou os ausentes da Cantina Lx Factory da visualização da conferência. Os presentes, por seu lado, sobretudo os bloggers, contribuíam através dos seus twitters pessoais para a transmissão das ideias da conferência, utilizando a hashtag #BlogConf, um dos trending topics do dia entre os twitters portugueses.

O calor apertava. A Cantina, um espaço agradável e subtil, convidava a uma tarde tranquila e produtiva, que acabaria por se prolongar para o início da noite. Carlos Zorrinho tirou a gravata, a uma certa altura; José Sócrates desapertou ligeiramente a sua. Com o passar do tempo e o desaparecimento do sol no horizonte, as luzes da Cantina acenderam-se, e o som dos comboios a passar foi dissimulado progressivamente pela conversa interessante que se desenrolava no interior do espaço.
As questões para o Primeiro-Ministro sucederam-se, sempre num ambiente leve, informal, com algum humor à mistura e a maior descontracção possível, mesmo durante as intervenções dos bloggers ditos “de direita”. José Sócrates afirmou logo no início: “Dizem que os blogues falam mal de mim, e eu quis verificar isso e ter oportunidade de me defender.” Durante mais de quatro horas, os bloggers presentes intervieram com as suas questões. Mais do que uma conferência, a sessão tornou-se uma conversa, uma espécie de debate ponderado, com troca de ideias e de opiniões. Interrompido sucessivamente pelo pivô, preocupado com os seus discursos alongados, José Sócrates respondia prontamente: “Eu tenho tempo…”.

No seu twitter, Jorge Seguro revelou também que estas iniciativas promovem a democratização da política. No final do encontro todos puderam afirmar que, efectivamente, uma sessão de esclarecimento como aquela blogconferência aproxima a política dos cidadãos e contribui para uma elucidação directa dos objectivos que, neste caso específico, o Partido Socialista enumera para a próxima legislatura, caso vença as eleições. Da economia ao ambiente, da cultura à ciência, das politiquices às medidas relevantes, José Sócrates mostrou-se disponível para responder às questões dos bloggers e conversar sobre políticas levadas a cabo e políticas a trabalhar nos próximos anos. Aqui fica a
lista dos participantes, entre os quais se inclui este blog (que, ao contrário do que se diz na comunicação social, não se chama Cronistas Para Mais Tarde Recordar… o endereço é
www.cronicasparamaistarderecordar.com, o nome do blog é From Here To Eternity :D). Esclarecimento: a comunicação social, e o próprio José Sócrates, referiram diversas vezes que os vinte bloggers eram os principais do país, os mais famosos de Portugal. A verdade é que eram, simplesmente, os que primeiro se inscreveram no site http://blogconf.org/ , e nada mais do que isso. Fica o esclarecimento.

Mais do que uma possível acção de campanha, mais do que uma simples conferência de perguntas e respostas, a #BlogConf foi um encontro de José Sócrates com alguns dos bloggers portugueses que se mostram interessados pela política e pelo que se faz no país. Escreveu-se, de novo, uma página na história, e a iniciativa, abraçada pela maioria como esclarecedora e frutífera, criou a expectativa de uma possível repetição. Tendo em conta o sucesso desta “primeira vez”, excepto no que respeita à transmissão na Internet, a ideia ficou em aberto.

Aqui ficam algumas notícias referentes à blogconferência:

SIC ; Jornal de Notícias ; Jornal de Negócios ; TSF ; Correio da Manhã ; EPA.

Os vídeos da blogconferência podem ser vistos aqui:


Agradecimento a Ana Martins e Rui Grilo pelas fotografias. E agradecimento especial a Jorge Seguro, Paulo Querido e Rui Grilo pela organização da iniciativa.

Word cloud


www.wordle.net de novo em acção :D Adoro estas nuvens de palavras!

Ser Jornalista

Existem inúmeros cursos de Jornalismo / Comunicação em Portugal. Apesar da elevada taxa de desemprego e das dificuldades que o sector está a viver, centenas de jovens candidatam-se, anualmente, a cursos relacionados com a área das ciências da comunicação e do jornalismo, em Portugal.

A comunicação continua a ser uma das áreas mais procuradas, e este ano de 2009 não será excepção. De 13 a 24 de Julho decorrerá o período de candidaturas ao Ensino Superior, por parte dos estudantes que finalizaram, em Junho, o Ensino Secundário, e pretendem ingressar na Universidade para o ano lectivo 2009/2010. De novo, centenas de jovens, a maioria nos seus dezassete, dezoito anos, tentarão alcançar um lugar nas faculdades pretendidas. E assim, daqui a três anos, centenas de jornalistas recém-licenciados sairão às ruas à procura de um emprego que não têm garantido.
O que devem os estudantes que pretendem seguir Jornalismo procurar num curso? Nos dias que correm, as boas médias não são suficientes para captar atenções; é necessária uma certa persistência, alguma experiência e diversificação de capacidades. O mundo da comunicação está a tornar-se cada vez mais exigente, valorizando cada vez mais a parte prática dos cursos, a experiência no terreno, do que propriamente o que se aprende dentro das salas de aula.

A opinião de quem se pretende candidatar, de actuais alunos, de recém-licenciados e de jornalistas profissionais irá dar algumas linhas directrizes decisivas para quem aspira a ser jornalista.


O SONHO DE SER JORNALISTA

As expectativas de quem quer seguir um curso de comunicação/jornalismo são sempre elevadas. Há uma boa dose de visão romântica do jornalismo e um desconhecimento do que o espera durante a licenciatura. A parte prática e formação profissional de jornalismo são por norma pontos comuns nas expectativas de quem aspira a ser jornalista.

Pedro Coelho tem 18 anos, é de Oliveira do Hospital, e terminou este ano o Ensino secundário. O passo seguinte será a candidatura à universidade e a tentativa de colocação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tal como refere na entrevista, apesar de não ter ainda a formação em jornalismo, a experiência na rádio Boa Nova, rádio Local de Oliveira do Hospital, tem-no ajudado a compreender o difícil mundo da comunicação e a contactar com esta realidade.
[ entrevista]

A REALIDADE FACE ÀS EXPECTATIVAS

Se as expectativas são muitas a realidade acaba sempre por desiludir. Alguns alunos de cursos de comunicação de várias universidades portuguesas dão-nos conta das expectativas iniciais e da realidade que encontraram sem deixar de falar do futuro que esperam.

Diogo Cavaleiro tem 19 anos e é aluno do segundo ano de Ciências da Comunicação, vertente Jornalismo, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Quando entraste no curso, esperavas que fosse como é, na realidade, ou tinhas uma ideia totalmente diferente do que seria estudar jornalismo?

Tinha uma ideia diferente. Apesar de me ter informado sobre o curso e a faculdade, a diferença face ao que esperava foi notória. Pensei em algo muito teórico mas também que houvesse um complemento prático maior do que o que, efectivamente, existe. E as ideias que temos sobre o que é estudar jornalismo alteram-se conforme o que se vai aprendendo. Todos os dias vamos aprendendo e percebendo novos objectivos.

Achas que o curso está adequado ao que se pretende num jornalista?

Por um lado sim, porque tem uma vertente teórica importante, com partes de cultura essenciais para alguém que quer ser um jornalista. No entanto, por ser um curso de Ciências da Comunicação e não de Jornalismo, essa parte sofre em termos de quantidade e de qualidade. Na área do jornalismo, fazia-nos falta mais condições técnicas e mais cadeiras. E essencialmente, segundo penso, um olhar mais real para o jornalismo actual com o qual só temos contacto com certos professores.

Porquê este curso?

Na altura das candidaturas, tive dúvida entre a FCSH e a UCP. Acabei por optar pela UNL por ser pública, porque tinha prestígio, porque achei interesse na oferta curricular.

Quais as perspectivas de futuro com a licenciatura em jornalismo?

Não são muito grandes. Toda a gente sabe que é uma área saturada e não há medidas em relação a isso. Não se diminuem as vagas e continua-se a aceitar um número enorme de pessoas na área em que dificilmente conseguem todos emprego. É tudo uma questão de trabalho, esforço, interesse mas também sorte.

A frequentar o segundo ano do curso de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Ana Fernandes de 19 anos considera que o curso corresponde às suas expectativas destacando que a falta de tempo para desenvolver assunto e matérias será o maior problema. [ entrevista]

Marco Almeida Paulo é um jovem de 22 anos, estudante de Ciências da Comunicação e da Cultura, vertente Jornalismo, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, em Lisboa. O jornalismo é a sua grande paixão, a par do cinema, da música e dos videojogos. Participa na revista online de cinema Red Carpet, e tem ainda outros blogues e sites onde escreve sobre os mais diversos assuntos.

Quando entraste no curso, esperavas que fosse como é, na realidade, ou tinhas uma ideia totalmente diferente do que seria estudar jornalismo?

Quando entrei no secundário não tinha qualquer intenção de seguir jornalismo. Só após dois anos num outro agrupamento é que comecei a despertar para o jornalismo, assim como o meu gosto por essa área começou a aumentar. Quando então decidi mudar de agrupamento comecei desde logo a informar-me acerca de todas as saídas que tinha após terminar o secundário e quais me interessavam. Sabia que um curso baseado em teoria, onde a verborreia fosse uma constante, não me seria útil. Hoje em dia interessa saber o que fazes e não o que outros possam ter feito. Certamente ajuda, para que não caias nos mesmos erros, mas tem muito mais relevância saber com o que irás lidar na vida profissional do que propriamente com o que outros lidaram. A Universidade Lusófona foi assim a minha primeira, talvez única, escolha pois era o curso que apresentava, e apresenta, as cadeiras mais práticas, que realmente ensinam algo de útil, não pondo de parte alguma teoria, mas não a usando como base. Posso assim dizer que a ideia que tinha do curso em ser bem mais focado na prática do que as restantes universidades não se mostrou falso e hoje em dia não podia estar mais contente com a escolha. Tenho estudado todas as bases do jornalismo, que em todo o lado as ensinam, e que preparam o aluno para o futuro.

Achas que o curso está adequado ao que se pretende num jornalista?

Como respondi anteriormente, o curso é bem focado no mercado de trabalho, com a realidade do jornalista. E como mostrar essa realidade? Usando profissionais, actualmente no activo, a leccionar as cadeiras, que cativem os alunos, que realmente mostrem o que se passa fora das quatro paredes de uma sala de aula. Num curso como jornalismo não basta colocar um professor qualquer a relatar matéria para que o aluno mais tarde a despeje num exame, aliás, várias cadeiras dispensam o exame obrigando o aluno a realizar trabalhos práticos que irá efectuar no seu emprego, se houver emprego! Reportagens televisivas, radiofónicas ou de imprensa ou notícias para os vários meios, é tudo feito a pensar na melhor forma de ensinar os jornalistas de amanhã. Se está bem adequado, ou não, ao que se pretende num jornalista é uma questão que talvez não possa responder da forma mais correcta, já que não frequentei outros cursos, mas olhando para as cadeiras, e respectivos objectivos, de outras universidades, acho que o curso onde estou, Ciências da Comunicação e da Cultura, é dos melhores que actualmente existem na grande Lisboa. Aliás, nem sou só eu que o digo, mas sim todo um conjunto de profissionais e instituições que elegem este curso como um dos mais competentes na actual formação de jornalistas.


Porquê este curso?

Repetindo algumas das coisas já ditas, este curso é mais prático que os demais. Tinha mais alternativas para além de uma Universidade privada, que actualmente o único senão é pagar-se bem mais que o normal, além de não ser assim tanto quanto isso, pois de resto é tão boa ou melhor que uma pública! Contudo, se vou pagar, seja que quantia for, para uma formação a pensar no meu futuro, que pague por algo que realmente vá valer a pena, que não tenha como único e simples propósito chegar ao final e poder dizer que tenho um curso mas que me tenha dado boas bases para continuar a aprender na minha profissão e, ao mesmo tempo, praticá-la da melhor forma que me for possível!

Quais as perspectivas de futuro com a licenciatura em jornalismo?

As perspectivas são as mesmas que todos os jovens licenciados: encontrar trabalho na área que me andei a formar! Actualmente, seja em jornalismo, medicina, design, direito ou engenharia, é difícil encontrar emprego. A situação não vai ser a melhor assim que tente entrar no mercado de trabalho e ter consciência disso é meio caminho andado para me incentivar a dar o meu melhor para que, mais facilmente, alguém decida apostar em mim, e isto não se resume somente a alguém que esteja a seguir jornalismo. Felizmente, apostarmos em nós mesmos, na carreira de jornalista, é algo, consideravelmente, fácil de se fazer! Talvez seja mais fácil para quem se encontre perto da capital já que por cá existe o Centro Protocolar de Formação Profissional de Jornalistas (Cenjor) que apoia jovens licenciados, ou quem queira ingressar numa carreira jornalística, e lhes dá uma ponte entre a parte académica e a parte profissional através de um estágio que coloca o recém-licenciado a trabalhar na sua área de interesse (televisão, rádio, imprensa ou multimédia). Basicamente, as perspectivas que tenho com uma simples licenciatura são poucas ou, praticamente, nenhumas, daí que desde cedo tenha decidido a apostar ainda mais além de uma licenciatura, não só através de especialização em várias áreas, pois hoje em dia quanto mais versátil for, mais cobiçado se é, mas também apostar em línguas estrangeiras como uma boa forma de me valorizar. Após tudo isso talvez consiga ter uma perspectiva de um futuro melhor, onde possa encontrar mais facilmente algo do meu agrado. Não só gostaria de trabalhar na minha área, como qualquer licenciado, assim como gostaria de trabalhar em algo do meu interesse. Tal situação torna-se mais verosímil se tiver melhores e maiores conhecimentos para além daquilo que me ensinaram na Universidade.

A VISÃO DOS PROFISSIONAIS

Jornalistas de formação e de experiência têm visões diferentes do papel dos cursos de comunicação e de jornalismo. a oferta das universidades deve ser consistente e actualizada face ao mercado de trabalho mas cabe também ao estudante procurar diversificar e consolidar conhecimentos e experiências.

Alexandre Brito é coordenador da redacção multimédia da RTP, onde está desde 2002. Anteriormente, esteve na SIC Online, SIC Notícias e no Canal de Notícias de Lisboa (CNL). Alexandre Brito é licenciado em Comunicação Social e "Master of Broadcast Journalism" pela Universidade de Boston, EUA. Foi aqui que ganhou o gosto pelas novas tecnologias ao tirar uma especialização em jornalismo online. Terminou a passagem pelo estrangeiro em Londres, onde esteve durante seis meses a realizar um estágio profissional na CNN. Actualmente, participa ainda na RTPN, nomeadamente no “À Noite a Net”.

Quais as exigências a que deve um curso de jornalismo responder?

Com as alterações tecnológicas em curso, deve ser ágil ao ponto de ensinar e preparar os alunos para os novos desafios, para as novas ferramentas. A parte académica é de extrema importância, e deve ser reforçada, mas é fundamental que os alunos deixem as universidades com domínio total dos equipamentos utilizados todos os dias nas redacções – tv, rádio, imprensa, áudio. A componente prática tem que ser reforçada. A escrita tem que ser reforçada. Não é admissível que alunos deixem as universidades sem saber escrever um LEAD devidamente, e isso, infelizmente, ainda acontece.

A componente teórica é importante ou devem os cursos apostar sobretudo na vertente prática e técnica da profissão?

Devem ser complementares. A teoria deve ser reforçada para abrir os horizontes dos alunos mas deve ser uma teoria que tenha realmente aplicação prática. A especialização, com escolha de disciplinas próprias por aluno, deve ser uma aposta. É um sistema que funciona e resulta, por exemplo, nos EUA. A prática é fundamental. De nada serve saber escrever se não sei como é que a caneta funciona.

É só a experiência que faz um jornalista ou uma licenciatura também ajuda?

Todos nós acabamos por perceber e sentir falta do tempo de estudo durante uma licenciatura. Ela é fundamental para dar corpo a qualquer futuro jornalista. Deve ser aproveitada ao máximo. Se duas pessoas partiram do mesmo sítio, uma com licenciatura e outra sem, certamente que quem tem o diploma acabará por vencer. A licenciatura é parte fundamental da experiência de um jornalista. Essa pergunta aparece porque os cursos de jornalismo são relativamente recentes em Portugal e, como tal, há muitos e bons jornalistas que não são licenciados e que por vezes olham com desdém para os cursos de jornalismo. Algumas vezes com razão pela falta de qualidade….. Mas a licenciatura é apenas o início. É a viola…quem tem unhas toca, quem não tem, não toca. As licenciaturas de jornalismo deviam apostar na especialização, o que na maioria dos casos não acontece. Por exemplo: economia, saúde, etc. E não fiquem à espera de receber tudo dos professores. Vão à procura. Vejam muita tv, ouçam muito rádio, naveguem na net…sejam proactivos.

Qual o motivo que o levou a seguir jornalismo?

Influência familiar, fascínio com a televisão, gosto e loucura… ;)

Conselhos para "aspirantes" a jornalistas.

Primeiro aprendam a escrever. Quem não sabe escrever não vinga nesta área. Depois, especialização. Escolham uma área para aprofundar os conhecimentos mas continuem com olhos bem abertos para tudo o que está à vossa volta. Finalmente, persistência. É quase impossível conseguir hoje um emprego decente em jornalismo quando se sai da faculdade. Se querem mesmo seguir a profissão, não desistam. Se não, saltem já.

Este artigo foi realizado em conjunto por:
Raquel Silva (texto + entrevistas)
João Simão (texto + entrevistas + edição)

Artigo completo em COMUNICAMOS


O Twitter e a Política - a (r)evolução constrói-se

Tudo começou há semanas atrás, quando Jorge Seguro Sanches, deputado do Partido Socialista por Castelo Branco, teve a ideia de organizar um encontro de twitters na Assembleia da República. O Twitter, para quem desconhece, é uma espécie de rede social que funciona num sistema de microblogging, com a emissão de mensagens com 140 caracteres, no máximo, e a sua difusão para utilizadores em todo o mundo. Jorge Seguro foi um dos primeiros deputados portugueses a aderir à nova moda e a utilizar as novas tecnologias para contactar directamente com o público.

2 de Julho de 2009 foi a data escolhida para o encontro, também data do debate do Estado da Nação, o último da legislatura do governo de José Sócrates – pelo menos até às eleições legislativas, agendadas para 27 de Setembro deste mesmo ano. Jorge Seguro recebeu os seus convidados à porta do Parlamento, dando as instruções necessárias e respondendo a algumas questões da comunicação social. O encontro, esse, teria uma forte componente histórica e progressista: pela primeira vez na história da Assembleia da República e do nosso país, cidadãos portugueses tiveram a oportunidade de entrar no edifício do Parlamento com computadores portáteis e telemóveis e twittar das galerias, comentando o debate e divulgando de forma ainda mais rápida as novidades que nele iam acontecendo, acompanhando os deputados que normalmente o fazem durante as sessões.
Cerca das 14 horas e pouco, com a chegada dos twitters e dos deputados convidados por Jorge Seguro, também eles utilizadores acérrimos do Twitter – Nuno Antão, do PS; Hermínio Loureiro, do PSD; e Pedro Mota Soares, do CDS-PP –, deu-se início à visita guiada pelos corredores e inúmeras salas do Parlamento Português. Marco Sargento, Relações Públicas da Assembleia da República, foi o guia desta visita e a fonte histórica de todos os pormenores observados ao longo da mesma. Cerca das 15 horas, com a aproximação do início do aguardado debate, a campainha ensurdecedora que pretende impelir os deputados a ocuparem os seus lugares no Parlamento iniciou a sua actividade e prolongou-se durante mais de quinze minutos consecutivos. Entretanto, os membros do Governo iniciaram, lentamente, a sua chegada à sala principal.

José Sócrates cumprimentou Jorge Seguro e, estando a par da iniciativa e observando os convidados twitters que se encontravam no átrio, aprontou-se a cumprimentar alguns dos presentes, brindando-os com o sorriso habitual e o olhar sempre atento. Ouviu-se no ar: “Então, quando vai aderir ao Twitter?”. A verdade é que José Sócrates ficou curioso e garantiu que ia experimentar o Twitter, um dia. Após o término da visita guiada pelo edifício, os twitters ocuparam então os seus lugares na galeria reservada para o efeito, que permitia o acesso à Internet através da utilização da rede wireless do Parlamento. Apoio técnico foi providenciado aos utilizadores que não se conseguiam ligar à Internet, e o Debate da Nação iniciou-se, pela primeira vez na história, com uma galeria recheada de cidadãos com computadores e o Twitter ligado.
@FLima90 ; @ rpcaldeira ; @filiprib ; @Janito ; @ annamartins ; @PauloQuerido ; @ritacteixeira ; @lmferreira2 e @marciaLis foram alguns dos presentes no encontro de twitters na Assembleia da República, que se aprontaram a ligar os computadores e twittar durante todo o debate. O debate no Twitter, esse, era tanto ou mais intenso do que a discussão parlamentar do Estado da Nação, com a chuva de opiniões e os comentários ao que ia acontecendo em directo. Até o computador Magalhães de um dos twitters presentes foi alvo de humor no grupo e de foco por parte da comunicação social que acompanhou energicamente todo o encontro histórico.

Jorge Seguro confirmou a importância das novas tecnologias e, neste caso específico, do Twitter, para o exercício do poder político: “Desde que tenho Twitter, sinto-me mais perto dos cidadãos e as suas opiniões/ideias podem chegar-me de forma mais directa” afirmou o deputado, que aderiu à rede há alguns meses e, desde essa altura, confessa o ‘vício’ que esta tem provocado. Filipe Lima, um dos twitters presentes na Assembleia, reforçou a ideia de que o Twitter surge “como uma das mais mediáticas tecnologias e como meio moldador da opinião pública”, permitindo, “de uma forma directa, o contacto entre eleitos e eleitores. E - sem dúvida - esse é um grande passo no exercício do poder político. Por um lado, os eleitos, passam a poder dar resposta curta e concisa às necessidades dos twitters que os seguem, por outro, estes últimos sentem o estímulo para se envolverem nos assuntos políticos ao verem as suas preces atendidas.”.
O debate do Estado da Nação, marcado por esta inovação tecnológica, foi também distinto, como era esperado, pela intervenção do Primeiro-Ministro José Sócrates, defendendo as políticas do Governo e as medidas tomadas ao longo dos quatro anos da legislatura, e pelas intervenções críticas da oposição. O Primeiro-Ministro reforçou a ideia de qualificação e formação profissional da população como aposta para o futuro, ideia essa que tem vindo a defender desde o início da legislatura e à qual o seu Governo tem procurado dar resposta. No discurso inicial, reforçou ainda a aposta fundamental nas energias renováveis, histórica e decisiva para o futuro do país e da Europa, e da qual Portugal é um país pioneiro. José Sócrates revelou ainda o investimento público na requalificação de centros de saúde e urgências, e o reforço na construção de novos equipamentos sociais, sendo esta uma das principais medidas anunciadas neste debate.

O Governo criticou também a insuficiência de propostas por parte da oposição, não só durante este debate, mas ao longo da legislatura. Sócrates apelou à confiança que os portugueses podem voltar a depositar no seu Governo e a uma possível reeleição nas legislativas de Setembro. A justificação dada pelo Primeiro-Ministro em relação à crise que o país atravessa prende-se, sobretudo, com a crise que se faz sentir um pouco por todo o mundo – sobretudo o seu agravamento, já que, como José Sócrates admitiu em diversas ocasiões, Portugal é um país naturalmente mais sensível às flutuações económicas. Em nome do PSD, Paulo Rangel criticou sobretudo a falta de capacidade do Governo para contornar os chamados três D’s - desemprego, dívida externa e défice –, falando num Sócrates a viver “no país das maravilhas”. Pedindo para interpelar o Primeiro-Ministro e começando a criticar, durante a interpelação, novos temas e políticas executadas pelo Governo, o direito à palavra foi-lhe imediatamente retirado pelo Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, originando um certo ambiente pesado entre os presentes. Este debate foi também mercado pela última intervenção de Paulo Rangel na Assembleia portuguesa, ele que foi agora eleito para o Parlamento Europeu e deixará o seu cargo como deputado. Agradeceu a todos os partidos, sem excepção, pelos momentos que passou na Assembleia.

Paulo Portas, líder da bancada do CDS-PP, criticou sobretudo o PRODEC e o modelo de avaliação dos professores, sendo que este último tema um dos mais contestados pela oposição durante a legislatura de José Sócrates. Francisco Louçã, em nome do BE, criticou as promessas feitas pelo Governo há quatro anos e que nunca chegaram a ser cumpridas, como por exemplo a redução do défice e a criação de emprego. Heloísa Apolónia, líder do PEV, criticou também as promessas que José Sócrates não cumpriu, segundo a sua opinião, nomeadamente o programa de desenvolvimento rural.
O Estado da Nação deste dia 2 de Julho de 2009 sofreu um forte abalo com a atitude indisciplinada do Ministro da Economia, Manuel Pinho, ao fazer um gesto despropositado dirigido à bancada do PCP, mais especificamente ao deputado Bernardino Soares. O incidente provocou imediatamente uma grande agitação no Parlamento, sobretudo quando a fotografia e os vídeos captados no momento começaram a circular pela Internet e em papel por todos os deputados e twitters nas galerias. O pedido de desculpas à comunicação social foi endereçado pelo próprio ministro, que abandonou o debate, e mais tarde José Sócrates desculpou-se pela atitude do membro do seu governo. Já depois de os twitters abandonarem o debate, e se despedirem do deputado Jorge Seguro nas galerias, soube-se que o ministro se tinha demitido, que a sua demissão tinha sido imediatamente aceite pelo Primeiro-Ministro, e que a pasta da Economia será, agora, acumulada pelo Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos.

No balanço do dia, história foi, realmente, feita, embora com mais nuances do que inicialmente se esperava. Há quem diga que a presença dos twitters na Assembleia e o protocolo especial que foi preparado para os receber, tal como a permissão de comentar, em directo, no Twitter, o debate do Estado da Nação, conduziram ao aumento da divulgação de informação no Parlamento e à consequente difusão de fotografias e vídeos ilustrativos do gesto levado a cabo pelo Ministro da Economia. Por outro lado, há quem diga que a oposição, sentindo-se a perder o debate para o Governo, e ainda abalada pela atitude incorrecta de Paulo Rangel perante a Assembleia, aproveitou o deslize do ministro para terminar o debate e voltá-lo para um assunto que muito menos importância tem para a Nação Portuguesa do que o seu próprio estado. A verdade é que o dia foi longo e recheado, no que diz respeito à política portuguesa e à evolução social e popular que o encontro de twitters e o último grande debate desta legislatura despertaram.



NOTA: Agradecimento especial ao deputado Jorge Seguro pela iniciativa e acompanhamento, e a Filipe Lima, Paulo Querido e Ana Martins pela cedência das fotografias.

Missão Croquete - Twitter alarga horizontes

O twitter continua a surpreender, todos os dias. Não, não se tornou uma moda passageira, como todos pensavam que aconteceria. Não, os seus membros não deixaram de passar metade dos seus dias na rede social que parece constituir um vício eterno. Pelo contrário. O conceito está mais vivo do que nunca, as conversas via twitter estão cada vez mais difundidas, e as utilizações do serviço diversificam-se a cada dia que passa. Hoje, pela primeira vez na história do twitter, um grupo de oito pessoas foi esperar uma outra, apenas conhecida no twitter, ao aeroporto. Será a amizade nas novas tecnologias?

João Tiago Calviño, mais conhecido por @Calvas, regressava hoje a Portugal vindo de um longo período a viver no Dubai, por motivos profissionais. A emoção do regresso mesclava-se com a mágoa do fim de um ciclo importante na sua vida, mas a ânsia de voltar a ver o seu país falava mais alto. Durante a sua estadia no Dubai, os amigos que conheceu através do twitter ajudaram-no a relembrar Portugal e a preparar o retorno, nove meses depois. A chegada a Frankfurt, uma das etapas do regresso, aconteceu cerca das seis horas da manhã, hora portuguesa. Só faltava mesmo aterrar no aeroporto da Portela e chegar a casa, por volta das onze horas e meia. Entretanto, e sem @Calvas suspeitar de tal coisa, alguns dos seus amigos twiterianos preparavam uma recepção para o «emigrante» na Portela, desde as onze horas e pouco. Com rissóis, cerveja, uma mesinha onde colocar os aperitivos e pequenos cartazes a dizer «Missão Croquete» e «@Calvas, estamos aqui!», a designada Comissão de boas-vindas a João Calviño preparava-se para surpreender e receber de braços abertos o amigo que apenas conheciam do twitter, e que chegaria no voo TP 6700 FRANKFURT.

Pedro Aniceto, um dos amigos que se deslocou ao aeroporto, afirma que a ideia da Comissão de boas-vindas surgiu há meses atrás, «com uma conversa sobre caracóis em que ele disse que tinha era saudades de comer rissóis». Assim, «eu prometi-lhe uma travessa de rissóis no Aeroporto. Hoje cumpriu-se a promessa». Para além dos prometidos rissóis, a mesinha e as ‘minis’ não faltaram na recepção. Inês Ribeiro refere que «sempre que se falava de comida, o @Calvas babava; quando íamos aos petiscos, o @Calvas salivava». E hoje aconteceu o encontro, com os aperitivos à mistura – «só faltou os caracóis», acrescenta.
Paula Pico confirma: «Por brincadeira nasceu a ideia… e hoje foi o cumprir da promessa». @Calvas diz ainda que a brincadeira começou quando o grupo fez uma petiscada com a Alberta Marques Fernandes e ele próprio disse que, quando regressasse, tinham de combinar uma refeição juntos, ideia que recebe a confirmação de Joel e Sandra Silva, também membros da Comissão de boas-vindas.

@Calvas confessa que não esperava a recepção, e que nem sabe muito bem como se sentiu ao ver os amigos twitterianos à sua espera no aeroporto, com cartazes de boas-vindas e um ambiente festivo e acolhedor: «Como é que reagi? Nem eu sei bem… acho que mesmo assim nem queria acreditar!» afirmou mais tarde. Questionado se gostara da surpresa, a sua reacção foi inevitável: «Claro que sim! É impossível de não gostar!». Os que não puderam acompanhar a Comissão de boas vindas e receber @Calvas na Portela encheram a sua timeline no twitter de mensagens, tentando saber minuto a minuto como estava a decorrer a missão #welcomecalvas e recebendo simultaneamente fotografias do aeroporto. Mais tarde, @Calvas agradeceu a todos os seus amigos no twitter, tanto à Comissão de boas-vindas, membros aos quais chamou «os maiores», como aos que inundaram o seu ecrã de amáveis mensagens de acolhimento, referindo que «assim é muito mais fácil regressar».
Terminada a missão, que todos os participantes declararam cumprida, Luís Lopes, também da Comissão de boas-vindas, fez o ponto da situação: «E foi assim mais um episódio do twitter. Obrigado a todos os participantes, aos rissóis, broa, às minis,...à mãe do @Calvas». E foi realmente um episódio do twitter, mas não apenas mais um. Foi algo inédito na história. Oito pessoas que não se conheciam de lado nenhum, que nunca se tinham visto na vida, que apenas tinham comunicado através do twitter, encontraram-se no aeroporto da Portela, em Lisboa, para receber e dar as boas-vindas a outra pessoa que apenas conheciam da Internet, e que regressava de uma longa viagem de avião. É inédito. E é uma fantástica prova de amizade
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HOME - é demasiado tarde para ser pessimista

Home – O Mundo é a Nossa Casa é o filme mais comentado dos últimos dias e uma das novidades do realizador Luc Besson, que produz este documentário de alerta quanto aos problemas ambientais. A estreia mundial, a 5 de Junho, Dia Mundial do Ambiente, aconteceu em diversas plataformas: na Internet, no cinema, em DVD, na televisão, e ainda em inúmeras iniciativas em cerca de cinquenta países em simultâneo. Mais do que um filme, mais do que um documentário, Home é um evento à escala mundial, que pretende sensibilizar, de forma interactiva, os mais cépticos, para a reconstrução do equilíbrio do planeta e a inversão da tendência de destruição que se verifica há mais de cinquenta anos.

O planeta Terra existe há mais de quatro biliões de anos, com um certo equilíbrio entre as espécies, a natureza, o clima, os recursos e a evolução. O Homem, que existe há cerca de duzentos mil anos, ou seja, há pouco tempo relativamente à vida da Terra, tem destruído, talvez inconscientemente, esse equilíbrio necessário, com a industrialização, a urbanização, a superprodução, o consumo em massa, o uso exagerado dos combustíveis fósseis e a despreocupação com as questões ambientais. De facto, a evolução tem sido feita sem olhar a meios para atingir os fins, e hoje o aquecimento global e as suas consequências são evidentes e estão na ordem do dia.

Nos últimos cinquenta anos, a Humanidade alterou os ciclos naturais e comprometeu o futuro do planeta. A primeira parte do filme de Yann Arthus-Bertrand alerta exactamente para estar história da Terra, que está a ser destruída por uma das suas espécies e pode não vir a recuperar dos danos que esta lhe tem causado. A voz de Glenn Close, que acompanha todo o documentário, consegue dinamizar os temas abordados e captar a atenção do espectador, mas talvez faltem alguns testemunhos de especialistas, de modo a quebrar o ritmo monótono de documentário nesta abordagem geral. Apesar disso, a simplicidade e preocupação com que é tratado o tema, no argumento, demonstra um cuidado especial com a transmissão da informação para todas as pessoas, independentemente da idade ou instrução, o que é fundamental numa obra sem fins lucrativos e repleta de um forte conteúdo institucional.

A certa altura, o filme faz um resumo de todas as imagens e factos já enunciados, compilando a informação em estatísticas e números que intimidam mesmo os mais cépticos no assunto. Através de paisagens fascinantes de inúmeros países do mundo, Home mostra os principais problemas ambientais, as acções humanas e o futuro comprometido que pode estar mais próximo do que esperamos. A segunda parte, mais dinâmica e interessante do que a primeira, demonstra a inversão da tendência destrutiva e alguns investimentos e actos que têm sido levados a cabo individual e governamentalmente para a reconstrução do equilíbrio da Terra, em todo o mundo.
O passado já lá vai, não há nada que possamos fazer para o remediar. O futuro, porém, encontra-se nas nossas mãos. Tal como o Homem conseguiu deteriorar a situação do planeta, conseguirá prevenir que tal aconteça no futuro, desde que altere os seus padrões de vida a partir de agora e tente inverter a situação nos próximos dez anos. Uma acção individual conta para ajudar a salvar o planeta, e as mentalidades começam já a ser alteradas nesse sentido, sendo que Home pretende aumentar a confiança na mudança de hábitos e na protecção das gerações futuras. É demasiado tarde para ser pessimista – esta é a principal mensagem do filme. Mais do que portugueses ou europeus, todos somos cidadãos do planeta Terra, cidadãos do Mundo, e temos o dever de viver e evoluir com a prudência necessária para recuperar o equilíbrio natural perdido. Home é um documentário fundamental na construção de uma mentalidade ambiental, que vale a pena pela mensagem sensibilizadora e pelo alerta mundial. Não perca, no cinema, em DVD, ou no Youtube.


Publicado em Red Carpet

Luís Franco-Bastos... o imitador crónico

Luís Pinto-Bastos. Perdão… Luís Franco-Bastos. O nome não lhe diz nada? Talvez o conheça como «o gajo que imita o Bruno Nogueira melhor que o próprio Bruno Nogueira»…? Lá está. De facto, Luís Franco-Bastos é aquele sujeito jovem que aparece, de vez em quando, num ou outro episódio de “Os Contemporâneos”, e imita toda e qualquer personalidade, do futebol à política, de Cristiano Ronaldo a Cavaco Silva. Vencedor incontestado da primeira edição do programa-concurso “Cómicos de Garagem”, em Janeiro de 2008, apadrinhado por inúmeros humoristas da actualidade e pelas Produções Fictícias, Luís Franco-Bastos tem já o seu próprio one man show a várias vozes, o espectáculo “Papel Químico”, que esteve em cena nos dias 14, 15, 16, 22 e 23 de Maio, sempre com lotação esgotada.
É apenas um homem em palco, mas as personagens são mais de trinta. Mais do que um simples espectáculo de stand up comedy, “Papel Químico” é um monólogo com uma multidão de vozes, no qual Luís Franco-Bastos conta um pouco da história da sua vida e vai incluindo no diálogo as suas melhores imitações, transpondo para o palco as suas impressões da realidade. Ele é Alberto João Jardim, ele é José Hermano Saraiva, ele é Barack Obama. Ele canta, ele berra, ele discursa com vozes que não são suas. Perguntem-lhe qual é a sua verdadeira voz, que provavelmente vos dirá que não sabe. Em palco, parece estar numa grave crise de identidade… mas não passa de um bom humorista que nasceu para utilizar as vozes dos outros e fazer rir meio mundo.
O último dia de exibição de “Papel Químico” foi sábado, 23 de Maio, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz. Entre amigos, família e simples curiosos, o espaço intimista voltou a esgotar para ver Luís Franco-Bastos e todas as personagens que interpreta. Bruno Nogueira e Maria Rueff foram alguns dos convidados especiais que se juntaram para apoiar o jovem humorista neste projecto que, para quem perdeu, voltará nos dias 20, 21, 22, 27, 28 e 29 de Julho. Para além desta estreia gloriosa no teatro, “Os Contemporâneos” pretendem contratá-lo para fazer parte integrante da equipa, quanto mais não seja para substituir a voz do Bruno Nogueira, que o levou para a televisão e o tornou relativamente conhecido do grande público.
Numa época em que existe cada vez mais competitividade e se torna difícil agradar, no que toca à comédia, Luís Franco-Bastos encontra-se em ascensão, captando as atenções dos portugueses e construindo uma carreira que tem ainda muito para dar. Com apenas vinte anos e um metro e oitenta e seis centímetros de altura, apesar de a timidez inicial ainda não o ter abandonado por completo, está a viver um sonho e a iniciar uma etapa da sua vida que lhe está a ensinar a crescer como humorista e como pessoa. Não é uma estrela, nem o quer ser. Para isso basta imitar José Mourinho e fingir que é o special one. No entanto, Luís Franco-Bastos caminha a passos largos para o sucesso e para um futuro recheado de imitações, sendo já acarinhado pelos grandes humoristas que admira desde criança. Por enquanto, talvez seja apenas conhecido como «o gajo que imita o Bruno Nogueira melhor que o próprio Bruno Nogueira». Daqui a uns anos, porém, ninguém se enganará a escrever o seu nome. E Luís Franco-Bastos, que hoje vimos nascer e crescer, poderá tornar-se um senhor do humor português. Fiquem de olho nele.


Para mais informações, http://luisfrancobastos.blogs.sapo.pt/

No Limite... do Amor

Baseado numa etapa particularmente instável da vida do grande poeta galês do século XX, Dylan Thomas, No Limite do Amor é um bom filme de época que retrata a relação entre a poesia de Dylan e a sua vida conturbada. Em 1940, o Reino Unido está em guerra e Vera Phillips entretém a população cantando nos abrigos do metropolitano. Ao reencontrar o seu primeiro amor, o poeta Dylan Thomas, o passado comum volta a assombrá-los e a interligá-los de forma intensa. No entanto, Dylan está casado com Caitlin, uma mulher extrovertida, que depressa inicia uma amizade profunda com Vera. Por sua vez, William, um soldado prestes a partir para a guerra, apaixona-se por Vera e os dois casais tornam-se unidos apesar do ciúme que os intimida. Quando William parte, Vera continua a não conseguir amá-lo e Dylan não consegue esconder o seu afecto por ambas as mulheres da sua vida.
É interessante observar a relação entre Vera e Dylan. A única realidade que os une é o passado em comum, uma primeira relação que os marcou para o resto da vida, e o reencontro, alguns anos depois, não reacende a paixão, simplesmente os reporta para a infância no País de Gales e o que ela significa para ambos. Caitlin aparece como um impedimento àquela relação, não exactamente devido ao seu papel de esposa de Dylan, mas por se ter tornado a melhor amiga de Vera e relativamente aberta quanto à amizade entre ela e o marido. William (Cillian Murphy, numa interpretação consistente) é talvez a única personagem que não se enquadra naquela familiaridade, mas ama Vera com todo o coração e ela, por mais que tente, não consegue libertar-se do primeiro amor e corresponder-lhe. O trio amoroso constitui a principal atracção do filme, pois Dylan vive dividido entre Vera e Caitlin, perdido no que sente em relação a ambas, para além da intensidade da amizade entre elas.
Por mais que este seja um filme acerca da vida de Dylan Thomas, é inevitável associá-lo mais à personagem de Vera Phillips do que ao poeta em si. Ela é a força unificadora do filme, a personagem que realmente se destaca entre os quatro protagonistas, e isso deve-se, em grande parte, à interpretação fabulosa de Keira Knightley, que parece amadurecer mais a cada papel que representa. Disponibilizou-se até para cantar, algo que os espectadores provavelmente não esperam dela, e durante o filme duvidam se aquela será realmente a sua voz. É mesmo. Uma vez mais consegue adaptar-se na perfeição a um papel de época, que a encaminha numa ascensão irreversível para a fama. O mesmo ou melhor se pode dizer de Sienna Miller que, apesar de não ser uma estrela no mundo do cinema, tem vindo a mostrar o seu engenho natural. Em No Limite do Amor, quaisquer dúvidas que se tivessem quanto ao talento da actriz são totalmente dissipadas. As suas beleza e simplicidade, conjugadas com a personagem Caitlin, que lhe assenta na perfeição, mostram que nenhuma actriz poderia ter realizado melhor a missão de interpretar aquele papel.
A realização de John Maybury é para lá de maravilhosa, consistente, utópica. Num contraste entre grandes e pequenos planos, cores quentes e frias, uma fotografia fantástica e uma banda sonora perfeitamente adequada, este é talvez o ponto mais envolvente e estimulante do filme, que inicialmente parece não ter muito a dar mas que, após uma revisão geral da história, dá a sensação de desejo cumprido. Ao longo do filme, contudo, sentimos que a história nunca se chega realmente a desenvolver, que falta algo para equilibrar o drama e chamar a atenção do espectador, algo que esperamos até ao final e não chega a acontecer. Em parte, a personagem de Dylan Thomas é responsável por essa sensação. Matthew Rhys, apesar de tentar agarrar a personagem, nunca chega a captar a sua essência, ou talvez seja apenas o verdadeiro Dylan Thomas que não consegue afirmar a sua personalidade. A verdade é que assistimos a um certo período da sua vida e não compreendemos honestamente o que pretende, de quem gosta, quem é na realidade. E essa é a principal falha de um filme que tinha tudo para ser perfeito mas que, apesar de se aproximar da plenitude, não a consegue alcançar.
Sobra-nos um bom filme, um drama intenso que, embora não seja perfeito, não deixa de merecer algum mérito. Não é puro entretenimento, nem pretende ser belo simplesmente para ser comercial. Pelo contrário, é profundamente desgastante, desmoralizador, até; mas o resultado final acaba por ser favorável e dar alguma esperança. Marcado pelo ciúme, pelas traições, pelas feridas que o amor pode causar, No Limite do Amor dignifica o melhor da vida através do olhar destas quatro personagens e, mais do que um simples filme biográfico, transforma-se num hino à amizade e o amor.


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Anjos e Demónios, em nome de Deus

As expectativas são elevadas para este Anjos e Demónios, a mais recente produção de Ron Howard. Primeiro, porque é baseado num dos best-sellers mais lidos e aclamados por todo o mundo, o livro homónimo que ainda hoje continua a deleitar as almas mais fantasistas. Depois porque o seu precedente, O Código DaVinci, igualmente baseado numa obra de Dan Brown, constitui um dos maiores sucessos de bilheteira dos últimos anos. E aguarda-se um êxito ainda maior para esta adaptação cinematográfica, sendo uma obra dificilmente transposta para o grande ecrã. Ron Howard decerto estava ao corrente destes aspectos quando se aventurou na conquista do mundo mágico de Dan Brown, uma vez mais, tentando compensar alguns erros cometidos no primeiro filme, que muitos consideraram fatais. E conseguiu-o, sem dúvida, realizando uma obra notável, ultrapassando todos os condicionalismos impostos às filmagens e as pressões da crítica.
Robert Langdon é, como já o sabemos, historiador, professor em Harvard, especialista na análise de símbolos e o aventureiro dos tempos modernos, sem pistola nem espada, armado apenas com o seu conhecimento e coragem. Desta vez, e após ter desvendado um dos maiores segredos da história da Igreja, é convocado pelo próprio Vaticano, para ajudar a investigar o aparente ressurgimento da sociedade secreta Illuminati, constituída por grandes nomes como o próprio Galileu. Estes indivíduos procuram vingança, depois de a Igreja os ter marcado com ferros em brasa no massacre conhecido como ‘la purga’, há séculos atrás. Os quatro cardeais preferidos para serem eleitos no Conclave que decorre naquele mesmo dia, 'il preferiti', são também raptados pelos Illuminati. Porém, outra ameaça está a pôr em causa a eleição do novo Sumo Pontífice e toda a Cidade do Vaticano: um contentor de antimatéria, a mais recente descoberta da cientista Vittoria Vetra, que se encontra algures no Vaticano, ou algures em Roma, escondido pelos Illuminati, de modo a destruir a Igreja Católica e a vingar as mortes do passado. Ao longo da tarde e da noite, tempo no qual se passa a acção do filme, Robert Langdon e Vittoria Vetra tentam, a todo o custo, impedir o assassino Illuminati de matar os cardeais raptados, um por um, de hora a hora, entre as oito e as onze da noite, tal como encontrar o contentor de antimatéria antes da meia-noite e impedir a destruição da cidade. No topo da hierarquia religiosa encontra-se o camareiro do Papa falecido, ‘il camerlengo’, um homem profundamente entregue a Deus, que não consegue afirmar o seu poder sobre os outros por ser um simples padre, jovem, que não passa de um protegido do anterior Papa.
É importante compreender a componente religiosa e a sua importância no drama e na realidade. A Igreja Católica tem vindo a perder influência sobre as pessoas, e sente-se cada vez mais incapaz de atrair apoiantes. Por seu lado, a ciência aproxima-se cada vez mais da Igreja, tentando justificar a existência ou não de Deus e a criação do universo. A antimatéria é, efectivamente, produto de uma colisão que se assemelha à teoria do Big Bang, demonstrando que os progressos científicos das últimas décadas têm conduzido a uma maior descoberta do passado e à sua comprovação empírica. E isto é totalmente ameaçador para a Igreja, segundo uma perspectiva mais conservadora. De facto, a conjugação da ciência com a religião, apoiada por alguns, pode significar uma profanação das bases da Igreja, caracterizadas por uma componente não científica, cuja barreira está a ser quebrada. A Igreja precisa de algo que faça as pessoas serem mais crentes, mais fiéis; precisa de um milagre, de um herói, que volte a dar esperança ao povo e confiança na religião. Assim, anjos tornam-se demónios, e vice-versa, num jogo que aparentemente nada tem a ver com Deus, mas que no fundo acontece em seu nome. E a ameaça presente neste Conclave, ao nível dos raptos e das mortes dos cardeais favoritos, da antimatéria e do ressurgimento dos Illuminati, se é que esse ressurgimento se dá de facto, acaba por ser esse milagre, por conduzir a uma maior crença na religião, no caso particular de Robert Langdon e no caso geral dos fiéis. Esta é a base da história, do livro e do filme, e constitui o ponto fulcral e mais fascinante de ambos. Os desígnios de Deus, como se diz por aí, são misteriosos e insondáveis.
Embora com ligeiras alterações em relação à obra de Dan Brown, Ron Howard teve uma preocupação espiritual com o conteúdo do best-seller, ignorando praticamente o romance existente entre os personagens principais e a importância do CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, sedeado na Suiça) no desenrolar da história, concentrando-se no tema religioso que dá forma a todo o thriller e que, no meio cinematográfico, acaba por fazer mais sentido. Um filme com mais de duas horas tem, obrigatoriamente, de ser apelativo e misterioso até ao final, e este Anjos e Demónios consegue transpor para a realidade o mistério e a emoção que Dan Brown oferece à obra original, do início até ao fim. O argumento contém diálogos fascinantes e foi brilhantemente escrito a partir do original, identificando-se desta forma com as personagens e o ambiente. Com uma realização consistente e uma banda sonora perfeitamente adequada, Tom Hanks enquadra-se de forma mais realista na personagem de Robert Langdon, com os seus habituais momentos de humor, e Ewan McGregor demonstra uma vez mais o seu talento versátil, no papel de camerlengo. Quanto a Ron Howard, imortaliza-se definitivamente como um génio da actualidade, com altos e baixos ao longo da carreira, mas com grandes filmes que dificilmente serão esquecidos.
O único pormenor menos positivo a registar acerca deste Anjos e Demónios é talvez o excesso de protagonismo atribuído a Robert Langdon, após uma dispersão do protagonismo em O Código DaVinci, e a consequente aposta débil na personagem de Vittoria Vetra, que não passa de uma figurante, de uma acompanhante de Tom Hanks, não por culpa própria, pois é o único rosto feminino num elenco de homens, mas pelo argumento que não favorece a sua personagem. De resto, a acção e todo o mistério trazidos para o grande ecrã encaixam-se na perfeição no espírito do filme, tal como os actores se encaixam nas personagens que representam. Os efeitos especiais, embora suaves, não deixam de estar presentes nos momentos necessários, e o filme vive à base do argumento que o constitui, das imagens que lembram palavras, da realização coerente de Ron Howard, da semelhança com a actualidade e da realidade da história. É uma verdadeira obra-prima, que pode e deve figurar entre os grandes filmes já exibidos neste ano de 2009, e que decerto superará o sucesso e as expectativas criadas à sua volta.

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Expectativas para Anjos e Demónios, no Twitter

Pois é, vale a pena explorar as funcionalidades do Twitter. Quanto mais não seja para ler o que os outros escrevem, para pedir opiniões, para partilhar momentos ou reflexões. Lancei no dia de hoje uma pergunta acerca das expectativas esperadas para o filme Anjos e Demónios, e deixo aqui as respostas recebidas :)

O Elo do Amor

Dois anos após o seu lançamento nos EUA, O Elo do Amor chega finalmente a Portugal, discretamente, como se o seu realizador e os seus actores não constituíssem alguns dos melhores da actualidade. A história inicia-se em 1941, no Michigan: Ethel Ann conquista o coração de Teddy e dos seus dois amigos aviadores, Jack e Chuck, mas apenas tem olhos para o primeiro. Quando se dá o ataque a Pearl Harbour, Teddy e Ethel Ann casam em segredo, com promessas de fidelidade eterna, e ele guarda o anel de ouro que contém gravados os seus nomes. Caso algo lhe aconteça, Chuck promete cuidar de Ethel, e assim partem os três para a Segunda Guerra Mundial. Cerca de cinquenta anos depois, a ainda angustiada Ethel Ann recorda toda a sua juventude, quando o marido morre e a filha Marie procura uma explicação para o passado secreto da mãe, e mesmo para a sua falta de sofrimento. Ethel Ann sofre apenas com o passado longínquo, que a volta a assombrar quando Jimmy, um rapaz irlandês, encontra numa montanha de Belfast o anel que Teddy levara para a guerra.

Temos duas histórias em paralelo, no presente (ano de 1991), e ainda o passado recordado por Ethel Ann. Numa delas, encontramos a sempre carismática Shirley MacLaine, uma Ethel Ann que ainda vive amargurada com a perda do seu grande amor, com a falta de provas que confirmem esse mesmo facto, com uma vida que não fora a planeada, e com um elo de fidelidade eterno que não pode, no seu íntimo, quebrar. Jack Etty, um dos companheiros de Teddy, representado pelo grande Christopher Plummer, é agora o maior amigo de Ethel Ann, futuro sogro da sua filha Marie, e após todos aqueles anos, continua apaixonado por ela. Sofre também com a vida que não teve ao lado dela, pois a responsabilidade de cuidar da jovem que Teddy deixara para trás fora concedida ao seu amigo Chuck. Em simultâneo, na Irlanda do Norte, Michael Quinlan procura diariamente escavar o local onde o avião B-17 se despenhou, há quase cinquenta anos, durante a guerra, e conta com a ajuda do jovem Jimmy, que desvenda a história de Ethel Ann e a contacta para devolver o anel encontrado. As histórias unem-se quando Jimmy parte para o Michigan e o passado é desvendado, tanto para as restantes personagens, como para os espectadores.

O drama torna-se um pouco incoerente ao nível temporal, particularmente no início, com uma certa desordem de ideias e pormenores desnecessários a receberem demasiado destaque. De facto, a segunda parte do filme (embora não possamos verdadeiramente dividir a história em duas partes) é mais consistente; até a realização é mais bela e harmoniosa. Um pormenor interessante é a comparação subjectiva entre a história da Segunda Guerra Mundial, no passado, e os ataques do IRA, em 1991, na Irlanda do Norte. O filme transporta-nos para uma nova guerra, para novos heróis e novos inimigos, e também para uma pronúncia diferente, um sotaque irlandês muito peculiar, especialmente protagonizado pelo jovem Jimmy. Os poucos momentos humorísticos do filme são conseguidos exactamente através desta personagem, apesar de não se enquadrarem muito bem no clima trágico da história, mas dão-lhe uma certa ligeireza e não retiram por completo a sua credibilidade dramática.

Directamente do pequeno para o grande ecrã, Mischa Barton amadurece e adapta-se na perfeição ao papel sensível e dramático da jovem Ethel Ann, deixando para trás a inconstante e adolescente Marissa de O.C. Gregory Smith, vindo da série Everwood, toma o papel do jovem Jack, que esconde a sua paixão por Ethel Ann, num registo também mais maduro. O jovem Martin McCaan, que representa Jimmy, merece um destaque especial pelas suas expressões e naturalidade ao nível da acção. Richard Attenborough realiza consistentemente um bom filme de época, que se distancia de Pearl Harbour e de todos os restantes romances de guerra, não através das relações entre as personagens, que são simples clichés, mas através da própria história, da relação entre o passado e o presente, e entre as diversas pontas da história, que o espectador procura unir desde o início até ao final do filme, encantando-se à medida que vai desvendando os pedaços da narrativa.
A banda sonora, composta por Jeff Danna, acompanha e suaviza, de certa forma, toda a acção, auxiliada pelas magníficas paisagens, tanto do Michigan como de Belfast. O argumento, escrito por Peter Woodward, foi criado a partir da descoberta verídica de um anel, em Belfast, cerca de cinquenta anos após a queda do avião B-17, durante a segunda grande guerra, concebendo a história de Ethel Ann à volta deste acontecimento. Efectivamente, o sofrimento de Ethel Ann é justificado por aquele elo, aquele anel que não a liberta de um passado irreversível, de um amor impossível de consolidar. E este regresso ao passado permitirá libertá-la desse amor e até, quem sabe, começar de novo a viver. Não é um grande filme, e provavelmente só valerá a pena na primeira vez que se visualiza. Mas é uma boa história que não deve ser passada ao lado.

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Cinema vs Crise

Diz-se por aí que uma crise económica está a afectar meio mundo, e que esse meio mundo se está a afundar, lenta mas acentuadamente, numa recessão de que não há memória. Alguns preços começam a descer, para acompanhar a diminuição do poder de compra, e o desemprego mostra-se cada vez mais fatal. A especulação também não ajuda, provocando um medo crescente nas pessoas e a sua constante preocupação com o dinheiro que gastam. Medidas proteccionistas começam, inevitavelmente, a ser tomadas pelas grandes potências, como forma de combater a crise iminente e atacá-la antes que seja tarde demais. Especialistas dividem-se quanto às implicações económicas que este pico negativo pode vir a ter no presente, no futuro e na história, não havendo ainda uma certeza da sua gravidade. Mas ela está aí. Pelo menos é o que dizem. Porém, a indústria cinematográfica não tem sido muito afectada pela crise. Filmes continuam a ser produzidos, lançados mensalmente nos cinemas de todo o mundo, e as receitas não deixam de ser favoráveis.

O cinema tem essencialmente três propósitos: informar, propagandear e entreter. A informação é transmitida de forma fácil e rápida, acessível à maior parte das pessoas. Como propaganda, o cinema promoveu e ainda promove ideais políticos, convencendo os espectadores a tomarem o partido dos que publicitam as suas ambições. Como entretenimento, desde o seu aparecimento, tem vindo a conquistar cada vez mais admiradores. E em tempos de crise, este é o factor que leva mais pessoas ao cinema. Para termos uma ideia: no auge da Grande Depressão, em 1934, durante a qual o desemprego atingiu máximos históricos, cerca de 40% da população norte-americana ia ao cinema uma vez por semana; durante a Segunda Guerra Mundial, este indicador chegou mesmo ao 60%. Os filmes ofereceram uma panaceia na crise dos anos 30 nos Estados Unidos, foram o ópio do povo e meio de propaganda política durante a última grande guerra, e continuaram a embalar as pessoas nas décadas que se seguiram, até aos dias de hoje, rotulando Hollywood como a fábrica de sonhos. No século XXI, perante uma nova crise económica, podemos verificar que a situação não é muito diferente.

Em 1927, o mundo cinematográfico registou uma inovação técnica que alterou completamente o formato de toda a indústria do cinema: o aparecimento do som, com o filme O Cantor de Jazz. A maior parte dos primeiros filmes falados teve sucesso nas bilheteiras e, no final dos anos 20, houve mesmo um boom de filmes falados, com o aparecimento do género musical e de algumas produções que uniam a música à comédia. Em 1930, a indústria cinematográfica teve o seu melhor ano, quando os lucros das bilheteiras e dos estúdios atingiram níveis recorde. Um ano depois, a Depressão alcançou a indústria e os lucros baixaram drasticamente. Este facto foi contornado pelos cinemas que começaram a oferecer dois filmes em cada programa, para atrair clientes durante o período difícil da economia mundial. O programa era alterado duas a três vezes por semana e eram exibidos essencialmente filmes de série B, westerns, filmes de gangsters e de acção. Ir ao cinema tornou-se então um ritual semanal para a maioria dos citadinos nos anos 30 e, após o grande crash, houve igualmente um grande boom no visionamento de filmes.

Quanto à Segunda Guerra Mundial há a dizer que, ironicamente, uma vez mais, os anos de guerra foram comparativamente bons para Hollywood, constituindo 1939 um ano de ouro para a indústria cinematográfica, com títulos como E Tudo o Vento Levou e O Feiticeiro de Oz. Predominaram as produções de guerra, nomeadamente de carácter anti-fascista e anti-nazi, que exaltavam o carácter patriótico das nações envolvidas no conflito, bem como alguns westerns, musicais e comédias sofisticadas. Com a América envolvida na guerra global, o governo via Hollywood como fonte ideal de entretenimento, informação, reforço do moral e propaganda política e social. Os filmes eram visionados pelo exército, que com eles ganhava uma espécie de coragem especial e um propósito patriótico de sobrevivência e vitória. A grande afluência e diversificação de produções durante os anos 40 provocou receitas favoráveis nas bilheteiras, impulsionada pelo desejo de fuga da realidade por parte da população.

Nos dias de hoje, como já foi dito, a situação é bastante semelhante. Apesar da crise, as pessoas não dispensam uma qualquer forma de lazer, de escape ao mundo real, de inserção numa fantasia que afaste os pensamentos das suas vidas durante a crise. Pelo contrário, à medida que a crise se vai agravando, e com ela o desespero da população a nível mundial, o cinema tem cada vez mais o papel de distracção da realidade, de criação de um mundo de fantasia, de uma utopia que foge completamente às dificuldades vividas, tal como o foi nos dois períodos acima referenciados, dois dos piores (em termos económicos e sociais) que a história já presenciou. O cinema tem tendência a ganhar com estas grandes crises e a aposta neste século XXI vai exactamente (para além da comédia) para as produções mais fantasistas, de terror, de ficção científica, de animação, géneros pouco desenvolvidos no passado e que, hoje em dia, apesar de terem elevados custos, constituem o expoente máximo da tecnologia e do afastamento da realidade no cinema.

No caso específico de Portugal, a afluência de espectadores às salas nacionais aumentou cerca de 10% em Janeiro de 2009, em relação ao mesmo período de 2008, segundo o ICA (Instituto de Cinema e Audiovisual), o que evidencia a escassa influência da crise económica nas prioridades das pessoas. Este aumento, no primeiro mês de cada ano, tem sido uma constante desde 2007, o que se deve ao facto de, geralmente, serem exibidos nas salas de cinema, nesse período, os filmes candidatos aos Óscares de Hollywood. No entanto, o valor diminuiu em relação a Dezembro e 2008, também bastante concorrido devido a corresponder às férias das camadas mais jovens da população. Será o primeiro sinal de agravamento da crise? Há um número crescente de pessoas que têm optado pelo cinema em casa, particularmente devido ao elevado preço dos bilhetes nas salas – um bilhete normal custa cerca de 5,70 euros -, mas as receitas das bilheteiras apresentam-se alheiamente elevadas devido ao aumento do preço dos impressos. Apesar disso, as pessoas continuam a ir regularmente ao cinema, e este passa uma vez mais ao lado da crise.

Na semana de 2 a 8 de Abril, o estreante Monstros vs Aliens, filme animado com recurso a 3D, foi o mais visto nas salas de cinema nacionais, contando com 107.362 espectadores. Numa semana, as receitas brutas das bilheteiras equivaleram a 610.272,96 euros. A crise pode estar aí e ser até bastante forte. Mas caso não fosse tão comentada e discutida, um pouco por todo o mundo, o cinema provavelmente não daria por ela, tal como não deu no passado, sobrevivendo às grandes crises do século XX. A ver vamos como se comportam as pessoas durante o resto do ano, com o agravar da crise, e se o cinema sobrevirá a estes anos difíceis que se avizinham.

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Museu de Cinema de Melgaço | Jean Loup Passek

Em pleno centro histórico da Vila de Melgaço, junto às muralhas, o edifício anteriormente ocupado pela Guarda Fiscal alberga agora o Museu de Cinema,um dos únicos do género em Portugal (a par do museu existente na Cinemateca Portuguesa). Inaugurado em Junho de 2005, reúne uma grande parte do espólio do cinéfilo Jean Loup Passek, que doou a sua colecção privada à autarquia de Melgaço. Porquê um museu de cinema naquela pequena freguesia minhota, no ‘fim do mundo’, quase na fronteira com a Galiza? A verdade é que Lisboa, Porto, Braga, entre outras cidades portuguesas, bem como algumas cidades francesas, demandaram as fotografias, cartazes, câmaras, documentos, coleccionados por Jean Loup Passek, mas o francês de origem russa contrariou as expectativas e escolheu uma vila portuguesa para o efeito. Conta a história que, há cerca de trinta anos atrás, Jean Passek conheceu em Paris dois emigrantes portugueses, e com eles travou uma amizade que duraria a vida inteira. Uma vez passando férias em Melgaço, terra natal destes portugueses, rendeu-se aos encantos do Minho e tornou-se um apaixonado por Portugal. Fundador e director do Festival Internacional de Cinema de La Rochelle, coordenador do departamento de cinema do Centro George Pompidou e entusiasta pela sétima arte, Jean Passek encontrou em Melgaço o local perfeito para a concretização do seu sonho de construir um museu dedicado ao cinema, adquirindo até uma residência de férias no concelho. Com setenta e três anos, divide o seu tempo entre Paris e Melgaço, e permanece com "espírito eslavo, nacionalidade francesa e coração português”, como referiu certa vez numa entrevista.

O Museu de Cinema contém uma exposição permanente, que retrata as origens do cinema e o seu percurso ao longo dos tempos, desde os seus primeiros passos, a chamada era do pré-cinema, até ao início do cinema propriamente dito. As salas do rés-do-chão recuam a finais do século XVIII e inícios do século XIX, com o aparecimento das lanternas mágicas, objectos mais antigos em exposição. Funcionavam através de uma manivela, que fazia girar pequenas superfícies vidradas pintadas, com imagens. Outros aparelhos, como o Fenakistiscópio e o Praxinoscópio, fazem também parte da pré-história do cinema. O primeiro, criado por Joseph Plateau em 1832/33, oferece a ilusão de movimento da imagem através de um disco giratório com desenhos ligeiramente diferentes, constituindo talvez o início da movimentação de desenhos. O segundo, criado por Émile Reynaud, em Paris, cerca de 1877, era constituído por longos espelhos dispostos ao centro do aparelho, e por uma manivela que permitia accionar e fazer rodar o tambor, mostrando os desenhos em movimento. Em exposição encontram-se também alguns dos primeiros cinematógrafos, que marcam verdadeiramente o início do cinema, com a sua criação pelos irmãos Lumière, em 1895, na cidade de Paris – um dos quais de fabrico alemão, em metal. Estes objectos, mais do que inventos e produtos técnicos e científicos, são testemunhos da história da arte, de novas formas de espectáculo, e representam uma alteração da forma de encarar o mundo, mudança essa que o cinema simbolizou desde a sua pré-história.

Prateleiras cobertas de vidros pintados, com imagens, simbolizam as primeiras histórias contadas através de projecções cinematográficas. Ao fundo de uma das salas, um enorme cartaz mostra algumas das figuras mais influentes da Europa observando-se a preto e branco num ecrã, como num espelho. O cartaz, desenhado por Adrien Barrère, em 1908, tem uma elevada importância histórica, pois é o primeiro cartaz do cinema em sala. O cinema, até à época considerado espectáculo de feira, torna-se diversão burguesa, e Charles Pattié abre a primeira sala de cinema. Os chefes de estado europeus são então os primeiros a encontrar-se numa sala de projecção, surpreendidos com a inovação. Na outra sala do rés-do-chão, cartazes coloridos e um ecrã suspenso em frente à parede granítica original do edifício indiciam a exposição temporária do piso superior, igualmente da colecção de Jean Loup Passek, que o museu alberga agora: uma homenagem a Federico Fellini.

Fellini viveu de 1920 a 1993, e é considerado um dos mais importantes cineastas italianos. Os seus filmes caracterizavam-se por uma conjugação perfeita entre memória, desejo, sonhos, fantasia, muitas vezes retratando e criticando a sociedade. A genialidade do homem é visível através da versatilidade e da magia dos seus filmes, entre os quais se destacam A Doce Vida, Satyricon, Roma, Amarcord, Julieta dos Espíritos, A Estrada, Entrevista, A Cidade das Mulheres, O Casanova de Federico Fellini, entre muitos outros. No Museu de Cinema de Melgaço, fotografias e cartazes, a preto e branco e a cores, desvendam essa mesma genialidade, bem como o filme Ginger e Fred, que passava no televisor suspenso. As exposições temporárias encontram-se activas durante cerca de três meses, altura em que a anterior é substituída por uma nova, igualmente do espólio pessoal de Jean Loup Passek. O cinéfilo deverá regressar a Melgaço no próximo mês de Maio, e a exposição temporária de Fellini será desactivada.

Numa das últimas visitas de Jean Passek a Portugal, durante o ano de 2008, Manoel de Oliveira foi convidado de honra no Museu de Cinema, onde o francês lhe mostrou as exposições em exibição. Ao deparar-se com as escadas do edifício, Jean Passek terá dito que estava a ficar velho, que lhe custava a subir os degraus. Por seu lado, Manoel de Oliveira, nos seus noventa e nove anos (na altura), o cineasta activo mais idoso do mundo, terá subido as escadas sem qualquer dificuldade, o que enuncia o carácter perdurante da sua carreira e a sua capacidade extraordinária de criar histórias e colocá-las no grande ecrã, apesar da idade avançada.

O Museu de Cinema de Melgaço, por entre as muralhas da Vila e sob o olhar atento da Torre de Menagem, é uma paragem obrigatória para os amantes da sétima arte. A colecção de Jean Loup Passek inclui mais de meio milhão de fotografias e cartazes de valor artístico incalculável, número esse em constante crescimento, já que o cinéfilo continua a frequentar leilões e a adquirir novos artigos da história do cinema. Por essa razão, o Museu de Cinema deverá ser ampliado, dentro de seis meses, incluindo-se num outro edifício da Vila novas exposições da colecção de Jean Passek. No primeiro ano desde a abertura, o Museu recebeu cerca de 7500 visitantes, e continua a recebê-los diariamente, dando a conhecer a encantadora história do cinema, ‘máquina de sonhos’, que continua a maravilhar e a mudar o mundo.
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Ele NÃO está assim tão interessado

Baseado num best-seller dos mesmos autores de O Sexo e a Cidade, Greg Behrendt e Liz Tuccillo, Ele não está assim tão interessado - He's just not that into you é um filme com um título longo e de uma veracidade inevitável, que nos transporta para o mundo das relações amorosas, dos compromissos e das rejeições.

Gigi (Ginnifer Goodwin) é uma rapariga que procura desesperadamente o homem da sua vida, que quer ser amada, e por isso mesmo cria, à volta de cada encontro ou simples conversa com um homem interessante, uma ilusão de que ele está interessado nela. Em parte, essa ilusão é alimentada pelas falsas esperanças que as amigas lhe dão no campo do amor, ou melhor dizendo, que todas as mulheres dão umas às outras no que diz respeito às relações amorosas. O filme explora este ângulo, mostrando que, na maior parte das vezes em que parece haver algum interesse por parte do sexo oposto, isso não passa de uma criação do nosso cérebro, das pessoas que nos rodeiam, que mentem para nos verem felizes. E isso pode ser o pior que nos pode acontecer. Gigi vive assim, perdida, esperando desesperadamente um telefonema do homem com quem jantou na noite passada. Mas, e se ele não telefonar?

Beth (Jennifer Aniston) vive também o seu drama pessoal: a sua relação com Neil (Ben Affleck) conta já sete longos anos, mas ele recusa-se a acreditar no casamento, afirmando que viver com Beth é suficiente para mostrar o seu amor. Mas ela quer mais: quer ter o mesmo que as irmãs têm, quer casar com o homem da sua vida, pois acredita que a sua meia-idade implica dar o próximo passo na relação. Ou será que Neil não é o homem da sua vida? Quanto a Janine (Jennifer Connelly), a outra das três amigas, vive um casamento aparentemente feliz, sem falhas, mas começa a suspeitar das mentiras do marido e de uma relação que parece estar a andar para trás. E com razão: o seu marido, Ben (Bradley Cooper), após um encontro fortuito no supermercado, sente-se atraído pela sedutora Anna (Scarlett Johansson), que apesar de alguma reticência inicial da parte dele, depressa se torna sua amante. Ben quer trabalhar no casamento, apesar de se sentir preso nele, mas as mentiras e a sua falta de discernimento acabam por magoar Janine, infeliz com o rumo que o casamento está a tomar.

Por seu lado, Conor (Kevin Connolly) é apaixonado por Anna, mas ela trata-o como um amante descartável e ele continua a ter encontros, tentando encontrar a mulher dos seus sonhos. Anna é uma mulher insatisfeita com o que tem, sedutora, que não consegue decidir entre o homem casado que trai a esposa e o homem certinho que está definitivamente interessado nela. Mary (Drew Barrymore), amiga de Anna, é uma mulher que procura também o amor, mas apenas encontra algum interesse da parte dos homens nas redes sociais da Internet, acabando por vezes magoada com a falsidade deles na utilização da tecnologia.


Alex (Justin Long), amigo de Conor e gerente de um bar, é um céptico no que toca ao amor, sabendo de cor e salteado todos os passos que um homem dá num encontro, se está ou não interessado numa mulher, se ela pode ou não ter esperança. Acredita que, na maior parte das vezes, o homem não fica interessado na mulher após um encontro; é raro o que fica. A regra é, então, uma mulher ficar desapontada após esperar desesperadamente pelo telefonema de um homem, sendo que o interesse dele é apenas obra da sua mente. A excepção, no entanto, é possível, ou seja, o homem pode estar realmente interessado na mulher. Mas nesse caso ele demonstra-o logo, não demora dias e dias para telefonar à mulher que conheceu. Quando ele está interessado, ele mostra-o. Estes são alguns dos conselhos que Alex começa a dar a Gigi, após a conhecer no seu bar. Céptico quanto ao verdadeiro amor e à excepção de que fala, acaba por se interessar, lentamente e sem se aperceber, pela mulher que guia no mundo do amor, a mulher com quem não houve qualquer faísca, mas que pode muito bem ser a tal.

Numa realização discreta e elementar, Ken Kwapis transforma o que podia ser uma simples comédia romântica para ver num domingo à tarde, numa fantástica descoberta do amor, numa obra quase documental acerca dos bons e dos maus aspectos das relações amorosas e dos compromissos. O início do filme é uma espécie de curta-metragem genial, que nenhuma relação pessoal óbvia tem com o resto do filme, mas que funciona na perfeição como uma breve introdução para o tema que irá ser tratado ao longo da obra: o facto de ele estar ou não interessado nela. Os separadores utilizados para dividir os diversos aspectos do interesse do homem, ao longo do filme, são também marcos de comédia e do carácter educativo do filme.

Ele não está assim tão interessado conta com um elenco diversificado e brilhante, que por si só é um autêntico chamariz às salas de cinema. Surpreendentemente, o realizador optou por atribuir a dois dos actores mais desconhecidos, Ginnifer Goodwin e Justin Long, o par romântico mais influente na história do filme, o mais relevante devido aos diálogos geniais entre as duas personagens, acerca do amor. É um verdadeiro filme de personagens, que gira à volta dos pares românticos e das emoções provocadas pelo estado das suas relações. O que tem de comédia, pode também ter de drama; o que tem de romance, tem decerto também de veracidade. É definitivamente um filme para ver com a cara-metade, mas não se iludam: no amor, tal como em tudo na vida, nem sempre as coisas correm como planeado, e nem sempre as pessoas acabam felizes para sempre. Há sempre excepções. Ou serão regras?
Publicado em Red Carpet

Já tem Twitter? Os seus ídolos já têm

É a nova moda. Depois dos célebres hi5 e Facebook, que conquistaram inúmeros adeptos em todo o mundo (cerca de 70 e 125 milhões de utilizadores activos, desde as suas fundações, em 2003 e 2004, respectivamente), chega-nos a mais recente rede de interacção social na internet: o Twitter. Apesar de ter o objectivo comum de conectar pessoas de qualquer parte do mundo, o Twitter não segue os mesmos critérios das outras comunidades, contendo uma base inovadora, e o marketing beneficia também desta nova rede, aproximando-se progressivamente das pessoas. O Twitter é uma comunidade social que, por ser ainda recente, não está sobrelotada de perfis falsos e de amizades desconhecidas, havendo até a possibilidade de comunicar com as verdadeiras estrelas do mundo dos famosos.

Criado em 2006, em São Francisco, pelo americano Evan Williams, o Twitter parte da questão ‘What are you doing?’ (‘O que está a fazer?’), que serve de base à comunicação no chamado microblogging. Cria-se um perfil simples e gratuito no site
www.twitter.com, e as mensagens podem começar a circular. A comunidade social permite a divulgação, em tempo real, de mensagens com um limite máximo de 140 caracteres, enviadas ou recebidas por computador ou SMS, em telemóveis ou PDAs com acesso à Internet. Após serem escritas, as mensagens aparecem no site, no perfil do utilizador e nos perfis de quem o seguir, havendo possibilidade de resposta por parte de qualquer pessoa. O conceito de ‘seguidor’ substitui o termo de amizade no hi5, havendo apenas pessoas a ‘seguirem’ perfis e actualizações de outras, em tempo real. E existe a hipótese de comunicação entre elas, estejam onde estiverem no globo.

Apercebemo-nos constantemente do carácter fraudulento de alguns perfis pessoais no hi5, particularmente se olharmos com atenção para os perfis de pessoas famosas. Muitos são perfis de fãs, outros pretendem denegrir a imagem da pessoa, e outros ainda pretendem apenas utilizar o estatuto do visado como passaporte para outras ‘amizades’ na rede social. As comunidades já existentes encontram-se, assim, corrompidas, sobrelotadas, mundos onde nada é o que parece, e onde apenas se pode confiar nas pessoas que conhecemos e que podemos realmente chamar de amigos. O carácter inovador e recente do Twitter permite uma quantidade ainda escassa de utilizadores, e oferece uma certa credibilidade aos perfis pessoais de algumas celebridades, portuguesas e internacionais. Alguns não deixam de ser falsos; mas se procurarmos bem, podemos encontrar alguns que pertencem realmente às pessoas famosas que visam. E podemos saber, em tempo real, o que elas estão a fazer, a pensar, a comer, a ler, a ouvir. E podemos ainda, em tempo real, comunicar directamente com elas.

Os humoristas Nuno Markl e Bruno Nogueira usam-no, trocando ideias com os utilizadores. David Fonseca e Rita RedShoes têm já perfis criados, utilizados como divulgação das suas carreiras musicais. O Jornal Público e a própria Presidência da República utilizam-no para promover notícias e iniciativas. No panorama internacional, estrelas de cinema como Mark Whalberg, William Shatner, David Lynch, Christopher Walken, Adam Sandler e Shia La Beouf usam-no também. Ellen DeGeneres, John Mayer, Richard Branson, Jamie Oliver, Andy Murray, Ryan Seacrest, são outras celebridades ‘reais’ que já se renderam, igualmente, ao fenómeno Twitter.

O casal de actores Ashton Kutcher e Demi Moore é um exemplo de comunicação através do Twitter. Durante a sua estadia na Europa, num fuso horário diferente, Ashton Kutcher quis surpreender a esposa, às 7h45 (14h45, hora portuguesa), no início do dia, e pediu aos twitters (utilizadores) que escrevessem tweets (mensagens) no perfil dela, dizendo ‘good morning, I love U’, criando uma ‘onda de amor’ para ela. A iniciativa romântica funcionou na perfeição: em sete minutos, cerca de 3600 tweets foram enviados para Demi Moore, e Ashton revelou mais tarde que esta adorou a surpresa, conseguida através da participação da comunidade. É a prova viva de que o Twitter está na moda, e é um serviço para todos.

Poder comunicar com as estrelas, sabendo que são realmente elas do outro lado da rede, torna-se também um motivo de agrado do Twitter. Que tal enviar uma mensagem a Adam Sandler, congratulando-o pelo seu excelente trabalho como actor? Porque não felicitar Jamie Oliver pelos seus brilhantes cozinhados? E Andy Murray, pela sua última vitória? O inimaginável torna-se possível a um simples clique de distância, mais simples do que alguma vez o foi. E torna-se viciante. Nuno Markl já o disse, e é comummente aceite. Descobrir pessoas conhecidas no Twitter, descobrir os seus perfis e ‘segui-los’, comunicar com pessoas famosas ou amigos que não encontramos há anos, torna-se estimulante. E colocar novas mensagens no perfil, receber respostas e comunicar com a rede criada à volta do perfil, é igualmente entusiasmante.

Apesar da imensidão de comunidades sociais existentes no mundo da Internet, e do carácter efémero que a sua importância adquire para as pessoas, o Twitter pode vir a contrariar a tendência de corrupção do espaço cibernáutico, através da sua forma inovadora de interacção, seja com celebridades ou com o mais comum dos mortais. Já tem Twitter?

Sintra n' Os Maias - Roteiro Queirosiano

Os Maias é um dos mais admirados romances portugueses do século XIX. O seu autor, o grande Eça de Queiroz, tornou-se um mestre da literatura portuguesa, um dos maiores e mais afamados de sempre, e parece que, há medida que o tempo passa, o é ainda mais. Foram diversas as obras que nos trouxe, desde A Relíquia, O Crime do Padre Amaro, e O Primo Bazílio, à compilação Contos, ao mítico O Mistério da Estrada de Sintra (com Ramalho Ortigão), e ao igualmente imponente A Cidade e as Serras. Eça nasceu em 1845 e faleceu no ano de 1900, atravessando a segunda metade do século XIX. É apontado como introdutor do Realismo em Portugal, cerca de 1865, após um início de século marcado, em toda a Europa, por revoluções de cariz liberal. Em Portugal, tal revolução deu-se em 1820, período no qual proliferou o Romantismo (nomeadamente com Almeida Garrett), tanto na literatura como em outras áreas. Períodos literários totalmente opostos, que originaram, após o Realismo, uma facção mais radical deste – o Naturalismo. Quanto à conquista pela liberdade em Portugal, durante o denominado Romantismo, a guerra civil deu-se entre absolutistas e liberais, e enquanto Queluz ofereceu um enorme apoio aos ideais liberais, a vila de Sintra foi mais conservadora e apoiou o Absolutismo. No final do século XIX, época na qual é retratada a acção principal d’ Os Maias, a liberdade estava já consagrada, e Sintra era um local de grande prestígio para visitar.

Escrito entre 1882 e 1888, Os Maias é uma obra complexa, de um realismo mordaz, irónica e provida de um elevado valor emocional, considerada a obra-prima de Eça de Queiroz. O tema central da obra é o incesto, neste caso específico entre dois irmãos, de forma inconsciente, malvisto na sociedade da época. Em linhas gerais: Carlos Eduardo da Maia, personagem principal, pertence a uma família aristocrata, ou seja, da alta nobreza distinta, que vivia na Beira. Afonso da Maia, avô de Carlos, é um verdadeiro humanista, e educou o neto à inglesa, de forma mais rigorosa, em Santa Olávia (junto ao Douro). Já crescido, Carlos tira o curso de Medicina em Coimbra, mas tem mais habilidade para as relações amorosas, e é por isso considerado um diletante (gosta de ‘bricabraque’, tem um certo estatuto social e exerce uma profissão por paixão). Muda-se para Lisboa, onde pretende abrir um consultório, e conhece Dâmaso Salcede, um novo-rico (ou novo-burguês) que imita Carlos em tudo (o que veste, o que faz, o que gosta) e escolhe os amigos de acordo com a sua condição na sociedade e a sua influência em determinados aspectos. No Ramalhete (que significa ramo de girassóis), habitação actual d’ os Maias, faziam-se tertúlias (discussões sobre a actualidade, o pais, um pouco de tudo e de nada) entre homens, amigos de Carlos e de Afonso. Cruges, o maestro (instruído e admirador dos grandes clássicos da música), é um desses amigos, que Carlos convida para uma viagem a Sintra, na qual pretende encontrar a misteriosa mulher que viu apenas uma vez e da qual deseja saber um nome, pretende conhecer e deslindar o que se passa no seu coração.

No capítulo VIII d’ Os Maias, Eça descreve então o passeio de Carlos e Cruges por Sintra, enquadrando assim a vila de Sintra na obra e na acção da história. Carlos procura Cruges na sua residência na Rua das Flores, em Lisboa, cerca das oito horas da manhã, mas vem a encontrá-lo na Rua de S. Francisco, casa da sua mãe, que lhe implora para trazer o doce petisco regional de Sintra – ‘Olha não te esqueçam as queijadas!’. Os dois amigos partem em direcção à vila num break (transporte com quatro lugares), atravessando as Quintas de Benfica e chegando à Porcalhota, restaurante no qual Cruges ingere um almoço campestre, ‘uma bela pratada de ovos com chouriço’. Após o acepipe, Cruges sente-se satisfeito, tornando-se até um pouco melancólico, e conversa com Carlos sobre a ignorância do país e a ociosidade das pessoas.

Ao chegarem às primeiras casas de Sintra, e depois ao Ramalhão e às portas da serra, Carlos avisa Cruges que não se dirigem para a afamada Lawrence’s, antes para o hotel Nunes. Dois curtos apartes: primeiro, junto ao Palácio da Vila (o imponente Paço que Cruges adora quando vê), é possível observar a antiga instalação do Hotel Vítor, referenciado na obra, no qual os Cohen (família judaica, Jacob e Raquel Cohen – com a qual João da Ega tem um caso amoroso e é descoberto, sentindo-se resignado) ficaram hospedados – agora residência particular; segundo, Eça terminou a redacção do romance no exacto ano em que foi inaugurada a linha de comboio entre Lisboa e Sintra. O break seguiu então em direcção à serra de Sintra, desviando-se para o Nunes, hotel de dois andares, agora Hotel Tivoli (após a sua demolição, em 1973, que pôs fim ao carácter mítico do edifício, que permanece apenas através da imortalização de Eça). No Nunes, encontram Eusebiozinho Silveira, obeso e viúvo, acompanhado por Palma Cavalão e por duas meretrizes espanholas, Lola (mais franzina) e Concha (‘um mulherão’). Palma demonstra um machismo profundo, e Eusébio mostra-se cobarde ao não admitir que trouxera Concha consigo para Sintra; esta sente-se furiosa com a sua atitude e sai da sala do hotel. Eusébio representa uma educação mais conservadora, tradicional, à portuguesa, que falha, tanto no final da obra (quando se diz que a esposa lhe bate), como nesta situação no Nunes (quando se acompanha de duas meretrizes, após a viuvez). A educação de Carlos (marcada pelo positivismo), apesar de contrastante, falha também, nomeadamente devido ao incesto, a certa altura consciente e incoerente, à fuga de Carlos para a Europa, à ociosidade de não exercer a sua profissão, entre outros factores.

Sintra representa, para as classes altas do século XIX (e particularmente para a aristocracia lisboeta), um espaço digno da sua presença, uma elevada ociosidade (numa sociedade burguesa já por si ociosa), um local para fugir ao espírito urbanizado das cidades, para respirar ar puro e visitar edifícios esbeltos. O Nunes, embora não tão preferido como a Lawrence, fazia parte da simbologia burguesa; e apesar de Eusébio não ter querido admitir a companhia das duas espanholas, ao vê-lo, Carlos admirou a sua atitude, demonstrando que a sociedade burguesa talvez não o levasse a mal por as ter levado a Sintra. Carlos fica, de novo, desiludido por não encontrar a mulher misteriosa (que sabemos ser Maria Eduarda, mais tarde divulgada como irmã de Carlos) pela qual empreendeu aquela viagem a Sintra.

Na estrada que vai dar a Colares, o denominado passeio público de Sintra, o break segue para o hotel Lawrence’s, que se localiza antes da serra. Construído em 1780, é um dos hotéis mais antigos de Portugal e da Europa, e apesar de já ter sido remodelado no interior, a fachada é a original. Sempre serviu a grande aristocracia, e caracteriza-se pela sua fachada amarela e as marcas do passar do tempo. Carlos e Cruges passam pela Lawrence sem lhe dar muita atenção, partindo em direcção a Seteais, pois o maestro não conhecia Sintra muito bem e recordava-se apenas da imponência do palácio. Carlos recebe então um indício da aproximação da mulher que procura: ouve uma flauta, que o leva a pensar que Castro Gomes (suposto marido de Maria Eduarda, que toca esse instrumento) está perto. Passam pela cascata dos pisões, coberta de eras e musgos, e numa nuvem de pó (as estradas não eram cimentadas) aparece Tomás de Alencar, o poeta romântico que fora amigo de Pedro da Maia, pai de Carlos, e que acede a regressar a Seteais com eles, recordando os tempos lá passados (‘E os ais que soltei ali / Não foram sete mas mil!’). Na mesma estrada, em direcção ao palácio, pode observar-se a Quinta do Relógio, antiga residência favorita do rei D. Carlos, agora particular e em remodelação; e a recente Quinta da Regaleira, construída em 1900, que transmite a corrente do Revivalismo, conjuga diversas correntes, como os estilos arquitectónicos manuelino, gótico e barroco, entre outros, e é provida de um intenso carácter esotérico e mítico.

Ao chegarem a Seteais (construído no século XVIII), Cruges sente-se desiludido com o que observa, mas Alencar começa a contar histórias e a recitar poemas que logo revitalizam a beleza de Sintra. Diz este: ‘… tudo em Sintra é divino. Não há cantinho que não seja um poema…’. Alencar, cerca de cinquenta anos, é ultra-romântico, ou seja, representa um tipo de romantismo levado ao extremo, exacerbado, radical, cujo oposto na obra é João da Ega, representante do ultra-realismo, uma iniciação ao Naturalismo. Apesar de opostos e contrastantes, Alencar e Ega mantém uma forte amizade. Carlos, Alencar e Cruges são abordados por burriqueiros, homens que levam as pessoas de burro até ao Palácio da Pena, mas decidem partir primeiro para a Lawrence, Carlos decidido a perguntar por aquela mulher e Cruges decidido a conhecer o tão famoso hotel.

Carlos recebe novos indícios da aproximação de Maria Eduarda: ao perguntar aos burriqueiros que estavam junto à Lawrence por uma família com as características pretendidas, recebe indicações de que uma senhora alta, com um sujeito de barba preta e uma cadelinha, se tinham dirigido à Pena. Ao decidir seguir caminho para o palácio, avista a família da qual os burriqueiros lhe tinham falado: ‘Era, com efeito, um sujeito de barba preta (…); e, ao lado dele, uma matrona enorme (…) e o cãozinho felpudo ao colo’. Mas não era ela. Abandonando os amigos, Carlos questiona o criado do hotel, que lhe diz que ‘… o Sr. Salcede e os senhores Castro Gomes tinham partido na véspera para Mafra…’, e de lá para Lisboa. O criado concede-lhe mais informações, como o facto de ter sido Maria Eduarda a apresar a partida, devido à preocupação com a filha, que ficara em Lisboa. Carlos cai num conflito interior, num monólogo que o leva a colocar questões e a arrepender-se de ter viajado para Sintra apenas no intuito de encontrar uma mulher que desconhecia, mas por quem parecia estar apaixonado. Sente-se frustrado, toma consciência da decadência para que está a ser arrastado por aquela paixão misteriosa: só a vira uma vez, não a encontrara em Lisboa, ‘e ele ali ficava, com aquele olhar no coração, perturbado todo o ser, orientando surdamente os seus pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua vida interior, por uma adorável desconhecida…’. Diz ainda: ‘… a brilhante deusa era também uma boa mamã’, o que o faz gostar ainda mais dela, sublimá-la.

Alencar e Cruges encontram Carlos perdido nos seus pensamentos, e decidem jantar na Lawrence antes de partirem todos para Lisboa. O poeta manda preparar o bacalhau à Alencar. Dirigem-se ao Nunes para pagar a conta, e reencontram Eusébio e Palma com as duas espanholas, a jogar à bisca. O jogo era um passatempo tipicamente burguês, como forma de simbolizar a ociosidade e o individualismo da sociedade. Às nove horas, ao luar, Alencar, Carlos e Cruges entram no break e partem em direcção a Lisboa. Carlos sente-se frustrado por não a ter encontrado, por ela ter partido mesmo a tempo de não se encontrarem. Alencar é o único que parece algo contente, recitando poesia; e Cruges lembra-se, repentinamente: ‘Esqueceram-me as queijadas!’.

A nós não, as queijadas de Sintra não escaparam. O percurso percorrido por Carlos e Cruges, desde o palácio da vila até Seteais, é marcado por uma subida inclinada em direcção à serra, com o Palácio da Pena como guia, no centro da vegetação que concede à vila um ar puro reconfortante em relação à cidade. A viagem circular empreendida, desde Lisboa a Sintra, e até ao regresso a Lisboa, simboliza o ciclo vicioso da vida, o eterno retorno, a impossibilidade de percorrer um caminho que não está escrito no destino, como Carlos encontrar Maria Eduarda em Sintra. Com um guia do percurso que parecia literalmente a reencarnação de Eça de Queiroz, sabendo na ponta da língua toda e qualquer frase da obra, a viagem a Sintra foi fundamental para a compreensão do capítulo VIII e um complemento à leitura do romance.

VISITA GUIADA: Dr. José Manuel Gonçalves, C. M. Sintra.

the biggest movie event of the year

This is the biggest movie event of the year because this is the biggest movie event of the year. Disse-o Sid Ganis, Presidente da Academia, e é opinião unânime. Um espectáculo sem igual, que junta as maiores estrelas da actualidade e premeia as que mais se destacaram no ano anterior. Desta vez, a 22 de Fevereiro de 2009, a 81ª Cerimónia dos Óscares da Academia contou com o glamour habitual e muito mais: um novo formato de apresentação de vencedores, um novo apresentador que canta e dança, e um filme que arrebatou oito estatuetas numa noite recheada de emoções. Sem dúvida, uma das melhores cerimónias dos últimos anos. Aqui falarei apenas das principais categorias, pois a esta hora o mais provável é toda a gente já ter consigo uma lista completa dos vencedores da noite.

Primeiro a Red Carpet no canal E! (75 da powerbox), e ver a chegada de actores e realizadores ao Kodak Theatre, em Los Angeles, com a passadeira vermelha a receber vestidos de todas as cores e feitios. Depois a cerimónia integral na TVI, não fosse a TV Cabo dar o berro cerca das 4 horas da manhã, e ter perdido meia hora de prémios, mas regressou para me permitir ver os principais galardões da noite. Toda a emissão – das 23 horas às 5 horas da madrugada – foi munida dos habituais petiscos nocturnos (leia-se bolachas, fatias de bolo e iogurtes), e acompanhada com a maior expectativa e curiosidade.

Hugh Jackman, eleito o homem mais sexy do mundo, correspondeu e superou as expectativas como apresentador da cerimónia. Ele canta, ele dança, ele corre, ele sorri, ele diz piadas, ele encanta. Melhor do que qualquer comediante dos últimos anos (leia-se Jon Stewart, Ellen Degeneres, e outros da mesma laia), teve uma interpretação refrescante, inovadora, tal como toda a cerimóia proporcionada pela Academia. De destacar o fantástico número musical coreografado pelo fantástico Baz Luhrman, uma grande homenagem aos musicais de Hollywood, com a voz melodiosa de Jackman e a colaboração de Beyoncé. O primeiro acto musical merece também destaque, com a participação especial de Anne Hathaway e o bom humor de Hugh Jackman. Para repetir, sem dúvida alguma.

A cerimónia abriu (ao contrário do habitual) com o prémio de melhor actriz secundária, para Penélope Cruz, pelo seu desempenho em Vicky Cristina Barcelona. Agradeceu emocionadamente, questionando o público: ‘Alguém já desmaiou aqui? Porque eu posso muito bem ser a primeira’. Disse ainda que ficava acordada para ver os prémios da Academia, quando era pequena, e sempre achou que ‘esta cerimónia era um momento de união para todo o mundo’ (nesse aspecto concordamos). Agradeceu depois em espanhol, emocionada com o facto de ser a segunda espanhola (desde Javier Bardem no ano passado) a receber um Óscar pelo seu desempenho. Destronou Viola Davis pelo seu (quase) monólogo em Dúvida, e Marisa Tomei em The Wrestler, uma concorrência que se pode considerar forte.

O Óscar mais esperado da noite, e ainda assim um dos momentos mais aguardados da cerimónia, foi o prémio de melhor actor secundário. Sem questões, foi atribuído a Heath Ledger pelo seu overwhelming desempenho em O Cavaleiro das Trevas. Já ouvimos todo o tipo de críticas da boca do mundo, e vamos continuar a ouvi-las, seja porque Heath só recebeu o prémio por ter falecido no ano passado, ou porque a Academia deve premiar os actores vivos para os incentivar, e não os mortos para os homenagear por uma carreira curta. Whatever, Heath Ledger recebeu o Óscar póstumo e foi mais do que merecido, pelo seu extraordinário Joker no filme de Christopher Nolan. Os pais e a irmã de Ledger receberam o Òscar em seu nome, e alguns actores (como Adrien Brody, Kate Winslet e o casal Brangelina) não conseguiram esconder as lágrimas – destaco o discurso da sua irmã Kate: ‘Ambos sabíamos que o que tu criaste no Joker era extraordinariamente especial, e até falámos sobre estar aqui neste mesmo dia. Quem nos dera que estivesses aqui’. True. Quem nos dera…

Um dos melhores discursos da noite foi o de Dustin Lance Black, argumentista de Milk, que venceu na categoria de melhor argumento original: ‘Ouvi a história de Harvey Milk, e ela deu-me esperança. Deu-me esperança para viver a minha vida. Deu-me esperança para um dia poder viver a minha vida abertamente como sou e talvez até apaixonar-me e um dia casar-me’. Disse ainda que queria agradecer a Milk, e que se ele não tivesse sido assassinado, quereria que Dustin dissesse a todos os homossexuais que eram criaturas bonitas, de valor, e que prometesse que teriam direitos políticos iguais. Um discurso político, verdadeiramente do coração, que demonstra que, mais do que profissional, este prémio teve uma dimensão pessoal, íntima, que toca no fundo. Só tenho a dizer que nos trouxe um grande argumento baseado numa grande história verídica, um verdadeiro manifesto a favor da igualdade de direitos, e só pelo brilhante discurso que nos trouxe merece o prémio que recebeu.

Finalmente, seis nomeações depois (incluindo Titanic), Kate Winslet, a diva, uma das melhores actrizes nos dias de hoje, viu consagrada a sua já brilhante carreira, ao ganhar o tão merecido Óscar de melhor actriz principal, pelo filme O Leitor. Nomeada com actrizes como Meryl Streep e Angelina Jolie – uma forte concorrência –, conseguiu destacar-se, tal como nos BAFTA e nos Globos de Ouro, levando para casa o galardão que lhe parecia fugir das mãos há muitos anos. Pena que o amigo Leonardo DiCaprio não tenha estado lá para ver – e pena que não tenha vencido pelo filme Revolutionary Road, do marido, que parece ter sido esquecido nesta cerimónia. Mas enfim. Agradeceu, uma vez mais (como nos discursos a que nos já habituou este ano), emocionadamente: ‘Ok, Penélope, aquela ideia de desmaiar… Estaria a mentir se dissesse que não fiz uma versão deste discurso antes; penso que tinha cerca de oito anos, e estava a olhar fixamente para o espelho da casa de banho. E isto (elevando a estatueta no ar) seria uma garrafa de shampoo. Bem, isto não é uma garrafa de shampoo agora!’. Agradeceu também ao marido, Sam Mendes, a Sidney Pollack e a Anthony Minghella, ambos falecidos em 2008; e quis reconhecer as restantes nomeadas, ‘estas Deusas. Acho que nenhuma de nós consegue acreditar que está numa categoria com a Meryl Streep. (…) Meryl, vais ter que engolir essa!’. Finalmente, at last. Totalmente merecido.

Nas categorias principais de interpretação, restava a aguardada consagração de Mickey Rourke, o renascido das cinzas, pelo seu papel em The Wrestler. Mas às vezes o destino prega-nos partidas, e decerto foi isso que Mickey pensou quando ouviu o nome do grande Sean Penn ser aclamado no Kodak Theatre, o que marcou a maior surpresa da noite. Pela sua interpretação em Milk, Sean Penn ganhou o segundo Óscar da sua carreira, contrariando a tendência de vitória de Rourke nos BAFTA e nos Globos. Quem o viu em The Wrestler diz que merecia. Quem viu Penn como Milk diz o mesmo (e eu encontro-me nesse grupo). O seu discurso foi ainda mais político e um grande manifesto a favor da homossexualidade: ‘Eu não esperava isto, mas quero que fique bem claro, sei como torno difícil que me apreciem com mais regularidade… (…) Temos de ter direitos iguais para toda a gente. (…). Mickey Rourke eleva-se de novo e é o meu irmão’. Merecido, for sure.

Mais aguardada não podia ser também a consagração de Slumdog Millionaire como o melhor filme do ano, e de Danny Boyle como o melhor realizador, deixando para trás David Fincher e o seu maravilhoso Benjamin Button, grande perdedor da noite (quando tinha 13 nomeações). Boyle afirmou ‘Que bonito espectáculo fizeram. Não sei o que parece na televisão, pessoal, mas na sala, é totalmente fantástico’. Agradeceu e pediu desculpa ao coreógrafo da dança final do filme, que esqueceu nos créditos, e mostrou-se emocionado com o seu primeiro Óscar. Só espero que o facto de ter ganho oito estatuetas não o faça desaparecer, ser esquecido da história do cinema, pois as vitórias não incluíram interpretações, foram na sua maioria categorias técnicas. E porque é um filme bloody wonderful, damn.

Em lugar da habitual apresentação dos vencedores deste ano por parte dos vencedores do ano passado, a Academia decidiu inovar e partilhar os vitoriosos com o público através do aparecimento de cinco anteriores vencedores, que apresentaram os nomeados e desvendaram os mistérios. Para quem dizia que a cerimónia seria mais curta do que as anteriores, devido à falta de popularidade televisiva, o espectáculo estendeu-se bastante, para além das quatro horas e meia habituais. E nós agradecemos, porque foi a melhor cerimónia de Óscares que já vi. Peculiar, refrescante, emotiva, recheada de tudo e de nada. Abençoado Carnaval e respectivas férias, que nos permitiram aguentar a noite inteira sem pregar olho e recuperar do sono esta manhã. Podia ter sido ainda maior, que nós continuaríamos a ver. E tenho de deixar aqui um agradecimento especial a leitores e redactores da revista
Red Carpet que, num chat que durou a madrugada inteira, me acompanharam nesta maratona de Óscares, entre previsões de vencedores e discussões de merecimentos ou não. Para repetir em 2010, sem dúvida. Tudo.

Em nome da LIBERDADE

A Revolução de 1820 revelou-se inevitável face à situação política, económica e social do reino no século XIX: as invasões francesas, a dominação inglesa, a permanência do rei no Brasil, a elevação da principal colónia a reino, o tratado de comércio com Inglaterra, a abertura dos portos brasileiros ao comércio internacional, a decadência da indústria e a grave crise financeira que o país atravessava, bem como a organização anacrónica da sociedade, nas vésperas da revolução, favoreceram o desfecho da situação. Todos estes factores levaram ao descontentamento geral e ao consequente movimento liberal.

A Revolução de 1820 e o vintismo instalaram o liberalismo constitucional em Portugal, pela primeira vez, na primeira metade do século XIX. Foi um movimento revolucionário, progressista, e registou uma evolução da mentalidade da época. Apesar de o liberalismo ter enfrentado algumas dificuldades para se afirmar e consolidar no reino, com as tentativas de regresso ao absolutismo e a guerra civil entre absolutistas e liberais, o vintismo exerceu uma influência revolucionária, particularmente a nível político, que prevaleceu sobre o tempo e sobre qualquer tirania.

Encontram-se semelhanças entre a situação política (conjuntura) anterior à revolução de 1820 e à revolução do 25 de Abril de 1974. No século XIX, em Portugal, o governo – na altura liderado por Beresford e pelo exército britânico – exercia sobre a Nação uma autoridade repressiva, num regime ditatorial, tal como António de Oliveira Salazar actuou durante os cerca de quarenta anos que durou o Estado Novo. Outros factores condicionaram a situação do país e favoreceram ambas as revoluções, mas tiveram este facto como ponto de partida para uma revolta política. Ambas, igualmente, tiveram um carácter militar: foram pronunciamentos do exército que, observando o descontentamento geral e a opressão do povo, decidiu actuar pela sua libertação. Em 1820, os liberais vintistas fizeram-no pela primeira vez, acabando com o Antigo Regime e consolidando os princípios iluministas que tinham proliferado pela Europa. Em 1974, o exército voltou a fazê-lo, restituindo as liberdades de expressão, de consciência, e a igualdade a todos os portugueses. Noutro aspecto coincidem: a pacificidade – nenhuma delas pretendeu atingir a liberdade através da força, não havendo derramamento de sangue.

Na sequência da revolução liberal, as Cortes redigiram uma Constituição que garantia as liberdades da Nação e consagrava os princípios fundamentais do liberalismo; e o mesmo aconteceu após o 25 de Abril de 1974 – foi redigida a Constituição da República Portuguesa de 1976. Embora num contexto republicano (e não monárquico), esta Constituição (que está actualmente em vigor em Portugal) recuperou os princípios liberais do vintismo, restaurando a liberdade em Portugal. Como refere o seu próprio preâmbulo, «A Revolução restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais.». Estes princípios são, hoje em dia, considerados vulgares, indubitáveis, aceites como válidos, e inalienáveis à condição humana (numa perspectiva ainda mais democrática do que na época da Revolução de 1820), algo que, antes do século XVIII, seria totalmente impensável. A revolução liberal foi, então, fundamental para a consolidação do liberalismo em Portugal, e sem dúvida um ponto de viragem na nossa história.

O 'rafeiro' milionário - Slumdog Millionaire

Jamal Malik está a uma pergunta de ganhar vinte milhões de rupias. Como conseguiu chegar até ali? A: Sorte; B: Batota; C: Inteligência; ou D: Destino? O apresentador da versão indiana de Quem Quer ser Milionário? acredita na hipótese B:, e Jamal é levado pela polícia por suspeita de fraude. De modo a justificar o facto de saber responder a todas as perguntas que acertou, Jamal começa a contar a história da sua vida: como ficou órfão, sozinho com o irmão; como conheceu Latika e se apaixonou por ela; como foi parar àquele programa e porque ali está. Jamal, dezoito anos, estava a poucas horas de se tornar milionário. E a única coisa que lhe interessava era encontrar a rapariga que amara e perdera.

Jamal não teve uma vida fácil; cresceu nos bairros de lata de Bombaim, e após a morte da mãe, fugiu com Salim, o seu irmão mais velho, para conseguirem sobreviver. Conheceram Latika, uma criança igualmente órfã, e juntos tornaram-se os três mosqueteiros, inspirados no livro de Alexandre Dumas. Foram obrigados a crescer depressa, a aprender a viver mais cedo do que o normal. Por força do destino, Jamal e Salim acabaram por partir e deixar Latika para trás, voltando a reencontrá-la uns anos depois. Dessa vez, foi Jamal quem abandonou a companhia de Salim e Latika, encontrando-se agora, com dezoito anos, a trabalhar como assistente num call centre. É através do sistema informático que reencontra Salim, na esperança de voltar a ver Latika. E inscreve-se no concurso de modo a conseguir ficar com ela, pois sabia que ela estaria a ver. E estava mesmo.

Salim e Jamal eram duas pessoas completamente diferentes. Criados no mesmo meio, sobreviventes das mesmas guerras e situações, tornaram-se seres humanos com características totalmente opostas. Jamal era um rapaz simples, tímido, apaixonado, emotivo, determinado. Nunca pretendeu mais do que sobreviver e encontrar Latika, o amor da sua vida. Salim era ganancioso, altivo, controlador. A necessidade de sobrevivência levou-o ao materialismo e ao desprezo do passado. Mas Jamal, Salim e Latika não deixavam de ser os três ‘rafeiros’ de Bombaim, os três amigos que tinham partilhado experiências de vida dramáticas e inesquecíveis. E isso funcionava como um elo interno, inquebrável, que conduziu ao desfecho do enredo.

O romance entre os protagonistas Jamal e Latika, brilhantemente interpretados por Dev Patel e Freida Pinto, reúne todas as características de um romance juvenil vulgar, como a impossibilidade de ficarem juntos, a amizade em crianças, as coincidências do destino e a luta pela ultrapassagem de todas as barreiras. Mas consegue conter muito mais do que duas pessoas apaixonadas. As personagens viveram algo que as uniu para sempre, momentos das suas vidas que não conseguiriam esquecer, mesmo que tentassem. Para além de toda a vulgaridade aparente, temos duas pessoas que sobreviveram juntas, que precisavam da companhia da outra para poderem ser felizes, que nunca desistiram de se encontrar. E esse é o ponto alto de um amor que nunca se concretizou até ao momento final do filme, mas que é a base de toda a história.

Alternando entre os momentos mais dramáticos e os mais divertidos da vida de Jamal, o filme é especialmente enérgico e bem-disposto em duas situações específicas protagonizadas pelos dois irmãos. No início do filme, as primeiras gargalhadas espalharam-se pela sala de cinema com a ideia de Jamal, fechado numa casa de banho arcaica em Bombaim, de saltar para dentro de uma poça de dejectos humanos de modo a conseguir um autógrafo do seu actor favorito. A segunda chegou com Salim, depois de ambos terem encontrado, por um acaso, o Taj Mahal, que pensaram ser um hotel, e fingirem-se guias turísticos, inventando histórias e enganando os turistas com informações falsas. Estes momentos, para além de equilibrarem o drama retratado, mostram a realidade do ambiente pobre da Índia em contraste com a Índia turística e histórica.

Torturado e interrogado pelas autoridades, Jamal conta tudo isto ao inspector que lhe vai mostrando, simultaneamente, a gravação do programa do dia anterior, que terminara com a dúvida: irá Jamal atingir os vinte milhões de rupias e ser o primeiro concorrente do Quem Quer ser Milionário? a levar para casa o prémio máximo, quando nenhum outro mais instruído e inteligente o conseguiu? Para cada uma das respostas, Jamal tem uma justificação – de forma impressionante, apercebemo-nos de que a vida daquele jovem, a sua experiência, é a única inteligência e o único conhecimento que tem. Numa realização independente e criativa de Danny Boyle, vamos do presente ao passado num fechar de olhos, através de flashbacks incrivelmente bem construídos, e conhecemos a história de Jamal, o ‘rafeiro milionário’.

O final, embora previsível, encerra uma singularidade digna de Slumdog Millionaire, uma emotividade esperada mas necessária para completar o romance. Jamal caminha pela estação vazia, em direcção a Latika, a única razão de todo o seu sofrimento e da sua nova conta bancária. Um jovem pobre, com um passado dramático, foi a um concurso de televisão, pôs em êxtase milhões de indianos, que pararam nas ruas e em frente aos televisores para verem se conseguiria tornar-se milionário, e encontrou o amor da sua vida. Mas o entretanto, todas as histórias e momentos que levaram a esse desfecho, tornam este Slumdog Millionaire um filme maravilhoso e invulgar. E a banda sonora de A.R. Rahman, nomeada e provável vencedora de Óscares, completa a visão oriental que os espectadores devem ter desta grande obra de entretenimento, cujo principal objectivo parece ser obrigar os espectadores a acreditarem no destino. E consegue-o.

Slumdog Millionaire é o oposto dos filmes que estamos habituados a ver e criticar. Não tem nada de convencional ou comercial; pretende apenas entreter e mostrar a realidade da vida nos bairros pobres de uma Índia cada vez mais ocidentalizada. Literalmente, põe ‘tudo a nu’. Conjuga a informalidade e naturalidade de Jamal, um rapaz que sempre lutou para sobreviver, com a modernidade e popularidade de Quem Quer ser Milionário?, um concurso televisivo conhecido por milhões de pessoas, em todas as partes do mundo, e com um impacto invulgar (pelo menos a nível nacional) sempre que um concorrente está numa maré de sorte. Apetece entrar no jogo e estar no lugar de Jamal, na cadeira do programa, prestes a acertar ou errar. Apetece marcar as hipóteses, adivinhar as respostas e ajudar Jamal a encontrar Latika. Apetece, até, rever os programas apresentados por Jorge Gabriel e descobrir se, entre os concorrentes, por detrás de cada rosto, não existe uma história fantástica como a de Jamal para contar ao mundo.

Num ritmo intenso e cativante, Danny Boyle leva-nos através de uma história original e emocionante, que constitui um filme maravilhoso e verdadeiramente arrebatador. Maioritariamente falado em indiano, não deixa de ser um filme ocidental e hollywoodesco, embora seja uma verdadeira pérola de criatividade e magia. E a língua natural dá-lhe um carácter mais real e autêntico. Um elenco desconhecido e um realizador europeu acabaram por criar um dos melhores filmes deste início de ano, incomparável a todos os outros, que se encontra nomeado para dez categorias nos Óscares, e é um provável candidato à vitória. Quem diria?

D: It’s written. É o destino.

As frases:
- When somebody asks me a question, I tell them the answer.
- Maybe it's written.

Desejo de mudança - Revolutionary Road

Nos anos 50, April e Frank Wheeler são um casal modelo para a vizinhança, que os considera especiais. Dois filhos, um casamento de revista, um marido que trabalha na cidade e sustenta a família, e uma mulher que fica em casa a tratar das lides domésticas. Mas não são um casal especial, nem feliz. Pelo contrário. Ambos abandonaram os sonhos que tinham para seguirem o que estava correcto, o que todas as outras pessoas faziam: casar, ter filhos e assentar, ainda que isso significasse um emprego que não agradava a Frank e uma cada vez maior incompatibilidade entre eles. Numa rotina que os levava a discussões constantes, April e Frank decidem partir para Paris e começar uma vida nova, na qual April trabalharia para sustentar a família e Frank teria tempo para descobrir o que queria fazer. A proposta irrealista de April é abalada por uma conjuntura desfavorável à realização do plano: um novo filho está a caminho, e Frank é impelido pela sociedade da época a permanecer no conformismo e assumir o papel de trabalhador na família. Contudo, April continua a desejar uma mudança, algo que a faça, de novo, querer viver.

Não há muitos filmes como este. Consome-nos por dentro, faz-nos querer abandonar a sala ao primeiro aviso, à primeira discussão, ao primeiro indício de que será difícil aguentar, uma vez intrometidos no drama. Mas não conseguimos fazê-lo, por mais que tentemos escapar; sentimos necessidade de aguentar até ao fim e torcer por Frank e April, pela consolidação da mudança tão desejada por ambos, pela felicidade daquela família que parece à beira da ruína, porque nos afeiçoamos a eles. É um filme perturbador, sufocante, particularmente nas discussões entre os protagonistas, num ritmo alucinante, durante as quais levamos o nosso olhar a um, depois a outro, e assim sucessivamente, tentando encontrar um equilíbrio entre eles. Essa foi a grande falha naquele casamento: Frank e April não conseguiram encontrar um equilíbrio entre o que ela queria e o que ele queria, entre o que estava correcto e o que estava errado, entre o que era real e o que não o era. Como April refere a certa altura, caíram na mesma ridícula ilusão de que tinham de se conformar naquela vida a partir do momento em que os filhos nasciam. E a rotina deu cabo deles. A rotina e o facto de ambos, em especial April, quererem quebrá-la a todo o custo.

Frank e April amavam-se. Há quem diga que não tinham muito em comum – os seus ideais de vida eram bastante diferentes. Mas amavam-se, e isso devia ser suficiente. Em contrapartida, o casal vizinho e amigo, os Campbell, invejavam a sua felicidade modelo. Shep, marido de Milly, gostava de April desde sempre, mas tanto ele como a esposa se adaptaram à rotina, às regras da sociedade, a uma vida monótona e sem significado. E sobreviveram aos desejos de mudança, de recomeço. Sobreviveram e, provavelmente, conseguiram ser felizes. Os Wheeler não.

A sociedade e a época também não ajudaram. Frank sentia que, como homem de família, tinha de trabalhar para sustentar April e os filhos, e isso implicava cometer o mesmo erro que o pai cometera e acabar por fazer algo que odiava. A proposta de April, a mudança para Paris, deu-lhe algum alento, mas depressa se apercebeu de que seria impossível concretizá-la. Não podia ser sustentado pela mulher e ficar em casa sem fazer nada. Ainda por mais, tinha sido promovido no emprego, e receberia um salário mais confortável. Por seu lado, a ideia de mudar de lugar, fosse para Paris ou qualquer outra cidade, significava para April um recomeço, uma nova oportunidade para seguir os seus sonhos e, especialmente, para Frank seguir os seus, o que a faria ainda mais feliz. Quando as coisas não correram como planeado, a necessidade de mudar manteve-se lá dentro, escondida, e a pressão da rotina era simplesmente demasiada.

Os Wheeler precisavam urgentemente de uma mudança, e procuraram-na fora do casamento. Frank teve um caso amoroso com uma secretária, no emprego, e April deixou-se levar por Shep. É curioso observar o arrependimento de Frank ao chegar a casa, após ter estado com Maureen, e ser surpreendido por April e os filhos a fazerem-lhe uma festa de anos casual e acolhedora. Tudo o que acontecera naquela tarde, aquela tão desejada fuga à rotina, acabou por servir apenas para se sentir mal consigo próprio por ter traído a família, por ter tentado fugir dos problemas em lugar de os tentar resolver ou, neste caso, ignorar, como April fizera. April tentava apenas remediar tudo o que estava a acontecer entre eles; tentava fazer com que sobressaísse o amor existente entre eles, e não os pontos em que discordavam.

Neste contexto aparece uma personagem, John Givings, um homem que está internado num instituto psiquiátrico e se assume como voz do subconsciente, que diz tudo o que há para dizer mas não deve ser dito. É, entre eles, o homem mais são, mais puro, que retira a cortina e descobre a verdade, os problemas do casal e as suas aspirações. Provocou alguns risos na assistência, mas todas as suas palavras foram encaradas por April e Frank de forma pesada e incrédula. Afinal de contas, John parecia conhecê-los melhor do que eles próprios, e isso punha tudo a limpo e assustava-os.

Uma das cenas mais intrigantes do filme é o pequeno-almoço entre April e Frank, após a maior discussão que tiveram durante toda a película. April afirmara que odiava Frank, que precisava de pensar, que não sabia o que fazer. Frank tentara falar com ela, mas preferira deixá-la em paz e esperar. Só no dia seguinte, naquela derradeira manhã, voltam a trocar palavras. E April age como se nada fosse, como se estivesse tudo bem entre eles. Tomaram um pequeno-almoço perfeitamente normal, como uma família feliz; conversaram sobre a nova função de Frank no emprego e April disse-lhe, à saída, que não o odiava, como dissera antes. Conseguimos até ouvir um silencioso «I love you» entre eles. E afinal tudo não passava de uma ilusão. April continuava com um desejo incrível de mudar, e Frank nem sequer se apercebeu disso. Nem nós, espectadores.

É realmente um filme fantástico. Singelo, sem esforços para ser bonito, real, tratado com a naturalidade necessária. Quase terrível. Trágico, quase como nas tragédias clássicas, com alguns momentos mais subtis, incluindo a cena final. Sam Mendes fez um trabalho louvável com uma história que, à partida, não tem muito para dar numa adaptação cinematográfica. Adaptou com precisão o romance de Richard Yates, captando a sensibilidade dramática da história. Criou um filme que tem tanto de belo como de monstruoso, e através de uma reconstrução épica fiel e exacta, realizou um dos melhores filmes do ano, até agora.

Para o conseguir, contou com a colaboração de dois dos melhores actores da actualidade, a sua esposa, Kate Winslet, e Leonardo DiCaprio. Amigos de longa data, com uma relação fantástica na vida real e uma química estrondosa no grande ecrã, deixaram para trás qualquer ligação a Titanic, desta vez num registo ainda mais dramático e sincero. Kate e Leo são ambos perfeitos para os papéis. Eles fazem o filme, sem tirar nem pôr. Conseguem criar um ambiente mundano à volta das personagens, uma atmosfera de tensão e, ao mesmo tempo, de grande afeição entre Frank e April. Toda a história se baseia na relação entre eles, nas suas expressões, nas suas discussões e momentos de esperança. Sem eles, não teríamos o Revolutionary Road que temos. De destacar ainda Michael Shannon no papel de John Givings, que conseguiu uma nomeação para os Óscares. De resto, o filme de Sam Mendes foi esquecido pela Academia, tal como o seu brilhante realizador e os seus grandes protagonistas. É pena, porque merecia muito mais. E Kate Winslet tinha razão ao dizer, no seu discurso de agradecimento pelo Globo de Ouro ganho sobre este filme, que DiCaprio merecia igualmente um prémio pela sua interpretação. São ambos espantosos.

Thomas Newman fez também um excelente trabalho com a banda sonora, harmoniosa e, ao mesmo tempo, provocante. Começando por retratar, de uma forma muito breve, a primeira troca de olhares entre April e Frank, e a sua primeira conversa, Sam Mendes constrói o filme mostrando a sua relação sete anos após o casamento, com alguns flashbacks ao passado, que podiam ter sido prolongados por todo o filme, mas que se ficaram pela primeira parte. É o único pormenor que há a criticar.

Revolutionary Road é um filme sobre as relações humanas, o casamento, o desespero, o amor, homens e mulheres, a vida, a sociedade dos anos 50, a rotina e a necessidade de mudança, de algo novo. April e Frank Wheeler precisavam de uma revolução nas suas vidas, na sua relação, como indicava o nome da estrada onde viviam. Ao longo de duas horas, tentamos ajudá-los e incentivá-los a encontrar essa mudança, a encontrar uma forma de melhorar as coisas e encontrar a felicidade onde ela parecia não existir mais. Um drama intenso com muito mais do que um simples homem e uma simples mulher a tentarem sobreviver a uma relação. Um filme para pensar e repensar; para ponderar e mastigar. Um filme para relembrar, quanto mais não seja porque serve de lição e de exemplo para todas as relações humanas: por um lado, não queremos que algo semelhante nos aconteça, e o filme serve de modelo negativo; por outro lado, é um exemplo de algo que pode acontecer numa relação, e alerta para a rotina criada entre duas pessoas. Um filme para não esquecer.

O melhor: Kate e Leo, Sam Mendes, e a complexidade da história
O pior: o cessar dos flashbacks, a uma certa altura do filme, e a tragédia que sentimos quando abandonamos a sala de cinema

As frases:
- Hopeless emptiness. Now you've said it. Plenty of people are onto the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness.
- We can be happy here. I can make you happy here.
- Look at us. We’re just like everyone else. We got into the same ridiculous delusion, this idea that you have to settle down and resign from life.

O Poder da JUSTIÇA

A justiça portuguesa é um tema de grande controvérsia. Processos arquivados precocemente, outros arrastados por muito tempo e sem resolução à vista. Falta de provas e excesso de testemunhas, que muitas vezes não dizem a verdade. Ou seja, demasiadas acusações e pouco tempo para as processar; demasiados julgamentos e poucos meios para fechar os casos. As coisas não funcionam tão rápida e eficazmente como nos filmes e séries, nem correm sempre de forma tão organizada e favorável às partes envolvidas. Em Portugal e no mundo real, os tribunais fazem os possíveis para dar conta de todos os processos judiciais, mas a burocracia e o exagero de processos tendem a complicar a tarefa dos funcionários. O Tribunal de Sintra é um desses locais, onde se procura exercer o mais correctamente possível a autoridade judicial da nação. O lema DOMVS IVSTITIAE ilustra a frente do edifício moderno. Lá dentro, faz-se justiça. Ou, pelo menos, tenta-se.

O Tribunal de Sintra é um edifício imponente no qual se tratam todo o tipo de processos, nomeadamente infracções criminais e cíveis. Os processos judiciais são guardados em papel, embutidos dentro de dossiers e organizados em grandes prateleiras, aos milhares, nos escritórios dos funcionários do tribunal. Alguns deles estão a ser julgados naquele preciso momento, outros tiveram uma sorte diferente e estão arquivados ou já fechados por meio de acordo. Qualquer pessoa pode entrar num tribunal e assistir a um julgamento, desde que este esteja a decorrer à porta aberta, e desde que avise na recepção para que piso e julgamento se dirige. O primeiro piso do Tribunal de Sintra concentra os julgamentos de carácter criminal, como furtos, homicídios ou negligência, mais intensos. É o mais movimentado, onde se reúne uma maior confusão e ruído. No segundo piso, mais calmo, encontram-se os julgamentos do cível, ou seja, de carácter civil, como acções contra empresas, pedido de indemnizações, entre outros.

Assistir a um julgamento – na pele de espectador

Assistir a um julgamento na qualidade de mero espectador é algo que acarreta um certo entusiasmo, não só por se assemelhar, de certa forma, ao que estamos habituados a conhecer através da televisão, mas também porque nos dá uma sensação de presenciamento da justiça nua e crua, mesmo à frente dos nossos olhos. Entramos na sala do tribunal com passos curtos, tentando não produzir um único som que anuncie a nossa presença. Ao entusiasmo junta-se algum nervosismo, quando nos sentamos nas cadeiras de plástico e começamos a observar as pessoas à nossa volta: os dois advogados que vão defender as suas partes, e que já se encontram sentados, um de cada lado, à espera da chegada do juiz que presidirá ao julgamento; e alguns outros indivíduos que entretanto se juntaram na assistência.
Naquele preciso dia, a juíza entrou na sala, e todos os restantes se levantaram num tradicional sinal de respeito. O processo em causa, relativo ao cível, tratava de um pedido de remuneração, por parte de uma empresa de publicidade, a uma mulher já idosa, dona de uma pensão. Segundo se contou, um empregado da empresa dirigiu-se ao estabelecimento, e a indivídua, chamemos-lhe Maria, assinou um contrato de publicidade. A ré afirmou ter percebido que, ao assinar o contrato, estava a rejeitar os serviços daquela empresa, e não o oposto, por isso não pagou o valor devido pelo serviço prestado. A empresa, por conseguinte, processou a dona da pensão, exigindo-lhe cerca de setecentos euros, mais juros e prejuízo. A senhora Maria não aceitou o acordo proposto pela acusação – a primeira tentativa de resolução de um processo é sempre através de um acordo que agrade ambas as partes – e o caso foi então a julgamento.
Antes de começar a ouvir as testemunhas e resolver o processo, a juíza relembrou a ré de que podia sair prejudicada do julgamento, pois não tinha um caso muito consistente e de fácil credibilidade nas testemunhas. Afinal de contas, o contrato continha a sua assinatura, e a sua única defesa aparente – desconhecendo testemunhas e outros factos – era a sua palavra. A juíza, a quem todos se dirigem por ‘Senhora Doutora Meritíssima’, tentou ser imparcial no aviso que deu à ré, que continuou a afirmar não ter o dinheiro necessário para pagar à empresa. Numa última tentativa de chegar a acordo, o advogado de acusação propôs um valor a pagar mais baixo do que o já referido, e abandonou a sala para efectuar um contacto telefónico com o seu constituinte, ausente do tribunal, de modo a discutir o valor proposto.
O advogado de defesa rodava cuidadosamente a aliança que tinha no dedo, nervoso e ansioso quanto ao resultado daquela conversação de última hora, em lugar do julgamento. Quando regressou com a aprovação do seu constituinte e voltou a propor o valor mais razoável à ré, e enquanto esperava uma resposta definitiva da defesa, o advogado de acusação abanava distraidamente o pulso para conseguir destapar o relógio e ver as horas, um pouco impaciente com a indecisão da senhora Maria. A própria juíza queria uma decisão final, para saber se as partes conseguiam ou não chegar a um acordo; para saber se tinham ou não de ir a julgamento, como estava previsto.
A ré acabou com a indecisão e propôs uma ideia à acusação, que aceitou sem demoras. Pagaria os mil duzentos e cinquenta euros, o valor mais baixo proposto pela empresa de publicidade, em cinco prestações mensais de duzentos e cinquenta euros. Chegando assim a um acordo, o julgamento não foi realizado; a juíza abandonou a sala, após redigir o veredicto final – de novo o ritual ‘levantar, sentar’ -; os advogados tiraram as batinas pretas que tinham vestidas; e o auditório dispersou-se pelo tribunal.
Nunca se saberá a verdade. É o que acontece, muitas vezes, quando são feitos acordos: a verdade pode não ser totalmente desvendada. Neste caso específico, a senhora Maria não parecia a pessoa mais inocente do mundo; tinha um ar nervoso, triste, mas também um pouco astuto. Pode ser apenas uma suposição, mas era o que aparentava. Uma vez mais, digo-o: nunca se saberá a verdade. Podia ser inocente ou culpada. A única coisa que sabemos é que aceitou o acordo, e que assim se fechou um dos muitos processos do Tribunal de Sintra.

Julgar um processo – na pele de juiz

Não é fácil ser-se juiz. Primeiro, tem de se ser imparcial, ainda que se tenha uma opinião formada anteriormente, acerca de um processo ou assunto específico. Tem de se ouvir as partes, as testemunhas, os réus, os advogados, os argumentos e os factos, para se poder julgar. É assim em tudo, não só nos tribunais. Depois, um juiz tem cerca de quatro mil processos acumulados para julgar. Só consegue atender dois a três por dia, e por dia entram também vinte a trinta novos processos. Para além de julgamentos, ainda tem outras responsabilidades, e perde algum do seu tempo a ler e reler os processos que tem a tratar. É impossível dar conta de todos. Quem o diz é uma das muitas juízas do Tribunal de Sintra.
Com pouco mais de trinta anos, a Senhora Doutora Meritíssima Joana (chamemos-lhe assim) é já uma juíza importante e respeitada no tribunal. Presidiu o julgamento que assistimos, de carácter cível, simpática com a assistência, imparcial e atenta às conversações das duas partes. Um juiz não pode ter uma grande vida própria – é a doutora que o diz -, pois não trabalha apenas durante o horário laboral. Muitas vezes, tem de levar trabalho para casa, passar horas e horas de volta de processos, e não lhe resta muito tempo para outras coisas. Tem de gostar realmente do que faz, pois ser-se juiz é um compromisso, é uma forma de ter autoridade para julgar pessoas e situações, e um juiz precisa obrigatoriamente, para além da competência necessária, de assumir a responsabilidade que a função acarreta.

O sistema judicial português está ainda atrasado e é constantemente alvo das mais diversas críticas. Em Portugal, diz a senhora juíza, há falta de juízes; os processos pendentes existem em grande número, e são necessários muitos e bons advogados que se preocupem com ‘fazer justiça’. No Tribunal de Sintra, como em todos os outros, tenta-se ao máximo tratar os processos e resolvê-los com o máximo de justeza possível. Afinal de contas, é para isso que servem os tribunais, advogados e juízes: para fazer justiça. E o poder da justiça é exercido da melhor forma que se consegue.

A magia de Benjamin Button

What if I told you that instead of gettin' older, I was gettin' younger than everybody else?


David Fincher já nos habituou a um tipo de cinema memorável, com características próprias e pernas para andar durante muitos anos sem perder a consistência e a magia, como Seven (1995) ou Zodiac (2007). Mas nenhum dos seus filmes se pode comparar a esta história fantástica e bizarra de um homem que vê a vida e o tempo passar ao contrário, argumento escrito por Eric Roth. Baseado num conto de F. Scott Fitzgerald, datado de 1921, O Estranho Caso de Benjamin Button segue a vida de um homem, Benjamin, que nasce velho e começa a rejuvenescer à medida que cresce, ao contrário de todas as outras pessoas. Em 1918, abandonado à nascença pelo pai, é encontrado por uma mulher que o recebe de braços abertos no seio de um lar de terceira idade. Benjamin atravessa uma infância difícil para um homem de cerca de oitenta anos: cresce junto a pessoas idosas, aparentemente iguais a si próprio, e apaixona-se por Daisy, a única criança que é capaz de o ver para além da velhice aparente. À medida que vai crescendo, Benjamin conhece pessoas e perde outras, começa a ficar mais novo e a trabalhar no alto-mar. Passa pela Rússia, onde conhece Elizabeth, o seu primeiro amor, e regressa mais tarde a Nova Orleães para reencontrar Daisy, já uma mulher e bailarina profissional. Acabam por se encontrar a meio, quando têm aparentemente a mesma idade, e vivem um romance que poderia durar para sempre, não fossem as leis da natureza e o estranho caso de Benjamin. Acompanhamos esta história a partir de um diário de Benjamin que Caroline, filha de Daisy, lê à mãe já no século XXI, no dia em que o furacão Katrina destrói Nova Orleães; e da narração do próprio personagem ao longo de todo o filme.

Benjamin Button atravessa a Segunda Guerra Mundial, a ascensão dos Beatles, o início da vida cosmopolita de Nova Iorque, cada vez mais novo mas também mais experiente. Conhece a vida ao contrário, começando por experimentar a velhice a acabando a experimentar ser criança. Brad Pitt interpreta este homem diferente que tem de enfrentar uma vida invulgar, surpreendente enquanto idoso, e encantador e inocente enquanto jovem. Partilha o ecrã com Cate Blanchett no papel de Daisy, numa interpretação segura e profunda. Juntos, protagonizam os momentos mais belos do filme, encontrando uma química que não tinha sido conseguida em Babel (2006). Vivem um amor possível durante aqueles escassos anos em que têm a mesma idade, mas impossível a partir do momento em que ela começa a envelhecer muito e ele a rejuvenescer muito. Por isso, queriam recordar-se um do outro como estavam naquele momento exacto, que talvez tenha sido a única coisa que durou para sempre, através da sua filha Caroline.
A melhor sequência do filme é encontrada na narração de Benjamin do acidente de Daisy, que acabou com a sua carreira de bailarina. Fincher foi buscar uma cadeia de acontecimentos que levaram à ocorrência daquele acidente, na qual se um desses factos se tivesse processado de forma diferente, talvez Daisy não tivesse sido atropelada. De forma genial, entramos na dinâmica do filme e somos absorvidos pelas cores quentes que transmitem a antiguidade da história e pelas belas e tranquilas paisagens que caracterizam as épocas retratadas. De realçar ainda a fantástica caracterização, tanto de Pitt como de Blanchett, que lhes permitiu viver as personagens nas diversas fases das suas vidas e interpretá-las com mais credibilidade; a banda sonora composta por Alexandre Desplat, amena e luminosa, que acompanha todo o filme; e alguns momentos mais leves e alegres, que dão equilíbrio ao drama retratado.

Foi a primeira vez que senti lágrimas prestes a caírem dos meus olhos, a ver um filme, no cinema, numa sala cheia de gente petrificada com o que acabara de ver. Não pela beleza da história ou do filme em si; antes pelo peso afectivo que tem sobre Benjamin e nós próprios, espectadores. A dor de ver partir todas as pessoas à sua volta, de sentir que está a tornar-se numa criança saudável à medida que todos os que ama começam a desaparecer. A dor de abandonar Daisy apenas porque não pode dar uma melhor vida à sua filha, porque não pode envelhecer com ela e morrer com ela; porque acabará por morrer como uma criança e ela merece mais do que isso. A dor de, numa primeira fase, nascer e crescer como uma pessoa idosa e amar Daisy como criança; e, numa segunda fase, morrer como um bebé nos braços de uma Daisy já idosa, não se recordando de toda uma vida que passara e deixara para trás, a não ser quando a olha nos olhos uma última vez.

Cada pessoa verá esta história com olhos diferentes, e sentirá de forma diferente o que ela transmite, pois o que verdadeiramente importa é o que se sente durante a visualização do filme. Mas é do senso comum a sua essência mágica, a profundidade que atinge, a emoção que transmite a cada frame, a cada momento. Não pode ser contado; tem de ser visto para ser acreditado. E a verdade é que acreditamos em tudo o que vemos. Encontramos uma nova forma de encarar a vida e a morte, o envelhecimento e o passar do tempo, como se, em vez de andarem para a frente, os ponteiros do relógio seguissem na direcção contrária. Mas parar, não se consegue parar o tempo.

Durante quase três horas, atravessamos cerca de oitenta anos da vida invulgar de Benjamin Button, praticamente sem darmos por isso, sem querermos que a experiência acabe, tentando ao máximo prolongar aquele momento. É um épico fantasista sobre o amor, a vida e a morte, o destino, os milagres, a diferença, a experiência, a dor, mas consegue ser também uma história real que nos toca bem no fundo. As expectativas eram elevadas, mas este O Estranho Caso de Benjamin Button conseguiu superá-las. É uma obra extraordinária – não só pelo argumento único como pela realização inteligente e serena de Fincher – que ficará para a história e se tornará, sem dúvida, num clássico do cinema. É intenso, mágico, brilhante, perfeito, único, em todos os aspectos. Não resta nada para dizer, senão que há coisas que duram para sempre, e este filme é uma delas.

O melhor: A magia e originalidade da história, a perfeição da sequência narrativa e um Brad Pitt versátil.
O pior: Ter apenas três horas de duração... As diferentes etapas da vida de Benjamin foram perfeitamente colocadas na linha temporal do filme, mas se ocupassem mais tempo, a experiência seria mais longa…

As frases:

- We're meant to lose the people we love. How else would we know how important they are to us?
- You never know what's comin' for ya.
- Our lives are defined by opportunities, even the ones we miss.
- I hope you live a life you're proud of. If you find that you're not, I hope you have the strength to start all over again.
- I was thinking how nothing lasts, and what a shame that is.

Globos de Ouro 2009

Numa gélida madrugada de lua cheia, 11 de Janeiro de 2009, cerca da uma hora da manhã em Portugal, dirigimo-nos uma vez mais para o aconchegante sofazinho da sala, com o habitual pacote de bolachinhas e o copinho de sumo a acompanhar, e ligámos a televisão para assistir em directo à 66ª Cerimónia dos Globos de Ouro. O sono desvaneceu-se no minuto em que colocámos os olhos na caixinha mágica e começámos a avistar o alinhamento das estrelas no céu de Los Angeles – os nomes sucederam-se na passadeira vermelha, entrando calmamente no Beverly Hilton Hotel, que albergou uma vez mais a cerimónia. E nós entrámos com eles, para não perdermos pitada daquela noite sempre recheada de surpresas e emoções fortes.
Os Globos de Ouro são conhecidos como uma antevisão dos mais altos prémios da indústria de Hollywood, os chamados Óscares da Academia, embora premeiem também as séries ou filmes para televisão, não incluam as categorias técnicas, e nem sempre correspondam às nomeações e vencedores dessa outra Cerimónia. Os galardões são entregues a filmes, séries, realizadores, argumentistas e actores pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, que os escolhe de entre todas as produções estreadas ou continuadas no decurso do ano anterior, neste caso 2008. Há um ano atrás, a greve de argumentistas que assolou a maioria das produções nos Estados Unidos da América provocou a paragem de inúmeras filmagens, e fez com que a Cerimónia dos Globos de Ouro de 2008 fosse substituída por uma simples conferência de imprensa a anunciar os vencedores. Em 2009, tal situação não se repetiu. Os Globos de Ouro foram transmitidos em cerca de 140 países, vistos por milhões de pessoas por todo o mundo, e voltaram a consagrar produções que ficarão, a partir do momento, para a história do cinema.
A série John Adams, produzida por Tom Hanks, foi a série televisiva vencedora da noite, com quatro Globos de Ouro – Melhor Actor Secundário numa série, mini-série ou filme para televisão (Tom Wilkinson); Melhor mini-série ou filme para televisão; Melhor Actriz Principal numa mini-série ou filme para televisão (Laura Linney); e Melhor Actor Principal numa mini-série ou filme para televisão (Paul Giamatti). Seguiu-se a série 30 Rock, com três Globos de Ouro – Melhores Actores Principais numa série de televisão musical ou comédia (Tina Fey e Alec Baldwin) e Melhor série Musical ou Comédia. O prémio de Melhor Série de Drama foi entregue a Mad Men.
Nas categorias relativas ao cinema puro e duro, a actriz britânica Kate Winslet foi a grande vencedora da noite, com a consagração da sua ainda jovem mais muito prometedora carreira. Venceu os dois Globos de Ouro para os quais estava nomeada, Melhor Actriz Secundária, por The Reader, e Melhor Actriz Principal em Drama, por Revolutionary Road, fazendo história ao arrebatar as duas categorias femininas de interpretação, algo que nunca acontecera antes. Ambos os seus discursos foram emocionantes. Mostrou-se quase chocada por ganhar o primeiro prémio, pois não estava “habituada a ganhar estas coisas”, apenas a ser nomeada e perder, e mostrou o Globo de Ouro aos filhos que estavam em casa, dizendo “Look, I’ve won!”. No segundo agradecimento pediu até desculpa às restantes nomeadas, entre as quais Angelina Jolie e Meryl Streep, e agradeceu ao marido e realizador do filme, Sam Mendes, com quem trabalhou pela primeira vez: “Every second working with you makes me love you even more”, e ao amigo e par romântico na tela, pela segunda vez desde Titanic, Leonardo DiCaprio: “I love you with all my heart, for thirteen years…”. É caso para dizer: Finalmente. Já estava na hora de premiar alguém com um talento tão incrível como Kate Winslet. As lágrimas e toda a emoção sentidas por ela trespassaram pela televisão até às nossas casas. Parabéns, Kate.
Em relação aos restantes prémios de interpretação, Sally Hawkins levou para casa o Globo de Ouro de Melhor Actriz em Musical ou Comédia, pelo filme Happy-Go-Lucky; Colin Farrel recebeu o galardão do mesmo prémio masculino, por Em Bruges; e Mickey Rourke, renascido das cinzas, venceu na categoria de Melhor Actor Principal em Drama, pelo filme The Wrestler. Uma palavra especial para Heath Ledger, que recebeu, a título póstumo, o Globo de Ouro de Melhor Actor Secundário: a especulação e a onda de solidariedade geradas à volta do seu precoce falecimento, em Janeiro de 2008, podem ter contribuído para um olhar mais atento à sua última interpretação e talvez a uma falsa preferência pela sua figura no que respeita à entrega de prémios. Mas a verdade é que a sua interpretação do vilão Joker, no filme O Cavaleiro das Trevas, é para lá de fantástica, genial, doentia – é simplesmente fabulosa, e apaga na totalidade qualquer outro actor que tenha participado no filme ou em versões anteriores da saga Batman. O Globo de Ouro é mais do que merecido, só é pena que ele já não esteja entre nós para ver o resultado do filme, receber o prémio e ver consagrada a sua curta mas excelente carreira. Christopher Nolan, realizador do filme, recebeu o galardão em seu nome, numa “mistura de tristeza e orgulho”, afirmando que se vai sentir “eternamente a sua falta” e que Ledger “nunca será esquecido”. A sua memória foi aplaudida emocionadamente de pé, observando-se alguns rostos entristecidos. Onde quer que estejas, Heath, o Globo de Ouro já o tens na mão; agora aguardamos o tão merecido Óscar.
O Melhor filme de Animação foi Wall-E, e o Melhor filme de Língua Estrangeira foi a produção israelita Valsa com Bashir, que superou o aclamado Gomorra de Itália. Bruce Springsteen venceu Melhor Música Original, com a canção The Wrestler, do filme com o mesmo nome. O mais recente filme do realizador Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona, foi premiado com o Globo de Ouro de Melhor filme Musical ou Comédia, superando Destruir depois de ler e o afamado Mamma Mia. Apenas Penélope Cruz esteve lá para o receber, já que o restante elenco se encontrava ausente e Woody Allen, uma vez mais, preferiu não dar mostras da sua existência. Diz-se que é por ser tímido e acreditar que realizar filmes se deve fazer por gosto e não para ganhar prémios. De qualquer forma, parabéns Woody. Decerto foi merecido, com os inúmeros filmes excelentes a que já nos habituou.
O outro grande vencedor da noite, a par da grande Kate, foi Slumdog Millionaire, de Danny Boyle, realizador inglês, um filme que conta com um elenco principal constituído por actores indianos totalmente desconhecidos do grande público. Venceu nas quatro categorias para as quais estava nomeado, quatro das mais importantes da Cerimónia: Melhor Argumento (Simon Beaufoy); Melhor Banda Sonora Original (A. R. Rahman); Melhor Realizador (Danny Boyle) e Melhor filme Drama, a par de grandes nomes como O Estranho Caso de Benjamin Button, Frost/Nixon e Revolutionary Road. Essas grandes produções – que encerram nomes como o fantástico David Fincher, Sam Mendes, Ron Howard, e Sidney Pollack e Anthony Minghella como produtores de The Reader, ambos falecidos em 2008 –, acabaram por ser as grandes derrotadas da noite, em especial o aclamado filme de Brad Pitt e Cate Blanchett, que ficou a zeros, e as duas produções de Clint Eastwood neste ano, A Troca e Gran Torino, que não conseguiram premiar Angelina Jolie pelo seu excelente desempenho e o próprio realizador pela banda sonora que compôs. É pena, mas nem todos podem sair vencedores.
Quem também saiu com um Globo de Ouro na mão foi o prestigiado realizador e produtor Steven Spielberg, que recebeu o prémio Cecil B. DeMille das mãos do seu amigo de há quase quarenta anos, Martin Scorcese. Discursou acerca da inspiração que Scorcese fora e ainda é para si, e sobre a primeira vez que viu um filme, curiosamente do próprio Cecil B. DeMille. Foi aplaudido de pé durante alguns minutos, em homenagem à sua longa carreira recheada de sucessos.
A cerimónia acabou por volta das quatro horas da manhã, hora portuguesa. Faltou um apresentador à maneira, que pusesse o pessoal todo a rir e animar um pouco a cerimónia. E os intervalos de dois em dois prémios dão cabo de qualquer cabeça, especialmente daquelas que renunciaram ao sono de modo a poderem acompanhar os Globos de Ouro em directo, tintim por tintim, até ao último segundo de revelação dos prémios mais importantes da noite. Mas as bolachinhas e o sofá fofinho ajudaram um pouco. E no final fica a sensação de que não poderíamos ter estado noutro local que não em frente à televisão, a papar o que acontecia em Beverly Hills entre as maiores estrelas de Hollywwod.
Há inúmeros bons filmes para ver neste início de 2009, e felizmente uma grande parte estreia em Janeiro e Fevereiro, antes da cerimónia dos Óscares da Academia, o que significa que os poderemos ver antes de serem premiados. Para qualquer cinéfilo, os próximos dias 22 vão ser dias especiais: em Janeiro, poderemos verificar os nomeados definitivos para os Óscares – para não relembrar o já referido falecimento de Heath Ledger, também nesse dia –; e em Fevereiro ocorrerá exactamente a 81ª Cerimónia dos Óscares, para ver durante mais uma madrugada sem pregar olho. Aguardemos e fiquemos, por enquanto, cinéfilos fervorosos, com a recordação desta agradável cerimónia de Globos de Ouro.

Lista completa dos vencedores:

Cinema
* Best Picture, Drama: Slumdog Millionaire
* Best Picture, Comedy Musical: Vicky Cristina Barcelona
* Best Director: Danny Boyle, Slumdog Millionaire
* Best Actor, Drama: Mickey Rourke, The Wrestler
* Best Actress, Drama: Kate Winslet, Revolutionary Road
* Best Supporting Actor: Heath Ledger, The Dark Knight
* Best Supporting Actress: Kate Winslet, The Reader
* Best Screenplay: Simon Beaufoy: Slumdog Millionaire
* Best Foreign Language Film: Waltz With Bashir
* Best Animated Feature: WALL·E
* Best Actor, Musical/Comedy: Colin Farrell
* Best Actress, Musical/Comedy: Sally Hawkins, Happy-Go-Lucky
* Best Original Score: A.R. Rahman, Slumdog Millonaire
* Best Original Song: Bruce Springsteen, The Wrestler
* Cecil B. DeMille Award: Steven Spielberg.
Televisão
* Best Comedy Series: 30 Rock* Best Drama Series: Mad Men
* Best Actor, Drama: Gabriel Byrne, In Treatment
* Best Actress, Drama: Anna Paquin, True Blood
* Best Actor, Comedy: Alec Baldwin, 30 Rock
* Best Actress, Comedy: Tina Fey, 30 Rock
* Best Miniseries: John Adams
* Best Actress, Miniseries: Laura Linney, John Adams
* Best Actor, Miniseries: Paul Giamatti, John Adams
* Best Supporting Actor: Tom Wilkinson, John Adams
* Best Supporting Actress: Laura Dern, Recount.

Há uma primeira vez para tudo...

Ontem, dia 11 de Dezembro de 2008, saiu o terceiro número da única revista de cinema em Portugal, de seu nome PREMIERE; um pouco atrasado, mas sempre bem-vindo. Enviei uma crítica por e-mail, para a revista - tentei a minha sorte (talvez fosse parar à página das críticas dos leitores...). Até ao dia de ontem, não mais me lembrei disso, mas quando a revista finalmente chegou às bancas, fui a correr comprá-la ao sítio do costume. «Espero que goste da surpresa...». E gostei mesmo. Imenso. Nunca pensei que o conseguisse, mas a minha crítica acabou por aparecer, realmente, nesta edição de Dezembro. A primeira publicação de algo que escrevi, o meu primeiro trabalho como jornalista...! É maravilhosa, a sensação :)

Aqui fica o texto:

“Busca Implacável"

Título Original: Taken
Realização: Pierre Morel
Intérpretes: Liam Neeson, Maggie Grace, Famke Janssen
Nacionalidade: França, 2008


Taken é uma das palavras mais ouvidas nos tempos que correm. Somos confrontados com notícias de raptos, desaparecimentos de crianças, redes de tráfico humano espalhadas pelo mundo. É um tema real, por isso merece a atenção e a preocupação cada vez maior pela protecção das pessoas que conhecemos, do mundo e da desumanidade que o caracteriza.
Centrado no papel de Liam Neeson, o filme Busca Implacável é um alerta para o perigo que corremos ao andarmos na rua, ao falarmos com estranhos, ao viajarmos para um país estrangeiro. É um filme sólido, emotivo, com o qual nos identificamos, que vale a pena pelo tema, desvendado através do olhar atento de Pierre Morel.
Quando Kim viaja para Paris, Bryan, o seu pai e ex-agente secreto da CIA, assiste em directo, numa chamada telefónica, ao rapto da filha e da amiga por uma rede albanesa de tráfico de mulheres. Uma chamada intensa, já sem o factor surpresa devido à recorrência do trailer a essa mesma situação. Bryan parte para Paris e, reutilizando amargamente as suas capacidades, persegue os raptores e tenta encontrar a filha.
É a esta busca implacável, movida pelo amor, que assistimos ao longo do filme, sem pausas para recuperar o fôlego, com algum humor negro à mistura, e que nos transporta para uma cidade de Paris onde nada é o que parece. Neeson acarreta a difícil tarefa de representar este pai desesperado por recuperar a filha e punir os culpados pelo crime, num registo magnífico de um homem frustrado pela vida que leva.
Ainda que se consiga salvar uma rapariga, de entre um número incontável de mulheres vendidas e maltratadas diariamente, muitas outras continuarão à espera de uma salvação da vida miserável que lhes é forçada. O argumento do filme alerta para a situação geral, partindo da situação particular de Neeson, de modo a prevenir os raptos e apelar à responsabilidade necessária para enfrentar o mundo em que vivemos. E esse alerta é o ponto alto de uma história que, aparentemente vulgar, comporta uma forte mensagem de esperança.

- Para quem desconhece o mundo, ou já não o reconhece
- O melhor: o tratamento narrativo do tema, o alerta e a interpretação de Liam Neeson
- O pior: a impossibilidade de salvar mais mulheres do tráfico de que são alvo

Nota: 4/5 estrelas
Raquel Silva


Blindness

Digam o que disserem, pensem o que pensarem acerca da sua forma de escrever – criticada por muitos devido à quase total ausência de pontuação –, gostem ou não das suas crenças políticas e religiosas… Saramago é um génio, e tal facto é inegável. A forma como transmite a sua visão do mundo para o papel, recorrendo a metáforas inteligentes e consistentes, destrona qualquer outro escritor e coloca-o no pedestal mais elevado entre os escritores portugueses de todos os tempos. Ensaio sobre a Cegueira é uma obra complexa, intensa, improvável de ser adaptada ao cinema devido à sua ambiguidade, mas Fernando Meirelles aceitou o desafio, e ainda bem que o fez. Saramago chorou ao ver o resultado final. E é mesmo para chorar.
No filme retrata-se o Homem, aquele ser que, aparentemente altruísta, não passa de um animal irracional disfarçado de ser superior. De repente, numa cidade desconhecida, numa época desconhecida, um homem afirma deixar de ver, ficar cego – mas uma cegueira branca, sem a habitual escuridão. A epidemia espalha-se, e depressa contagia a sua mulher, o médico, e um sem número de pessoas por todo o mundo. Os afectados são colocados numa antiga instituição psiquiátrica, em quarentena – cegos, sem condições de higiene, e abandonados pelo resto da civilização. Entre eles encontra-se uma mulher, esposa do médico, que, incompreensivelmente, não ficou cega, mas acompanhou o marido na ida para a quarentena. Esta mulher, que esconde o facto de conseguir ver, é a única esperança do grupo para sair daquela prisão.
Com uma extraordinária realização de Meirelles, alternando entre os tons brancos e azuis, de ângulos inesperados, o filme mostra a violência, a superficialidade, a ganância, a vingança, a vontade de sobreviver a qualquer custo, desprezando o resto da humanidade. Mesmo a mulher que não cegou, a única que, a nosso ver, não se deixou ficar pelo lado animal e procurou ser racional, procurou ver o que se passava à sua volta – mesmo ela deixa o altruísmo para trás e cansa-se de servir os cegos, de tentar guiá-los para fora do edifício onde estavam fechados. O grupo onde está inserida contrasta com outro grupo, a camarata três, que demonstra o lado mais animal do Homem – o espírito de sobrevivência particular, ignorando as necessidades básicas dos outros.
Uma curiosidade interessante é o facto de as personagens não terem nomes próprios. Temos o doutor, a mulher do doutor, a mulher com óculos escuros, o ladrão… mas nada de nomes concretos. Penso que isso demonstra a generalização – não é um simples ser humano que carrega aquelas características, mas sim toda a humanidade. Outro aspecto curioso é a relação entre as pessoas – a situação degradante em que foram colocados une-as de uma forma intensa, como se fossem uma família, e por vezes até se conseguem distinguir alguns momentos de felicidade no meio de tanta calamidade. Esses momentos dão-nos alguma esperança – não por eles, por saírem do edifício e regressarem à civilização; mas por nós próprios, por queremos acreditar que não somos assim, que não nos regemos apenas pelo instinto animal.
A epidemia espalha-se por todo o mundo, não deixando ninguém imune; apenas a mulher do médico continua a testemunhar o que acontece dentro do edifício, a desumanidade entre os homens. Julianne Moore interpreta esta mulher que carrega o fardo de cuidar das pessoas à sua volta, de os guiar para a saída, de os alimentar, proteger e ajudar a sobreviver, num registo magnífico e realista. Consegue transparecer todos os sentimentos que esconde, a emoção da situação e a essência do filme.
É um filme fantástico, com um argumento brilhante, que nos põe a pensar do início ao fim. Como vai acabar? Como vai um grupo de pessoas cegas sobreviver num mundo que deixou de existir devido ao inexplicável “Mal Branco”? Tentamos compreender a metáfora, mas só no final do filme conseguimos apreciar, verdadeiramente, o trabalho psicológico de Saramago e a transposição da obra para o grande ecrã por parte de Fernando Meirelles. É mesmo para chorar, tanto pelo drama da história como pela percepção da realidade.